Pandemia e campanha condicionam abstenção

A abstenção tem vindo a subir nas legislativas, e ultrapassou os 50% nas eleições de 2019. Fatores como a pandemia e os motivos que levaram a antecipar as eleições podem desmobilizar eleitores.

Os portugueses vão mais uma vez às urnas durante a pandemia, para eleger os deputados da Assembleia da República, numas eleições que não estavam previstas para esta altura mas foram antecipadas devido ao chumbo do Orçamento do Estado. Nas últimas legislativas a abstenção tem vindo a subir, uma tendência que poderá manter-se e também ser influenciada, este ano, pela Covid-19, bem como pela desmobilização dos eleitores.

Segundo os dados dos últimos anos, tipicamente as eleições com maior abstenção são as europeias, e aquelas com menor são as autárquicas. As legislativas ficam assim no meio, mas a percentagem de eleitores que tem escolhido não comparecer nas urnas está a aumentar. Desde as primeiras legislativas, a abstenção passou de 8,5% em 1975 para 51,4% em 2019.

Olhando para o histórico das legislativas, a partir de 1980 a abstenção tem crescido sempre, com exceção das eleições de 2002 e 2005. Nas últimas eleições para a Assembleia da República, atingiu-se assim um recorde de abstenção, em que mais de metade dos eleitores recenseados decidiram não ir votar.

Este ano, “para além dos fatores que, eleição pós eleição, explicam e têm contribuído para uma elevada taxa de abstenção”, há dois aspetos adicionais, aponta José Santana Pereira, professor de Ciência Política no ISCTE, ao ECO. Um deles é a pandemia, apesar de não a considerar o principal fator da “taxa elevada de abstenção” que antecipa, já que a maioria da população está vacinada, “há a crença de que a atual variante predominante não é muito perigosa, e foram acionadas medidas e modalidades para impedir um forte impacto do contexto pandémico, como o voto antecipado”.

No domingo passado, foram 285.848 os eleitores que votaram antecipadamente. Quem se inscreveu mas acabou por não ir, tem sempre a possibilidade de ir este domingo. Além disso, as pessoas que estavam confinadas tiveram a oportunidade de pedir para votar, sendo que o seu voto foi recolhido por equipas municipais entre 25 e 26 de janeiro. Votaram nesta modalidade mais de 13 mil pessoas.

Já as pessoas que se encontram em isolamento este domingo, quer por estarem infetadas quer por serem um contacto de risco, vão poder sair para votar. O Governo determinou que tal era possível, a partir de um parecer do Conselho Consultivo da PGR, recomendando que estas pessoas fossem ao final do dia, entre as 18h e as 19h.

Assim, o outro fator que poderá influenciar a afluência às urnas é “o possível desencanto e desmobilização por parte de cidadãos”, por um lado porque “facilmente podem olhar para estas eleições como evitáveis, resultantes de birras irresponsáveis de partidos num timing extremamente infeliz”, explica o politólogo.

Isto já que estas eleições surgem no seguimento do chumbo do Orçamento do Estado para 2022, ano que será marcado pelo início da utilização dos fundos da chamada “bazuca europeia”, após o PS não conseguir chegar a acordo com os parceiros de esquerda que, nos últimos anos, contribuíram para viabilizar o documento.

Além disso, as pessoas poderão também reagir “negativamente a uma campanha chocante em termos de forma (arruadas, magotes de gente sem qualquer distância de segurança) e frequentemente conteúdo, com alguns líderes políticos muito volúveis nas suas posições”.

Esta campanha, apesar de ocorrer numa altura em que atingem recordes de casos diários de Covid-19, acabou por juntar muita gente nas ruas, e gerou também tensões elevadas.

Veja aqui o vídeo com o retrato da abstenção nas eleições em Portugal:

(Notícia atualizada às 10h30)

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