“Desinformação é arma assimétrica que testa a solidez da democracia”

Lusa,

"Sem jornalismo robusto, independente e economicamente sustentável, o espaço público será preenchido por ruído e manipulação", adverte o vice-presidente da AR.

O vice-presidente da Assembleia da República Rodrigo Saraiva afirmou esta quarta-feira que a desinformação é uma “arma assimétrica” e “um grande teste” à democracia, alertando para o impacto da manipulação informativa na erosão do consenso factual e na confiança democrática.

Discutir desinformação é discutir poder, mas é também discutir verdade e escolhas“, afirmou o responsável, na sessão “Desinformação e Democracia”, promovida pela Assembleia da República, que procurou debater a desinformação enquanto desafio contemporâneo das democracias.

Na intervenção de abertura do debate, o vice-presidente recordou que Portugal assinala meio século de democracia, defendendo que preservar esse legado exige hoje um combate firme à manipulação informativa.

Segundo o responsável, a desinformação não nasceu com a ‘internet’ nem com as redes sociais, “desde que existem comunidades políticas organizadas existe manipulação informativa“, afirmou, evocando os regimes totalitários do século XX e as campanhas de influência durante a Guerra Fria como exemplos históricos.

A diferença, salientou, reside agora na capacidade tecnológica de amplificação e sofisticação, uma vez que “qualquer vídeo pode ser manipulado, qualquer áudio pode ser fabricado, qualquer documento pode ser simulado”, referindo-se ao impacto da Inteligência Artificial (IA) generativa e aos conteúdos hiper-realistas que desafiam a perceção pública.

Rodrigo Saraiva alertou ainda para o cruzamento entre a desinformação e guerra híbrida, defendendo que estados autoritários utilizam a manipulação informativa como instrumento estratégico para fragilizar democracias.

“É uma arma barata, escalável e extremamente eficaz”, além de ser assimétrica e “testar a solidez da democracia”.

Ainda assim, o vice-presidente referiu que nem toda a desinformação tem origem externa, visto que “muitas vezes nasce dentro das próprias sociedades democráticas”, alimentada pela polarização extrema e pela tentação populista de simplificar problemas complexos.

Como resposta, Rodrigo Saraiva apontou quatro eixos fundamentais: literacia, jornalismo, tecnologia e instituições.

No plano educativo, defendeu uma aposta concreta na literacia mediática e digital, que ensine a “dúvida saudável” e a verificação de factos.

“A desinformação prospera na ignorância, mas também na confirmação acrítica das próprias convicções”, afirmou, apelando à responsabilidade individual na partilha de conteúdos.

Quanto ao papel da comunicação social, considerou que o jornalismo profissional é “um pilar estrutural” da democracia, mas alertou para a fragilidade dos modelos de financiamento e para a concorrência desigual das plataformas digitais.

Sem jornalismo robusto, independente e economicamente sustentável, o espaço público será preenchido por ruído e manipulação“, advertiu.

No domínio tecnológico, defendeu cautela no recurso a mecanismos de controlo, sublinhando que o combate à desinformação não pode servir de pretexto para vigilância excessiva ou restrições à liberdade de expressão.

Se respondermos com censura, traímos os nossos princípios, se respondermos com indiferença, enfraquecemos o regime“, afirmou.

Por fim, destacou a importância da transparência institucional, defendendo que as entidades públicas devem comunicar melhor, reconhecer erros e reduzir a opacidade para evitar que rumores prosperem.

Para o vice-presidente, a desinformação representa “um grande teste” à democracia e à “maturidade cívica” das sociedades, sustentando que a melhor resposta passa por “mais democracia, mais responsabilidade e mais transparência”.

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