Pandemia deixa industriais em alerta com falta de mão-de-obra. Situação é insustentável

"O acompanhamento que estamos a fazer no terreno revela uma situação preocupante e, de certa forma, nova", diz ao ECO António Saraiva. Terá "um efeito sistémico que deixará marcas", alerta.

A dois dias das eleições legislativas há 1.173.752 pessoas em isolamento. Mais de um milhão de pessoas que só deve sair de casa para fazer testes ou ir votar entre as 18h00 e as 19h00 de domingo. A falta de mão-de-obra está a deixar os empresários em estado de alerta.

“O confinamento de um número tão elevado de pessoas está a provocar interrupções e paralisações, designadamente nas empresas industriais e nas que precisam da presença das pessoas. Os gestores estão a pagar horas extraordinárias e a fazer o possível para evitar as perturbações que impactem seriamente na produção”, diz ao ECO o presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP).

A indústria têxtil é apenas um exemplo. “A falta de mão-de-obra é um desastre com implicações gigantescas no funcionamento das empresas, porque são obrigadas a parar, não conseguindo cumprir os prazos das encomendas”, relata o presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP). “Chegam à associação imensas queixas de empresas que não conseguem cumprir as encomendas porque não têm pessoas”, revela Mário Jorge Machado.

Os industriais pedem aos trabalhadores no ativo que façam horas extra e têm tentado negociar com cliente novos prazos para a entrega das encomendas, explica o presidente da ATP. “Há empresas que resolveram parar alguns dias para ver se a situação melhorava, mas os que estavam em casa voltaram e foram outros”, ironiza Mário Jorge Machado, lembrando que estas paragens vão “ter implicações no volume de negócios de janeiro”.

António Saraiva diz que ainda não é possível dar números concretos, mas o acompanhamento que estão a fazer no terreno “revela uma situação preocupante e, de certa forma, nova”. “Durante as fases anteriores da pandemia, havia menos pessoas infetadas e o confinamento excluía certas categorias profissionais”, explica o patrão dos patrões. “Hoje não é assim: há um efeito sistémico que deixará marcas”, assegura, deixando, contudo, uma nota positiva: “Para já, os danos estão a ser compensados”.

E essas marcas vão fazer-se sentir na produtividade, inflação e até nas contas públicas, detalha o presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP). “Em Portugal 96% das empresas têm até dez trabalhadores e com níveis de absentismo de 30 a 50%, muitas estão quase paradas”, diz ao ECO Luís Miguel Ribeiro. “Isto cria enormes dificuldades no cumprimento de prazos, afetando o lado da oferta e consequentemente aumentando preços” e contribuindo para o agravamento da inflação, sublinha.

Por outro lado, “o absentismo vai reduzir a produtividade o que pode comprometer o crescimento económico do país”. E “há ainda a ter em conta o impacto na despesa pública porque é necessário compensar as pessoas que ficam em casa e que não podem exercer a sua atividade em teletrabalho, mas simultaneamente há uma redução da receita porque as empresas vão pagar menos impostos uma vez que têm menos atividade”.

Para tentar ultrapassar este constrangimento, a Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) pede que o período de isolamento seja reduzido, à semelhança do que já acontece noutros países. “As pessoas que estão infetadas têm de ficar em casa, mas quem esteve em contacto com um caso positivo e o teste deu negativo deveria poder ir trabalhar”, defende, em declarações ao ECO Adão Ferreira, secretário-geral da associação.

Mário Jorge Machado corrobora e vai mais longe sugerido que o país adote a mesma política seguida pela Dinamarca: quem está doente fica em casa, quem está bem de saúde pode ter uma vida normal. O empresário conta um caso limite da sua empresa em que um colaborador ficou três semanas em casa, primeiro por contacto com o filho infetado, depois porque a esposa acabou por ficar positiva e finalmente porque o próprio contraiu o vírus.

Adão Ferreira diz que “não está a ser fácil gerir os constrangimentos da atividade”. No seu setor em particular, para além de lidar com a falta de mão-de-obra, decorrente do elevado número de pessoas em isolamento, as empresas continuam a ser confrontadas com a escassez de matérias-primas, não só devido à Covid mas também à falta de componentes eletrónicos e semicondutores, “que se vai continuar a fazer sentir até final deste ano”.

Preocupado com a “incerteza em torno da indústria automóvel”, Adão Ferreira lembra que as empresas de componente são “resilientes” e têm “apostado ao máximo na flexibilidade seja ao nível de horas extra, ou outras soluções, para se tentam adaptar às circunstâncias”. “Como o mercado da indústria automóvel está em baixa torna a situação mais gerível, mas não se pode prolongar”, alerta. “Qualquer dia a corda rebenta”, avisa.

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