Escalada dos preços do gás atira empresas de cerâmica para lay-off

“Embora os fatores que estão a afetar a produção sejam agora distintos, nas atuais circunstâncias, muitas empresas não têm alternativa à redução, parcial ou total, da atividade", diz António Saraiva.

São já “várias” as empresas do setor da cerâmica que estão recorrer ao regime normal do lay-off devido à escalada dos preços do gás, avançou ao ECO o presidente da Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica. O caso não é único, no setor têxtil essa é também a opção de algumas empresas, assim como entre as empresas de componentes automóveis.

“De acordo com o último levantamento que fizemos, temos cerca de 20 a 30 empresas nessa situação”, disse José Luís Sequeira. “Mas estes números podem não ser reais porque este período permite que se gere alguma confusão e se disfarce a situação com os períodos de férias”, reconheceu o presidente da Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria (APICER).

O responsável considera que a “situação vai de mal a pior”. Muitas cerâmicas estão a “optar por regimes de paralisação voluntária de 15 dias ou três semanas, gerindo o seu fluxo de trabalho”. Mas José Luís Sequeira teme que em setembro a situação se agrave. “A reabertura pode ser dramática”, diz, porque muitos associados “mostram algum desalento porque não há perspetivas de melhoria e não sabem o que fazer numa situação destas”.

Ainda que o lay-off tradicional não seja a figura ideal, não há alternativas. A associação já apresentou uma proposta ao Governo “para que o lay-off simplificado regresse”, mas o Executivo está reticente já que a situação é diferente da que se vivia durante a pandemia.

O ECO questionou o Ministério do Trabalho sobre a possibilidade de voltar a reintroduzir a figura do lay-off simplificado, mas até à publicação deste artigo não obteve resposta.

A cerâmica, um dos setores intensivos no uso de gás, não é caso único. “A CIP tem conhecimento de algumas empresas que estão a recorrer ao lay-off tradicional”, confirmou ao ECO, António Saraiva. “Será ainda um número relativamente reduzido, até porque este mecanismo não é o adequado. Mas muitas empresas estão já a encerrar parcialmente a sua produção, concentrando-a em alguns dias por semana, quer pelo aumento exponencial do custo do gás natural, quer por diminuição de encomendas”, acrescentou o patrão dos patrões.

“Já em março, a CIP teve oportunidade de defender a reintrodução do lay-off simplificado, uma vez que há muitas empresas que não têm alternativa à redução, parcial ou total, da sua atividade”, sublinhou o presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP).

É o caso da indústria têxtil, em especial tinturarias que usam o gás para aquecer os tanques onde os tecidos são tingidos. Também aqui o lay-off é uma realidade que está de regresso como avançou ao Expresso Mário Jorge Machado, presidente da ATP — Associação Têxtil e Vestuário de Portugal. Mas neste setor também pesa o facto de serem cada vez os mais os clientes que se atrasam ou suspendem encomendas porque os consumidores estão “assustado com a guerra, inflação, energia e taxas de juro”. Mas o que o setor desejava era um regime equivalente ao adotado no pico da pandemia.

“O lay-off simplificado foi criado para que as empresas pudessem fazer face a perdas significativas da produção sem procederem a despedimentos e ao desmantelamento da capacidade”, recorda António Saraiva. “Embora os fatores que estão a afetar a produção sejam, agora, distintos, a verdade é que, nas atuais circunstâncias, uma vez mais, muitas empresas não têm alternativa à redução, parcial ou total, da sua atividade. O lay-off simplificado é uma medida testada, os seus termos jurídicos e processuais estão definidos e podem ser acionados de forma muito célere”, defende. “No momento atual, as empresas precisam que o lay-off simplificado seja retomado”, conclui.

Não existem ainda dados de lay-off de julho, mas tal como as associações apontam as férias podem maquilhar os valores. De acordo com o boletim estatístico do Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) do Ministério do Trabalho em junho havia 102 empresas em lay-off, menos sete do que no mês anterior, quando o número de beneficiários disparou para 11.272, o valor mais alto desde o início da pandemia.

As empresas precisam de um regime de lay-off mais flexível, à semelhança do modelo alemão, que é mais ajustado às carteiras de encomendas”, corrobora ao ECO Rafael Campos Pereira. O vice-presidente executivo da AIMMAP – Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal revela que no setor não existem empresas em lay-off, antes pelo contrário. “Ainda estamos a precisar de mais trabalhadores porque os mercados estão a reagir bem nos vários segmentos de negócio”, frisou. Mas “a situação é de grande inquietação”, reconhece, devido à escala dos preços do gás.

Rafael Campos Pereira antevê que “a fundição e a metalurgia podem parar de um momento para o outro”, porque os associados da AIMMAP estão a usufruir de “preços interessantes” de gás e eletricidade conseguidos pelas compras de grupo da associação. Mas as poupanças conseguidas no primeiro semestre não vão continuar e os preços “apresentam uma tendência de subida muito forte”.

Na indústria do vidro, apesar de utilizar intensivamente o gás para alimentar os fornos, parar não é uma opção. “Os fornos trabalham 24 sobre 24 horas, 365 dias por anos. Desligá-lo é destruí-lo”, sublinha ao ECO Beatriz Freitas. A secretária-geral da Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem explica que neste setor não é possível “reduzir atividade para fazer face a qualquer situação. O forno tem de estar sempre a produzir de acordo com a sua capacidade se não a massa vítrica solidifica e o forno fica arruinado”, detalha.

Beatriz Freitas explica que a associação já pediu uma reunião com o Ministério do Ambiente porque o preço do gás já subiu quase dez vezes no espaço de um ano e “Portugal ainda não disponibilizou o apoio de até 50 milhões de euros que a Europa criou para as empresas intensivas de gás”. A responsável explica que o apoio que existe no país, que tem um limite de 400 mil euros por empresa, é tão irrisório que as três empresas que produzem vidro de embalagens em Portugal deixam essa linha para outras empresas mais pequenas. Estas três empresas – BA Glass, Vidrala e Verallia –, que empregam duas mil pessoas e produzem 1,5 milhões toneladas por ano, fazem de Portugal o maior produtor per capita de vidro de embalagem na Europa.

“Os preços da eletricidade estão mais ou menos controlados em virtude do mecanismo ibérico”, sublinha, por seu turno Bernardino Meireles, também dirigente da AIMMAP. “Mas no gás estamos a trabalhar sem rede”, conclui.

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