As resoluções de Ano Novo das PME portuguesas

Da normalidade à sustentabilidade, passando pela engenharia ou pelo digital, conheça os desejos formulados por empresários e gestores para 2022, onde entra o talento e saem votos para as eleições.

A entrada num novo ano costuma ser também um período de reflexão sobre o presente e de fixação de metas para um ciclo que se inicia. Aproveitando o dobrar do calendário, o ECO convidou 13 líderes de pequenas e médias empresas (PME) portuguesas a expressarem os “desejos” para o país e para a economia nacional em 2022, alinhados ou não com as metas do negócio e com as especificidades do setor em que atuam.

Normalidade, normalidade e normalidade. Pedro Raposo, chairman da PRA – Raposo, Sá Miranda & Associados, pede “normalidade para as pessoas, que possam viver sem o receio constante do vírus, para que se sintam seguras em fazer planos para o futuro e viver em plena liberdade”; e também para as empresas, negócios e organizações “não [estarem] sujeitos a variações inesperadas, a sucessivas reorganizações, encerramentos de atividade e outras limitações”.

O porta-voz da sociedade de advogados fundada em 2001, que fatura dez milhões por ano e emprega 170 pessoas em Lisboa, Porto, Faro, Leiria, Ponta Delgada e Évora, deseja ainda que a normalidade se estenda à generalidade dos portugueses, “para que não se agravem mais as desigualdades sociais e económicas e que o país possa retomar o seu crescimento sustentável”.

Pedro Raposo, chairman da PRA – Raposo, Sá Miranda & Associados

“É fulcral que todo o ecossistema de PME consiga cada vez mais ser forte no digital. Essa força vai posicionar e dar destaque ao país enquanto polo de digitalização, e isso só vai trazer impactos positivos para os negócios”, reclama Pedro Barbosa, CEO da Wise Pirates, sublinhado que a melhor forma de explorar a internacionalização é também através do digital.

Para o gestor da agência de marketing digital sediada no Porto “é urgente acompanhar os investimentos tecnológicos com novos processos e um mindset digital, que inclua capacidade analítica forte”. Por isso, uma resolução de Ano Novo é a “formação e capacitação massiva em digital de todas as pessoas nas empresas, sem nenhuma exceção nem pretexto”.

Pedro Barbosa, CEO da Wise Pirates

Na margem Sul do rio Douro, Teresa Guedes, diretora do Zoo Santo Inácio, que emprega 45 pessoas e fatura dois milhões por ano, deseja que a conservação da biodiversidade e a preservação da natureza sejam temas “importantes e prioritários em muitas decisões governamentais” e espera em 2022 ver “mais pessoas despertas para esta temática, que queiram fazer a diferença, com simples gestos”, pois “só garantindo a sustentabilidade ambiental poderemos falar de uma economia próspera, saudável e robusta”.

No entanto, a diretora deste parque zoológico aberto desde 2000 em Avintes (Vila Nova de Gaia), gostaria que “certas medidas tomadas fossem mais sensatas (e menos extremistas), vendo todas as variantes da equação”, dando até o exemplo da erradicação total do plástico que teria “efeitos nefastos para o ambiente, para as florestas e para o consumo de água”. A fechar, mais um desejo: que os projetos de investigação “incríveis” que existem no país e em espaços de conservação contassem com mais apoio político e financeiro.

Teresa Guedes, diretora do Zoo Santo Inácio

A partir do mesmo concelho nortenho, o CEO da Ecoinside, António Cunha Pereira, coloca parte das fichas na simplificação, na desburocratização e na digitalização da economia para que “tudo se torne mais simples, os processos sejam mais eficientes, dependamos menos de burocracias e consigamos fazer mais e melhores projetos em menos tempo”. Sem esquecer a aposta nas energias renováveis, setor em que atua a empresa criada em 2006, que tem 17 trabalhadores e soma dois milhões de vendas por ano.

“Há ainda muito por fazer e só assim, eliminando a nossa dependência pelos combustíveis fósseis, poderemos garantir um futuro sustentável social, ambiental e economicamente. (…) E sublinho a necessidade a cada dia crescente da implementação do conceito de smart city em todas as cidades portuguesas, tendo como palavras de ordem a eficiência energética, o recurso a energias renováveis, a mobilidade elétrica, as novas tecnologias ao serviço das pessoas”, completa o gestor.

António Cunha Pereira, CEO da Ecoinside

Além de desejar que 2022 seja o ano em que as fontes renováveis consolidem o seu crescimento para o país ficar cada vez mais amigo do ambiente e independente energeticamente, Gonçalo Sousa Soares aposta na alta-velocidade ferroviária e na construção do novo Aeroporto de Lisboa para “dotar o país de infraestruturas que lhe garantam mobilidade e ligação ao exterior”. Por isso, pede “encarecidamente a toda a classe política para não gastar mais tempo e dinheiro com projetos que ficam sistematicamente na gaveta”.

O cofundador e administrador da Afaplan, que ganhou contratos de 18 milhões na ferrovia e nas renováveis brasileiras, aponta, porém, como “desejo maior” a reestruturação da indústria da construção em Portugal para que se torne de novo um setor estratégico, calculando que perdeu 45% da mão-de-obra desde 2008, ou seja, 240 mil pessoas, e deixou fugir quadros qualificados para o estrangeiro.

Gonçalo Sousa Soares, administrador da Afaplan

“Desejo muito que em 2022 seja criado um plano nacional – com acordo pluripartidário que garanta estabilidade, mesmo em caso de mudanças políticas. O Estado deve uniformizar os investimentos do PRR no tempo e criar condições para que os privados tenham interesse em investir, as Universidades devem estar mais próximas das empresas, ouvindo-as e adaptando-se em função das expectativas do mercado e as empresas têm de se estruturar e preparar para as exigências pedagógicas e digitais que as capacitem para o futuro da indústria”, detalhou.

Recrutar e reter talento entra na lista de desejos

Em Aveiro, Carlos Breda espera que este ano já seja possível visitar os clientes e parceiros e recebê-los nas instalações da Bresimar Automação, reforçando que é preciso que o otimismo e a confiança retornem à economia, permitindo investimentos por parte das empresas, a normalização da cadeia de abastecimento, a estabilidade e confiança nos mercados e uma visão focada em novos projetos.

O líder do grupo que detém a Tekon Electronics, que ganhou um concurso para controlar a qualidade do sangue na Letónia, coloca igualmente a atração e retenção de talento como prioridade e deseja que “o país seja capaz de adequar a oferta à procura de talento, com mais sinergias entre o Ensino e o tecido empresarial, e que simultaneamente existam condições que incentivem e estimulem a retenção dos colaboradores, com planos de carreira a longo prazo”.

Carlos Breda, CEO da Bresimar Automação

A criação de mais condições para atrair jovens talentos para a Engenharia Civil – “enfrenta hoje uma escassez de mão-de-obra que compromete a adequada resposta aos investimentos previstos no país, inclusive no âmbito do PRR”, dramatiza Davide Borges -, encabeça precisamente a lista de resoluções de Ano Novo do COO da Riportico, fundada em 2004 e sediada em Cabanas de Viriato (Viseu), que faturação cinco milhões de euros e dá emprego a mais de 220 pessoas, incluindo os prestadores de serviços.

Outros votos para este ano são o reforço da digitalização na Engenharia Civil e crescimento deste segmento, considerando que “só desta forma será possível reduzir-se cada vez mais os custos de construção e aumentar a qualidade das infraestruturas”; e a “maior mobilização na adoção de práticas mais sustentáveis” que são necessárias ao cumprimento da meta de redução de 55% das emissões de carbono em 2030, para ser atingida a neutralidade carbónica até 2050.

Davide Borges, COO da Riportico Engenharia

Reter talento, em particular talento jovem, é crucial para a competitividade das empresas e da economia. Só assim poderemos promover a inovação e a criatividade, essenciais num mercado que evolui de forma acelerada, impulsionado pela tecnologia”, concorda Mário de Sousa, administrador da Portocargo, para quem é também “urgente uma intervenção séria e eficaz que proteja a atividade e as empresas transitárias, assegurando as condições para que as PME nacionais possam garantir, em condições financeiras e temporais competitivas, a importação e exportação das matérias-primas e respetivos produtos”.

O maior equilíbrio na distribuição de rendimentos – implica “reduzir desigualdades entre classes de empregados superprotegidas e outras superprecárias, ambas negativas” – e a criação de “empregos atrativos, com salários dignos e em organizações com um propósito claro” são desejos de João Henriques, sócio da Iberis Capital. Outro é o aumento da produtividade, que diz passar por fomentar o investimento, com especial foco na inovação e I&D, garantir a estabilidade dos regimes fiscais e regulatórios, apostar na educação e formação ou alocar recursos aos setores onde a produtividade é maior”.

João Henriques, sócio da Iberis Capital

“Finalmente, desejamos que o país continue a melhorar a qualidade das suas instituições. Isto aplica-se ao sistema político, aparelho do Estado, sistema de justiça, reguladores, universidades e outros agentes públicos, mas também a investidores, gestores, sindicatos, jornalistas, setor social e outros agentes privados. É importante ter consciência de que o bom governo e a melhoria da qualidade de atuação em todas as esferas são condições necessárias (e talvez conjuntamente suficientes) para os três desejos expressos”, frisa o sócio da sociedade de capital de risco fundada em 2017, que conta com 18 colaboradores em Lisboa.

Votos para o voto nas eleições legislativas

O controlo da pandemia é uma resolução expressa pela maioria dos empresários e gestores consultados pelo ECO. É o caso de Paulo Pimenta, CEO do KuantoKusta, que tem escritório em Vila do Conde e 70 trabalhadores, e que deseja que o comércio eletrónico continue a crescer, pois “irá permitir uma maior concorrência entre as lojas, preços mais competitivos nesta época de grande volatilidade, uma maior oferta de produtos e uma melhoria na qualidade de serviço para os portugueses”.

Mas a poucos dias das legislativas de 30 de janeiro são também vários os que não esquecem o contexto eleitoral. O porta-voz deste comparador de preços criado por três irmãos lusodescendentes, que fatura anualmente cinco milhões de euros, espera que saia das urnas “um governo forte e independente” para tomar “decisões necessárias e urgentes” que faz questão de elencar: “Uma fiscalidade menos forte para as pessoas e as empresas; maior incentivo ao investimento nacional e estrangeiro para criação de emprego qualificado; e maior controlo das contas públicas para que possamos iniciar a baixa da dívida”.

Paulo Pimenta, CEO do KuantoKusta

Nuno Machado, CEO da YDigital Media, tem também como primeiro desejo “virar a página no combate à pandemia” e o segundo no campo político, esperando que as próximas eleições legislativas tragam “a estabilidade política necessária”, com o argumento de que “não podemos andar a saltar entre sucessivas crises com Governos sustentados por coligações instáveis, sem um projeto reformista claro e mobilizador”. “Mais do que táticas e contabilidade política, é urgente sufragarmos uma ideia de país”, acrescenta.

“O terceiro desejo é de ação. O próximo Governo tem de apostar em tirar Portugal da cauda da Europa, potenciar o crescimento económico e valorizar um modelo que não esteja assente em alta carga fiscal penalizadora tanto das empresas como dos trabalhadores. É nesse novo país, potenciador do empreendedorismo e da inovação, que a YDigital quer criar valor e cada vez mais postos de trabalho”, resume o líder da agência que no final do verão assegurou garagem e transportes para incentivar os colaboradores a voltarem ao escritório no Parque das Nações.

Nuno Machado, CEO da YDigital Media

Também Vasco Varela está preocupado com a estabilidade legislativa e fiscal, adivinhando “possíveis acordos que viabilizem o próximo governo” e que podem assustar os investidores nacionais e estrangeiros. Antevendo o aumento das taxas de juro e “cenários recentes que nos levaram a medidas de austeridade”, o diretor de projetos e desenvolvimento de negócio do Grupo Fortera aponta à redução da despesa do Estado, além da “redução substancial dos impostos” para compensar as pessoas pelo aumento generalizado dos preços e conferir às empresas capacidade de investimento e criação de emprego.

Vasco Varela, diretor de Projetos e Desenvolvimento de Negócio do Grupo Fortera

“Acreditando que o pior da pandemia já passou, mas que por outro lado iremos sentir em breve pesados impactos económicos da mesma, será muito importante aproveitarmos as oportunidades que nos apresentam com o PRR, no sentido de reequilibrarmos a dependência da nossa economia em alguns setores e apostarmos noutros, estratégicos e que se apresentam como diferenciadores e de futuro, sempre assente nos pilares da transformação digital e a sustentabilidade”, resumiu o gestor deste grupo imobiliário fundado em 2015 no Porto, com 20 pessoas e um volume de negócios anual a rondar os 15 milhões de euros.

Finalmente, o fim da pandemia e o “regresso à normalidade de relações”, e que em 2022 Portugal “encontre o seu caminho de crescimento sustentado e consolidado, permitindo um melhor nível de vida para todos os cidadãos” são os votos de Miguel Oliveira, CEO da Edigma. Que termina com um desejo para a tecnológica de Braga criada em 2008, que fatura oito milhões por ano e emprega 80 pessoas: “Que continue a criar as mais marcantes experiências que combinam o espaço físico com o espaço digital e que, em última análise, se traduzirão em melhores experiências humanas”.

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