Portugal obtém 1.500 milhões com juros negativos recorde a seis meses

Primeiro leilão de Bilhetes do Tesouro do ano traduziu-se num financiamento de 1.500 milhões e com os juros no prazo a seis meses em mínimos de sempre.

Portugal conseguiu levantar 1.500 milhões de euros em títulos de dívida de curto prazo e registou taxas ainda mais negativas nos Bilhetes do Tesouro com prazo de seis meses, algo que não deixa de surpreender face ao agravamento dos juros nos mercados de dívida em todo o mundo por causa da alta inflação e da pressão junto dos bancos centrais para subirem preço do dinheiro.

O IGCP obteve 495 milhões de euros em bilhetes com maturidade em julho e observou uma taxa de -0,596%, a mais baixa de sempre no prazo de meio ano. Compara com a taxa de -0,571% registada no leilão semelhante realizado em maio. A procura nesta linha foi forte, totalizou os 1.365 milhões, quase três vezes mais do que o Tesouro colocou, o que contribuiu para uma redução da taxa final.

Já no leilão de bilhetes com maturidade de 12 meses foram levantados 1.005 milhões de euros a um juro de -0,574%. Aqui registou-se um ligeiro agravamento da taxa em relação à última operação comparável, em junho, que teve um juro de -0,594%. Ainda assim, a taxa desta quarta-feira foi a segunda mais baixa de sempre. A procura atingiu os 1.675 milhões.

Contas feitas, o IGCP obtém assim os 1.500 milhões de euros que tinha definido como teto máximo para esta operação e com resultados robustos, nomeadamente a taxa de juro.

Taxa a 6 meses regista mínimo

Fonte: IGCP

Era expectável um agravamento dos juros neste leilão, tendo em conta o atual ambiente do mercado, em que a pressão inflacionista está a deixar cercados os bancos centrais em todo o mundo no sentido de subirem as taxas diretoras para travar uma aceleração insustentável dos preços.

É o que a Reserva Federal norte-americana se prepara para fazer: os investidores antecipam quatro subidas já este ano, a começar já em março, enquanto o Banco Central Europeu (BCE), apesar de também estar a ser pressionar a agir nesse sentido, tem afastado esse cenário pois considera que a a alta inflação está a ser suportada em fenómenos temporários.

"Os planos de compra de estímulos começaram a ser retirados e a expectativa dos mercados é que comecemos a assistir a subidas nas taxas de referência, movimento que já é visível nas taxas de médio e longo prazo, mas que ainda não afeta muito as de curto prazo.”

Filipe Silva

Diretor de investimentos do Banco Carregosa

Neste cenário, os juros da dívida da Zona Euro e dos EUA estão a agravar-se no mercado secundário, sendo o melhor reflexo do atual momento a inversão das taxas das obrigações alemãs a dez anos para terreno positivo esta quarta-feira, o que não acontecia desde maio de 2019, há três anos. Já a taxa portuguesa neste prazo está nos 0,643%, o valor mais alto desde junho de 2020, mantendo-se em alta depois da última reunião do BCE, em dezembro, que determinou o fim das compras de emergência.

“Os bancos centrais têm estado sob alguma pressão, devido aos fatores como inflação, interrupção nas cadeias de abastecimento e elevados preços de energia, fatores que os levaram a iniciar os primeiros ajustes às suas políticas monetárias, no entanto e como ainda estamos numa fase de recuperação das economias, não se esperam que estes ajustes sejam muito agressivos”, explica Filipe Silva, diretor de investimento do Banco Carregosa.

“Os planos de compra de estímulos começaram a ser retirados e a expectativa dos mercados é que comecemos a assistir a subidas nas taxas de referência, movimento que já é visível nas taxas de médio e longo prazo, mas que ainda não afeta muito as de curto prazo. É muito importante, e em particular para Portugal, poder continuar a beneficiar do cenário atual de taxas de juro baixas, para poder fazer face ao elevado nível de endividamento”, acrescenta o responsável.

Este foi o segundo financiamento de Portugal este ano, depois da emissão sindicada realizada na semana passada e através da qual a República se financiou em 3.000 milhões de euros em obrigações a 20 anos, tendo pago uma taxa de juro de perto de 1,2%.

(Notícia atualizada às 11h12)

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