Desinformação marcou eleições em 2025 e deixou “danos de longo prazo”

Lusa,

“Na maioria dos casos, o impacto observável não foi suficiente para perturbar diretamente os processos eleitorais”, diz Raquel Miguel, investigadora da organização EU DisinfoLab.

A investigadora da organização EU DisinfoLab Raquel Miguel defendeu à Lusa que a desinformação e a interferência estrangeira marcaram o ano eleitoral de 2025, sem chegarem a provocar ruturas imediatas nos processos eleitorais, mas deixando “danos de longo prazo”.

“Em praticamente todos os contextos eleitorais analisados houve atividade de desinformação, por vezes com uma componente clara de FIMI [Manipulação e Interferência de Informação Estrangeira]”, afirmou a investigadora, apontando eleições em países como Polónia, Alemanha, Moldávia ou República Checa.

Segundo a investigadora, “em alguns casos, como na Moldávia, a escala foi particularmente preocupante”, embora o cenário mais grave continue a ser o da Roménia, onde eleições foram anuladas em 2024 devido a uma campanha de influência estrangeira. “Este pior cenário não se repetiu em 2025, mas a Roménia esteve muito presente na perceção de risco e na preparação das autoridades”, sublinhou.

Raquel Miguel destacou a repetição de narrativas direcionadas contra partidos, políticos e instituições, com “campanhas destinadas a descredibilizar processos eleitorais, a atacar posições pró-Ucrânia e a minar a confiança institucional”. Apesar disso, o impacto direto foi limitado, uma vez que, “na maioria dos casos, o impacto observável não foi suficiente para perturbar diretamente os processos eleitorais”, disse a responsável, alertando, no entanto, que “a ameaça é persistente e improvável de desaparecer”.

Para a investigadora, um dos sinais mais preocupantes foi a continuidade de campanhas bem documentadas, com as “campanhas pró-Kremlin a circular durante as eleições, o que sugere que os mecanismos de aplicação da lei não funcionaram plenamente”, afirmou.

As plataformas digitais tiveram ainda um papel central nesse fenómeno, pois “as redes sociais amplificaram significativamente estas campanhas, muitas vezes sem medidas adequadas de mitigação”, disse a investigadora, acrescentando que o cumprimento das obrigações previstas no Regulamento dos Serviços Digitais (DSA) “parece insuficiente na prática”.

Evitar uma crise aguda não significa que o problema esteja resolvido”, rematou, acrescentando que “o dano mais profundo é a erosão gradual da confiança nas instituições democráticas”.

IA “polui” ecossistema informativo europeu e cria degradação

A investigadora Raquel Miguel considera ainda que a crescente utilização de Inteligência Artificial (IA) está a transformar profundamente o ecossistema da informação na Europa, facilitando a produção de desinformação e criando um ciclo de degradação.

A IA é um game changer porque altera tanto a escala como a natureza do problema”, afirmou Raquel Miguel, salientando que ferramentas generativas permitem criar “vídeos deepfake [conteúdo manipulado], áudio sintético, texto e imagens enganadoras com enorme facilidade”.

Segundo a investigadora, além da desinformação deliberada, existe uma inundação de conteúdos de baixa qualidade, através de “uma produção massiva de AI slop, usada para propaganda ou monetização, que torna cada vez mais difícil encontrar informação fiável”.

O problema não se limita ao conteúdo final, acrescentou, visto que “os próprios modelos podem incorporar enviesamentos, informação de má qualidade ou até desinformação presente nos dados de treino, que depois é reproduzida e amplificada”, explicou, referindo práticas conhecidas como LLM poisoning ou grooming.

Uma das mudanças mais significativas, segundo a investigadora, é o papel da IA como intermediária do acesso à informação, uma vez que “as pessoas usam cada vez mais sistemas de IA para procurar e compreender acontecimentos”, alertando que “respostas incorretas, mas confiantes, podem distorcer decisões e perceções”.

Este risco é maior em contextos de crise, uma vez que “durante breaking news, os chatbots tendem a preencher lacunas com detalhes plausíveis, mas falsos, que depois são partilhados e amplificados”, afirmou Raquel Miguel, citando exemplos recentes em que “fabricações geradas por IA circularam logo após ataques ou eventos violentos”. A investigadora manifestou ainda preocupação com a entrada de incentivos comerciais, dado que “a integração de publicidade nos outputs de IA pode influenciar o que é mostrado e como é mostrado”, reforçando o risco de enviesamento.

Para 2026, Raquel Miguel identifica um cenário pessimista: “Se nada mudar, espero mais desinformação, agravada pela IA e pelo recuo das plataformas”, afirmou, prevendo uma evolução para campanhas “mais individualizadas e direcionadas a vulnerabilidades específicas”.

Já estamos a ver um ciclo perigoso: chatbots absorvem conteúdo contaminado, produzem informação imprecisa e essa informação volta a alimentar sistemas futuros”, disse, acrescentando que “o ecossistema começa literalmente a comer a própria cauda”.

Não é apenas um debate técnico. Está em causa a resiliência da democracia europeia e os valores que queremos proteger“, rematou a investigadora.

Raquel Miguel é investigadora da organização sem fins lucrativos EU DisinfoLab, sediada em Bruxelas, e que se dedica a reunir conhecimento e experiência sobre a desinformação na Europa, apoiando a comunidade nesta missão.

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