Travão de Bruxelas à Temu e Shein ameaça abrandar crescimento dos CTT

Os CTT têm crescido nas encomendas à boleia das plataformas chinesas, tendo em Portugal a exclusividade das entregas da Temu. Mas Bruxelas está a preparar um travão que pode ameaçar esse negócio.

Os CTT CTT 0,57% poderão sofrer danos colaterais se a Comissão Europeia decidir mesmo aplicar um travão a plataformas como Temu e Shein, como noticiado esta semana. Estas lojas chinesas online, conhecidas pelos preços muito competitivos, têm alavancado o forte crescimento da empresa no negócio da entrega de encomendas em Portugal e Espanha, numa altura em que o correio continua em acelerado declínio.

Na quarta-feira o Financial Times avançou que a Comissão Europeia se prepara para anunciar ainda este mês o fim da isenção de taxas alfandegárias sobre os bens de valor inferior a 150 euros. O objetivo é combater o crescimento das importações de artigos de baixo valor a partir destas plataformas, onde também se inclui o AliExpress.

De acordo com o jornal britânico, que cita dados da Comissão, em 2023 foram importados pela União Europeia (UE) 2,3 mil milhões de artigos de valor inferior a 150 euros, mais do dobro do ano prévio, sendo que só no mês de abril foram importados 350 mil artigos de valor reduzido, o equivalente a quase duas entregas por agregado familiar na UE.

Se esta medida avançar, e produzir o efeito pretendido, poderá limitar aquele que tem sido um importante filão de crescimento dos CTT na Península Ibérica, empresa que em Portugal tem a exclusividade das entregas da Temu.

Questionada sobre esse facto, fonte oficial dos CTT afirma que “a entrada dos e-sellers chineses no mercado europeu ajudou a aumentar as compras online, criando novos hábitos de consumo, trazendo mais pessoas para o comércio eletrónico e reforçando o hábito de consumo em quem já comprava”.

Perante a alegada intenção da Comissão Europeia, que não respondeu até ao fecho deste artigo, o grupo mostra-se confiante de que o negócio continuará a florescer: “A competitividade geopolítica vai continuar a existir e a estratégia dos CTT sempre foi diversificar a sua base de clientes, não olhando nem a nacionalidades nem a tipologias de produtos ou à dimensão das empresas.”

A dar cartas nas encomendas

O relatório integrado dos CTT referente ao ano passado põe a descoberto o que representam estas plataformas como alavanca de crescimento da empresa.

No capítulo dedicado à “sustentabilidade económica”, os Correios enaltecem aquilo que consideram ser um dos “grandes marcos” do ano para o negócio: “a liderança ibérica de e-commerce, fortemente impactada pela parceria com Temu e Shein, contribuindo para um novo recorde ibérico de mais de 870 mil objetos/dia e a entrega de mais de 100 milhões de encomendas expresso no ano”, lê-se no documento.

Em 2023, a empresa liderada por João Bento obteve rendimentos de 340,6 milhões de euros com o segmento de Expresso e Encomendas, um crescimento de 31,5% face a 2022, que comparam com os 434,1 milhões de euros obtidos com o negócio postal, que encolheu 5,8%. Esse crescimento de dois dígitos do negócio das encomendas “foi suportado, essencialmente, por clientes de e-commerce, com particular incidência de grandes marketplaces globais e e-sellers internacionais”.

O quarto trimestre foi particularmente notável, com os CTT a conseguirem, pela primeira vez na história, gerar mais receitas a entregar encomendas do que cartas, ainda que por uma curtíssima diferença. Um importante sinal de que os CTT, apesar dos seus mais de 500 anos, continuam a ter futuro.

No ano completo, as receitas das encomendas cresceram 12,8% em Portugal, mas em Espanha o crescimento chegou aos 51,9%. O grupo português já obtém mais receitas no país vizinho do que naquele em que tem sede — 186,8 milhões em Espanha contra 149,1 milhões em Portugal.

Referindo-se ao mercado espanhol, os CTT sublinharam que “o crescimento alcançado é suportado em clientes estratégicos, especialmente e-sellers internacionais, que continuaram a apresentar uma evolução positiva, impulsionada pela entrada de novos clientes relevantes”. Entre esses e-sellers está também a norte-americana Amazon, que, ao contrário das outras, distribui as encomendas a partir de localizações dentro da União Europeia.

São dados que mostram como os produtos baratos da Temu e do AliExpress, e a roupa acessível da Shein (que também vende produtos de outras categorias, incluindo utensílios para o lar), têm entrado pelas casas adentro na Península Ibérica, fazendo da Shein o site onde os espanhóis mais compras fizeram em 2023 e o terceiro em Portugal, atrás da Amazon e da Worten, segundo dados citados pelos Correios.

Os CTT estiveram também entre os primeiros a verem uma oportunidade nas plataformas chinesas. Foi em 2018 que anunciaram uma parceria com o AliExpress para entregarem as encomendas do Dia dos Solteiros — uma campanha promocional de origem chinesa que se assemelha à Black Friday norte-americana –, renovada, pelo menos, em 2019 e 2020. Graças a ela, várias centenas de milhares de encomendas vindas da China passaram pelas mãos dos estafetas dos CTT em cada um desses anos.

Mais recentemente, a 20 de novembro de 2023, os CTT anunciaram uma parceria com a Temu no mercado ibérico, tornando-se, com efeito, “no parceiro exclusivo das entregas da Temu no mercado português” e “constituindo-se, simultaneamente, como um parceiro estratégico em Espanha”, anunciaram num comunicado.

“A Temu, plataforma online líder, com uma seleção diversificada de produtos a preços bastante acessíveis, escolheu os CTT pela sua extensa rede, infraestruturas sólidas, qualidade inigualável e profunda experiência em ambas as regiões”, justificaram na mesma nota.

Travão é “potencialmente negativo”

Numa nota de research sobre os CTT divulgada na quarta-feira, a que o ECO teve acesso, os analistas do CaixaBank/BPI também afirmam que o plano da Comissão Europeia, nos termos em que foi noticiado, é “potencialmente negativo” para os CTT, mas não representa “uma novidade”. Alegam que o fim da isenção de taxas para produtos até aos 150 euros era uma medida que já estava em discussão no âmbito da reforma alfandegária atualmente em discussão, embora inicialmente pensada para entrar em vigor apenas em 2028.

O comentário diz também que “o impacto final” da medida nos CTT “vai depender muito das novas taxas aduaneiras para encomendas fora da UE”, nomeadamente se será uma taxa fixa ou uma percentagem do valor do item. Isto porque, segundo os analistas, atualmente as taxas são diferentes de país para país: em Espanha os produtos acima de 150 euros pagam uma taxa fixa de 5,88 euros, enquanto em Portugal há uma taxa que depende do valor do produto e varia entre 5 e 12 euros, de acordo com a análise do CaixaBank/BPI.

Contactado pelo ECO, António Seladas, analista da AS Independent Research, respondeu: “Não é fácil perceber o real impacto, porque não temos o breakdown das receitas, mas obviamente é negativo, ainda que exista uma tendência positiva de médio prazo nas compras online e entregas em casa/escritório, e essa manter-se-á.”

A competitividade geopolítica vai continuar a existir e a estratégia dos CTT sempre foi diversificar a sua base de clientes, não olhando nem a nacionalidades nem a tipologias de produtos ou à dimensão das empresas.

Fonte oficial dos CTT

De acordo com o mais recente relatório anual do e-commerce, elaborado para os CTT com dados do mercado nacional, as compras online dos portugueses em 2023 terão ultrapassado 10,6 mil milhões de euros, mais 4,3% do que em 2022, ano em que foi superada pela primeira vez a fasquia dos dez mil milhões.

Esse relatório mostra também que a Shein era, em 2023, a segunda loja online preferida dos portugueses para a compra de utensílios para o lar, atrás da Amazon, mas à frente do Ikea, Worten e Hôma. Há que notar que esse nem sequer é o principal negócio da Shein: a marca é mais conhecida por vender roupa.

A ambição dos CTT não tem passado despercebida do outro lado da fronteira. Num artigo publicado em janeiro, o jornal El Economista destacava como os CTT, uma empresa portuguesa, têm estado a morder os calcanhares da Correos espanhola, ameaçando a sua liderança. O motivo apontado pela publicação? O impulso das encomendas da Shein e da Temu.

As ações dos CTT caíram 0,59% na sessão desta quarta-feira, para 4,20 euros, num dia bastante positivo para a bolsa de Lisboa e para a generalidade dos mercados europeus.

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