Sines será a nova porta de entrada do gás na Europa? Costa diz que é possível

“Temos infraestruturas para acolhimento e exportação para a Europa”, assegurou o primeiro-ministro. O problema é mesmo fazer o gás chegar a França e, daí, ao resto da Europa.

Quando o tema é energia, Portugal e Espanha não são tanto uma península, mas mais uma ilha no extremo ocidental europeu. O tema das interconexões elétricas e de gás (ou falta delas) é antigo mas ganha agora maior dimensão e destaque em plena crise energética na Europa.

Isto numa altura em que a França (uma das grande opositoras às interligações energéticas para lá dos Pirinéus) tem de importar eletricidade mais barata da Península Ibérica (porque é produzida a partir de fontes renováveis) e o resto da Europa se vê confrontada com uma dependência de 40% do gás que compra à Rússia.

“Portugal é, felizmente, menos dependente do que outros Estados da Europa em matéria energética da Rússia”, disse esta quinta-feira António Costa

No dia em que Vladimir Putin deu ordem para atacar militarmente a vizinha Ucrânia, o primeiro-ministro não perdeu a oportunidade para lembrar que a UE deve considerar “o aumento das interconexões entre Portugal e Espanha e de Espanha com o conjunto da Europa” como “absolutamente decisivo para aumentar significativamente a segurança energética da Europa”.

E lembrou “a articulação de Portugal com um conjunto de países africanos que são fornecedores de energia” e que o país pode ser a porta de entrada os produtos energéticos vindos do outros lado do Atlântico, dos EUA. “Temos infraestruturas para acolhimento e exportação para a Europa”, assegurou. O problema é mesmo fazer o gás chegar a França e, daí, ao resto da Europa

Olhando para o mapa, é fácil perceber a analogia de uma quase ilha energética. A Portugal o gás natural chega sobretudo por mar, em navios metaneiros, via Porto de Sines, onde é armazenado no terminal de GNL da REN. Por terra, há apenas dois gasodutos: um que liga Campo Maior a Badajoz e outro que liga Valença do Minho a Tuy. Chegou a estar prevista uma terceira interligação de gás com Espanha, mas o projeto foi cancelado.

Quanto a Espanha, o país está ligado ao gás natural produzido no norte de África por dois gasodutos através de Tarifa e Almeria (o MAGHREB-EUROPE GAS, que liga a Marrocos, e o MEDGAZ, que liga à Argélia).

Na fronteira com França (País Basco e Navarra) há outros dois gasodutos: um entre Irun, do lado espanhol, e Biriatou, do lado francês; e um segundo em Larrau. Também aqui foi cancelado o projeto de gasoduto Midcat que deveria ligar Espanha e França através dos Pirenéus.

Quanto a pontos de entrada marítimos de GNL, Espanha conta com os portos de Ferrol, Bilbau, Huelva, Cartagena, Valência e Barcelona.

Na visão de Costa, o atual ataque militar da Rússia junto a Ucrânia deve ser a “ocasião para a UE olhar para a questão da segurança energética numa ótica de 360 graus, e perceber como é fundamental diversificar as fontes de abastecimento de energia à Europa e diversificar as energias utilizadas na Europa, acelerando o processo de descarbonização das energias renováveis”.

Já no passado, António Costa insistiu em Bruxelas num aumento das interconexões energéticas entre Portugal e Espanha e entre a Península Ibérica e França. “Este é um tema que se arrasta há muito tempo e em que é essencial encontrar soluções no quadro europeu. Portugal cumpriu escrupulosamente a antecipação do encerramento de produção de eletricidade a carvão. Portanto, é altura de a França cumprir as obrigações que assumiu de permitir o aumento das interconexões”, frisou.

Pode Sines levar o gás natural necessário até ao coração da Europa?

Também o secretário de Estado da Energia, João Galamba, já tinha defendido que para ultrapassar a forte dependência face ao gás russo (40%), a Europa tem de repensar a sua estratégia e aproximar-se do perfil da Península Ibérica: diversificar fornecedores e apostar mais no Gás Natural Liquefeito, transportado por navios metaneiros, lembrando que os EUA já reforçaram a sua capacidade de exortação de gás por essa via para a Europa.

Uma das portas de entrada do gás americano na Europa, diz Galamba, podia ser o Porto de Sines. “No entanto há ainda a limitação da interligação ente Espanha e França. O gasoduto nos Pirinéus existe mas tem pouca capacidade. O papel dos portos da Península Ibérica tem de ser repensado, apesar da resistência de França”, rematou Galamba, relembrando que “a melhor defesa contra a dependência do gás natural é investir mais nas renováveis”.

Um estudo do think tank belga Bruegel também reconhece que “a Península Ibérica é um hub para terminais de importação de Gás Natural Liquefeito” (gás natural em estado líquido que foi arrefecido para facilitar a segurança de armazenamento e transporte em navios) proveniente, por exemplo, dos Estados Unidos, que até já aumentaram a sua produção para exportar mais para a Europa.

Diz o mesmo estudo que a região da Península Ibérica pode importar 40 terawatts-hora (TWh) por mês, mas só pode consumir apenas 30 terawatts-hora. O desafio é transportar o excesso de gás para o resto da Europa, já que os gasodutos existentes permitem uma transferência máxima de 5 terawatts-hora por mês.

Além disso, o sistema de gasodutos da Europa central e do leste foi originalmente concebido para levar as importações do leste aos consumidores finais. Apesar do investimento em capacidade de fluxo reverso e da construção de novos gasodutos, se muito gás viesse do oeste da Europa, os gargalos dos gasodutos poderiam impedir entregas suficientes para a Europa central e oriental.

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