Portugal seduz empresas alemãs com cockpit de Valongo e cabelo de CR7

Industriais estão na Hannover Messe a tentar provar que “Portugal faz sentido” como hub de engenharia e fornecedor “verde e digital” para clientes alemães, alinhados com os anseios de Costa e Scholz.

Na madrugada de 3 de outubro de 2016, um incêndio destruiu por completo as instalações da Soplast, detida por Frederico Moura e Armando Alves e que emprega atualmente 70 pessoas em Valongo. Quase seis anos depois daquele que foi “o maior azar da [sua] história” iniciada em 1980, a empresa especializada na produção de componentes termoplásticos para os setores automóvel, construção e eletrónica está na Hannover Messe renascida (literalmente) das cinzas, tendo faturado perto de 8,4 milhões de euros no ano passado.

Depois de se ter estreado em 2019 nesta que é a maior feira do mundo no setor da tecnologia industrial, a empresa que reconstruiu a fábrica na freguesia de Campo começou esta segunda-feira a mostrar que “[leva] muito a sério a participação” neste evento. O diretor-geral, Henrique Rézio, descreve ao ECO como um “momento histórico” a apresentação mundial do UNIC2, um cockpit automóvel desenvolvido em parceria com a Universidade de Coimbra e já patenteado a nível internacional, que “faz uso de uma tecnologia única de eletrónica elástica capaz de ser integrada em geometrias ilimitadas e em vários materiais”.

O projeto UNIC2 da Soplast e da Universidade de Coimbra foi um dos selecionados para estar presente no Pavilhão de Portugal

O protótipo da Soplast é um dos destaques no hall da feira que concentra o maior número de empresas portuguesas – aquelas ligadas à engenharia, maquinaria e automação -, num total de 109 que durante quatro dias integram a comitiva portuguesa que quer atacar o Mittelstand alemão com fiabilidade e talento. Já no extremo oposto da Hannover Messe, há uma estreante -– a Insparya, dedicada ao diagnóstico, tratamento e investigação em saúde e transplante capilar — que consegue rivalizar nesta feira com gigantes mundiais à custa da imagem de… Cristiano Ronaldo. É que o futebolista do Manchester United e capitão da seleção nacional é sócio da empresa fundada e liderada pelo economista Paulo Ramos, que inclui ainda no grupo de acionistas o consórcio de fundos luso-britânico Vallis/Hermes.

Com clínicas no Porto, Braga, Lisboa, Vilamoura, Marbella e Madrid, o antigo grupo Saúde Viável conta com uma equipa de cerca de 300 pessoas e está na Alemanha a apresentar dois projetos: uma ferramenta de extração capilar que já está em utilização e o HairBot, que promete a automatização completa do procedimento de transplante capilar com recurso a um braço robótico. Foram ambos desenvolvidos pelos cinco engenheiros que trabalham no centro de investigação e desenvolvimento (I&D) dedicado à área da biomedicina e da robótica aplicada à saúde capilar, localizado há três anos na cidade Invicta (clínica da Foz) e no qual diz investir dois milhões de euros por ano.

“As pessoas primeiro reconhecem o Cristiano Ronaldo [no cartaz] e depois perguntam-nos pela tecnologia [risos]. Estamos a dar passos incrementais para automatizar o processo de transplante capilar, que será uma vantagem competitiva face às outras clínicas. E queríamos mostrar que, além dos serviços médicos, existe esta componente tecnológica dentro do grupo, da qual estamos muito orgulhosos”, resume ao ECO um dos engenheiros da equipa de investigação da Insparya, João Correia Leite, notando que estas inovações foram desenvolvidas e fabricadas em Portugal, com 80% dos componentes de origem nacional.

João Correia Leite integra o centro de investigação e desenvolvimento da Insparya, dedicado à biomedicina e robótica aplicada à saúde capilar30 maio, 2022

O “talento, a inovação, a qualidade e a fiabilidade” da indústria portuguesa são os principais argumentos destacados pela AICEP, que, nesta edição de 2022 em que Portugal tem o estatuto de país parceiro da Hannover Messe, assume a coordenação da participação nacional com a associação do metal (AIMMAP) e com a CCILA – Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã. E com um forte apoio político, além de um cheque de quatro milhões de euros. Depois da abertura institucional realizada na noite de domingo por António Costa e Olaf Scholz, o primeiro-ministro português e o chanceler alemão voltaram a estar juntos esta segunda-feira no recinto da feira, percorrendo durante duas horas alguns dos stands para conhecer projetos de parceria entre os dois países.

Siegfried Russwurn, presidente da confederação da indústria alemã (BDI), notou na sessão de abertura que “sabe bem sentir o apoio político”, numa altura em que reconheceu estar “assustado com a situação da guerra na Ucrânia, que ameaça os equilíbrios” necessários também na vertente empresarial. “Está na altura de o Governo olhar para as empresas como parceiras”, reforçou António Saraiva, presidente da CIP. Olaf Scholz dramatizou a necessidade de a indústria inovar para ser “mais verde, mais inteligente e mais eficiente”; e Costa garantiu ao sucessor de Angela Merkel que Portugal está em boas condições para cooperar.

O chefe do Executivo socialista sublinhou que, numa altura em que a “Europa está a relocalizar uma parte da sua produção” novamente para o continente, “Portugal é o sítio para se adquirir equipamento e inputs industriais para investir e para inovar”. “Neste momento, com as transições climática e digital, Portugal é o país para fazerem crescer os vossos negócios de uma maneira verde e digital”, insistiu António Costa, dirigindo-se aos empresários alemães presentes na plateia e terminando a intervenção com entusiasmo: “Let’s do business!”.

Máquinas e software para integrar na indústria alemã

Foi precisamente para fazer negócios que a Cheto viajou de Oliveira de Azeméis para Hannover, contando “aumentar a credibilidade da sua marca no mercado alemão e dignificar a tecnologia Made in Portugal”. Criada em 2009 por Carlos Teixeira e Sérgio André, produz máquinas de furação profunda e fresagem para os setores dos moldes, do petróleo e gás, e da energia nuclear. Exporta para vários mercados na Europa, Ásia, América do Norte e América do Sul, com o presidente executivo a destacar países como a Noruega ou a Coreia do Sul, que a “procuraram pela inovação e pela capacidade de resposta em setores avançados como os da energia”.

Líder de uma empresa que ocupa cerca de 10 mil metros quadrados na Área de Acolhimento Empresarial de Ul-Loureiro, emprega perto de 50 pessoas e gera uma faturação anual média de 7,5 milhões de euros, Carlos Teixeira explica ao ECO que as máquinas da Cheto se distinguem pela “integração completa de furação profunda e fresagem numa só máquina ferramenta”. A presença na Hannover Messe, aponta, é “uma excelente oportunidade para apresentar ao mercado alemão o novo modelo SIC 1000, (…) que surge de um grande investimento no desenvolvimento tecnológico, mostrando a [sua] capacidade de customização digital e adaptação à indústria 4.0”.

As máquinas da Cheto distinguem-se pela integração completa de furação profunda e fresagem numa só ferramenta

A digitalização é outra das grandes apostas de Portugal para esta edição da Hannover Messe, que arrancou esta segunda-feira e só termina no dia 2 de junho. É no pavilhão dedicado aos ecossistemas digitais, onde estão mais 14 empresas nacionais, que a Infraspeak está a mostrar a sua plataforma inteligente de gestão de manutenção e infraestruturas. Fundada em 2015, a empresa sediada no Porto tem também escritórios em Londres (Reino Unido), Barcelona (Espanha) e Florianópolis (Brasil), tem 160 trabalhadores, soma mais de 600 clientes em duas dezenas de mercados e realizou recentemente uma ronda de investimento (série A) no valor de dez milhões de euros.

Rui Santos Couto, vice-presidente para a área do crescimento, diz ao ECO que o “ponto alto” em Hannover vai ser o lançamento conjunto da integração da plataforma da Infraspeak com o Building Management System (BMS) da Siemens, para permitir que todos os dados recolhidos possam ser transformados em ações concretas de manutenção, em tempo real. Resultado esperado? “Redução de consumos de energia e de componentes dos equipamentos, com um impacto relevante na pegada carbónica dos edifícios e na sustentabilidade”. “Os edifícios são hoje responsáveis por perto de 50% das emissões anuais de CO2, sendo que 27% estão diretamente relacionadas com a operação. É urgente tornar os edifícios mais eficientes e a manutenção é uma das principais alavancas para o aumento dessa eficiência”, argumenta o gestor.

Os edifícios são hoje responsáveis por perto de 50% das emissões anuais de CO2, sendo que 27% estão diretamente relacionadas com a operação. É urgente tornar os edifícios mais eficientes e a manutenção é uma das principais alavancas para o aumento dessa eficiência.

Rui Santos Couto

Vice-presidente da Infraspeak

 

Esta conexão das PME com as perto de 600 organizações alemãs presentes no mercado português está presente em todos os discursos e até na maior parte dos stands. Além da portuense Infrapeak, também a Introsys trouxe à feira trabalho para mostrar: um sistema de localização de veículos em tempo real para a unidade da Volkswagen Autoeuropa, designado Sinergea. A Siemens forneceu o hardware e o software, assim como a engenharia. A Introsys, instalada junto à fábrica de Palmela, tratou do desenvolvimento, programação e implementação do software em função das especificações fornecidas pela equipa de planeamento logístico da construtora automóvel.

Outros projetos que a Siemens está a mostrar em Hannover, a par dos hubs exportadores que localizou em Portugal para modernizar portos e para soluções logísticas para armazéns automáticos, são um sistema de gestão inteligente de resposta a inundações, energia e qualidade das águas balneares desenvolvido com a Águas do Algarve e diversas universidades; a plataforma de produção modular adaptável a várias indústrias, com a Zeugma e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP); o armazenamento de energia e gestão de microrrede na Ilha Terceira para a EDA – Eletricidade dos Açores; a parceria com a CaetanoBus para a eletrificação e descarbonização de autocarros; e um projeto que acelera a recuperação de pacientes no Hospital da Luz, através de luzes humanizadoras.

Outro símbolo desta ligação luso-alemã é o centro de investigação que a Fraunhofer tem em Portugal desde 2009, com o chanceler Olaf Scholz a referi-lo na sessão de abertura da Hannover Messe como “um grande sucesso”. Com sede no Porto e escritórios em Lisboa, surgiu de uma parceria entre a Sociedade Fraunhofer (Fraunhofer-Gesellschaft), a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e a Universidade do Porto. Com uma carteira de clientes de áreas de negócio como a saúde, agricultura, retalho ou energia, tem competências consolidadas nas áreas da inteligência artificial, sistemas ciberfísicos e design centrado no utilizador.

“O nosso lema é resolver problemas reais da sociedade, usando a inovação. Propomos soluções em tecnologia avançada que tenham em conta as necessidades dos utilizadores finais”, resume Liliana Ferreira, diretora do Fraunhofer Portugal AICOS. Em 2021, de acordo com os dados fornecidos ao ECO por esta organização, as receitas de projetos de investigação aumentaram 34%, para um total de 2,7 milhões de euros, contando atualmente com 96 colaboradores, incluindo investigadores, equipa de suporte, bolseiros e alunos de mestrado.

(O jornalista viajou para Hannover a convite da Siemens)

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