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Franchising chega a 30 mil empresas e dá 200 mil empregos em Portugal

Em Portugal, o peso do franchising no PIB é duas vezes superior ao da média mundial. Das limpezas aos ginásios, passando pela estética, conheça algumas marcas que apostam neste modelo de negócios.

Quase 6% do PIB português — compara com a média mundial de 2,7% –, cerca de 30 mil empresas e quase 200 mil postos de trabalho. É este o atual retrato do franchising em Portugal, que esta semana esteve concentrado no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, onde três dezenas de marcas participaram na 25ª edição da Expofranchise, um evento organizado pela Associação Portuguesa de Franchising (APF).

Após uma interrupção no ano passado devido ao contexto de pandemia, esta feira direcionada a empresários e empreendedores de todo o país, regressou em 2022 num contexto de crescimento do setor, com a associação liderada por Cristina Matos a caracterizar o atual período como uma oportunidade para o empreendedorismo, para a empregabilidade e para a reorientação da carreira.

Foi em 1987 que o franchising chegou a Portugal, contando atualmente com perto de 140 marcas, explica a secretária-geral da APF. Para a responsável, a evolução do setor pinta uma imagem clara de como “o franchising é a melhor forma de empreender com segurança porque alguém já testou o modelo, verificou que funciona, e começou a partir daí a fazer franquia”.

Cristina Matos, secretária-geral da APFHenrique Casinhas/ECO

O facto de ter crescido em plena pandemia é apontando como reflexo do sucesso deste modelo. Cristina Matos garante que há marcas que “não só ganharam exponencialmente, como tiveram os seus melhores anos de faturação” no período da Covid-19. E destaca algumas áreas: a imobiliária com a RE/MAX, a construção com a MELOM, ou os grupos de distribuição como o Auchan. Ressalva ainda que, entre as 10% de empresas que decresceram, estão unidades que já mostravam sinais de pouca liquidez antes do surgimento do novo coronavírus.

A CEO destaca que o franchising representa uma saída para a empregabilidade e reorientação de carreira, tanto para os que sempre ambicionaram tornar-se empresários, como para os que ambicionam apenas criar o próprio emprego. “Abrir uma unidade em franchising é gerar emprego”, insiste. Por outro lado, sublinha que é muito mais seguro avançar neste modelo: “na falta de espírito empreendedor vou ter alguém que vai andar comigo ao colo”.

A responsável defende ainda não haver diferença entre o empresário de franchising e qualquer outro. O único requisito é ser empreendedor. Apesar disto, admite a ideia popular de que limita a liberdade do empresário. “Há franchisings para tudo. Há uns que dão possibilidade para a pessoa ter uma parte criativa, há outros que dizem não haver nada a fazer, mas ouvem os franqueados. Grande parte das ideias vem de dentro da própria rede”, esclarece. O mais importante, insiste, é saber trabalhar em rede, pois nenhum franqueado trabalha isoladamente e é essa rede que vai transmitir o know-how do negócio.

Medir o pulso ao tecido empresarial do franchising

Na Expofranchise, as marcas apresentaram conceitos distintos. O grupo NBRAND, liderado por Cândido Mesquita, representa a tendência para o multifranchising. O gestor explica que, após a abertura de um franchising, o empresário pode, em seguida, abrir mais marcas. “Agora, o abrir mais marcas levanta aquela velha questão dos ovos da galinha estarem todos no mesmo cesto”, contrapõe. A solução para este problema, garante, reside na diluição do risco através da diversificação de investimentos.

Cândido Mesquita, CEO do grupo NBRANDHenrique Casinhas/ECO

A NBRAND nasceu com a marca de limpezas residenciais House Shine há quase 14 anos. Além de já ser uma marca internacional, conta hoje com perto de 100 franqueados em Portugal. Em média, a cada dois anos o grupo estabelece uma nova marca, mas Mesquita admite que muitas não vieram a público. Urban Obras foi a marca que se seguiu à House Shine, um conceito nascido há 11 anos e que alia a construção com o design.

O grupo assegura uma faturação anual de 20 milhões de euros e já conta com uma centena de colaboradores diretos, mais 700 ligados ao grupo, distribuídos por mais de 200 escritórios. Mesquita adianta que, embora as marcas estejam distribuídas por todo o país, a sua imobiliária UNU tem uma presença mais forte no Centro do país. Como tal, o CEO refere que o grupo ainda se encontra em busca de parceiros para a zona de Lisboa, onde ainda não tem uma grande presença.

Já Paulo Oliveira, CEO da Pontopay, esteve na feira a apresentar um modelo com duas frentes: a vertente “loja do cidadão” e outra comercial. Explica que a extinção de alguns serviços junto das Lojas do Cidadão inspirou-o a criar um serviço de apoio que pudesse “colmatar essa falha”. O resultado foi uma loja nascida em 2013, onde o cliente pode encontrar todo o tipo de serviços de utilidade pública, como telecomunicações ou energia, seguros, certificações, viagens, marketing, e ainda realizar todo o tipo de pagamentos e transferências.

Paulo Oliveira, CEO da PontopayHenrique Casinhas/ECO

Na vertente comercial, o empresário destaca o crescimento do setor das energias renováveis. Diz que é a que tem registado maior crescimento e que a Pontopay registou durante a pandemia um crescimento “na ordem dos 300%”. A aposta “principalmente nos painéis solares” foi o segredo para ultrapassar a crise pandémica, explica o CEO, acrescentando que a marca prepara-se para apostar ainda este ano na área imobiliária e financeira.

Nem sempre foi assim, conta Oliveira. “Quando nascemos, durante vários anos, vivemos 99% da área das telecomunicações”. Hoje, cerca de 60% da faturação vem da área das energias. Em rápida expansão, partilha que só em março foram angariados 6.000 novos clientes, pelo que está a apostar na expansão para países como o Brasil ou Angola. Londres foi já um ponto de entrada no exterior para a Pontopay, que após faturar três milhões de euros em 2021, espera subir para os cinco milhões em 2022.

Pedro Simão, CEO Fitness FactoryHenrique Casinhas/ECO

Já a marca Fitness Factory, que foi criada em 2015, entrou no mundo do franchising por acaso, confessa o CEO, Pedro Simão. Poucos dias após a atual cadeia de ginásios abrir portas nas Caldas da Rainha, recebeu um contacto de um potencial franqueado. O modelo de negócio de franchising só foi desenvolvido depois deste contacto, mas logo percebeu que podia ser uma solução para o desejado crescimento. No ano seguinte começou a “franchisar” e em 2017 abriu a primeira franquia.

À semelhança da Pontopay, também o Fitness Factory cresceu durante a pandemia. A estratégia definida assentou numa equipa dedicada ao aumento do consumo virtual, através de soluções fitness em casa para reter os clientes. E outra equipa a “preparar o futuro”. “O facto de não fecharmos unidades deu-nos uma força e credibilidade que aumentou a confiança das pessoas na marca”, relata. Por outro lado, isso permitiu à franquia abrir novas unidades em 2020 e 2021, elevando o total para os atuais 24 ginásios.

Com oito unidades adicionais prontas a abrir a partir de maio, Pedro Simão destaca a “comunicação horizontal” como um dos pilares do sucesso da marca. O facto de deter oito unidades próprias permite que os responsáveis estejam numa linha de contacto direto com os seus franchisados, agilizando desta forma essa comunicação em rede.

Em 2021, a franquia recuperou 90% da faturação, para dez milhões de euros, bem como 85% dos clientes. Em 2022 espera aumentos de quase 30%. Ainda assim, relata que há clubes que já ultrapassaram os valores pré-pandemia. Estes top performers, como descreve o CEO, encontram-se principalmente nas zonas residenciais. Mais prejudicadas pelo teletrabalho estão as unidades situadas em áreas empresariais.

Cristiano Campelo Silva, Territory Manager de Portugal da OnoderaHenrique Casinhas/ECO

A Onodera é uma das mais recentes adições aos franchisings em Portugal. Cristiano Campelo Silva, Territory Manager da marca, começou por ser um franchisado no Brasil, há 15 anos. Hoje gere a expansão da franquia em Portugal. Depois de conquistar o mercado brasileiro há 41 anos, somando 12 milhões de clientes no país, começou a estudar o mercado português em 2018. Devido à pandemia, o processo de franchising foi interrompido, mas em abril de 2021 abriu a primeira clínica de estética em Braga.

A comercializar o franchising desde outubro, conta já com duas unidades vendidas: uma no Parque das Nações, em Lisboa, e outra no Porto. “A gente percebeu que a Onodera também é respeitada pelo público português”, acrescenta o gestor, que emprega uma dezena de pessoas na sede bracarense. Mas sugere que as unidades de Lisboa e Porto têm potencial para ter ainda mais funcionários. Até ao final de 2022 está prevista a abertura de mais duas unidades — e um total de dez unidades até ao final do ano seguinte.

O reverso da moeda para os visitantes

De visita à feira realizada no centro da capital, Hélder, trabalhador na área das tecnologias, lamenta não ter encontrado franchisings nem inovação neste setor de atividade. Enquanto aguarda por uma das palestras programadas, o visitante admite ter vindo à Expofranchise em busca de ideias na área das ferramentas, mas confessa ter saído desiludido.

Luís, por outro lado, procurava uma marca específica na área da lavandaria self-service, mas acabou por verificar que não se encontrava presente nesta feira. Embora admita considerar entrar na área do franchising ainda este ano, caso se proporcionem essas condições, o visitante lamenta que esta edição da Expofranchise tenha tido “um tamanho reduzido”. Fica a aguardar por novas oportunidades no próximo ano.

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