O que está em causa na ‘guerra’ entre Donald Trump e Jerome Powell?
- Shrikesh Laxmidas
- 13 Janeiro 2026
Trump negou conhecimento da investigação a Powell , mas o presidente da Fed acusou a administração de ameaçar a independência do banco central. Saiba o que está em causa e as principais reações.
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Qual é o histórico da relação entre Trump e o presidente da Fed?
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O que é que o Departamento de Justiça está a investigar sobre Powell?
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Como é que o presidente da Fed se defendeu?
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Que apoios é que Powell recebeu?
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O que disseram Trump e os seus aliados?
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Quais estão a ser as reações nos mercados financeiros?
O que está em causa na ‘guerra’ entre Donald Trump e Jerome Powell?
- Shrikesh Laxmidas
- 13 Janeiro 2026
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Qual é o histórico da relação entre Trump e o presidente da Fed?
Tendo em conta o contexto atual, pode até parecer mentira, mas foi Donald Trump quem nomeou Jerome Powell para substituir Janet Yellen à frente do banco central dos EUA, em novembro de 2017, durante o seu primeiro mandato na Casa Branca. O republicano classificou Powell como forte, empenhado e inteligente. “Com base no seu historial, estou confiante de que Jay tem a sabedoria e a liderança necessárias para guiar a nossa economia através de quaisquer desafios que a nossa grande economia possa enfrentar”, disse então Donald Trump.
Mas a lua-de-mel não foi longa e, passados poucos meses, os elogios foram substituídos por críticas. “Não estou entusiasmado com o aumento das taxas de juro, não”, dizia Trump em julho de 2018, adiantando: “eu devia receber mais ajuda da Fed”. No mês seguinte queixou-se de que, enquanto Barack Obama teve taxas de juro a 0%, “sempre que fazemos algo de bom, ele [Powell] aumenta as taxas”.
Após um longo silêncio, no entanto, Trump voltou às críticas quando regressou à Casa Branca em janeiro de 2025. À medida que a Fed prolongava uma pausa no custo do dólar, Trump aumentava o tom, passando a ataques pessoais a Powell. E quando a Fed regressou aos cortes em julho, via sempre com medidas insuficientes. “Pessoa mentalmente mediana”. “Baixo QI para o que faz”. “Uma pessoa muito estúpida”. “Péssimo”. “Incompetente”. “Idiota”. “Tipo burro e óbvio inimigo”. “Das pessoas mais burras do governo”. “Patético”. “Sem noção”. “Tolo”. E, claro, o recorrente “Tarde Demais Jerome Powell”, foram alguns do insultos que Trump dirigiu.
De forma mais diplomática, Powell evitou nas conferências de imprensa da Fed responder de forma direta à pressão de Trump, mas defendeu sempre a importância da independência do banco central. “Acho que ter um banco central independente tem sido um arranjo institucional que tem servido bem ao público e, enquanto servir bem ao público, deve continuar e ser respeitado”, disse, em julho. Depois de uma reunião com Trump em setembro, a Fed emitiu um comunicado a garantir que “definiremos a política monetária, conforme exigido por lei, para apoiar o máximo emprego e preços estáveis, e tomaremos essas decisões com base exclusivamente em análises cuidadosas, objetivas e apolíticas.”
Proxima Pergunta: O que é que o Departamento de Justiça está a investigar sobre Powell?
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O que é que o Departamento de Justiça está a investigar sobre Powell?
O Ministério Público Federal do Distrito de Columbia abriu uma investigação criminal sobre o presidente da Fed em relação à renovação da sede do banco central em Washington e se Powell mentiu ao Congresso sobre o âmbito do projeto, noticiou o New York Times este domingo. A investigação, que inclui uma análise das declarações públicas de Powell e uma análise dos registos de despesas, foi aprovada em novembro pela procuradora Jeanine Pirro, adiantou o jornal, citando autoridades a par da situação.
Os imóveis em causa são o Edifício Eccles, construído entre 1935 e 1937 como sede da Fed, e o Edifício Constitution Avenue, de 1951, concluído em 1932 para o Serviço de Saúde Pública dos EUA e usado ao longo dos anos para vários fins, incluindo na Segunda Guerra Mundial para abrigar o Estado-Maior Conjunto. Em 2018, foi transferido pela primeira administração Trump para a Fed para permitir uma renovação que colocaria um edifício vazio de volta a uso produtivo.
Em meados de 2025, Russell Vought, diretor do Gabinete de Gestão e Orçamento, disse que o custo excedente é de “700 milhões de dólares e continua a aumentar”. O orçamento da Fed mostrou que o custo estimado atual do projeto é de 2,46 mil milhões de dólares, acima dos 1,88 mil milhões em 2024. A derrapagem resume-se a três elementos: custos de mão-de-obra e materiais mais altos do que o estimado, mudanças no projeto para preservar os edifícios históricos e sua aparência, e problemas imprevistos, incluindo contaminação por chumbo no solo e quantidades maiores do que o previsto de amianto.
A Fed diz que não há elementos de luxo no projeto, como um elevador exclusivo para governadores ou sala de jantar VIP. Sublinha ainda que tem, por lei, autoridade para determinar os seus gastos em projetos de capital. O seu Gabinete do Inspetor-Geral recebe relatórios mensais sobre o projeto, realizou uma revisão em 2021 e agora está encarregado de realizar uma nova revisão.
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Como é que o presidente da Fed se defendeu?
Desta vez, Powell foi direto ao assunto da pressão. Defendeu que a intimação faz parte da pressão contínua, exercida por Trump sobre a instituição, para cortar as taxas de juro de forma mais drástica, mesmo com a inflação a manter-se acima da meta de 2%.
“Esta ameaça não tem a ver com o meu testemunho”, afirmou, num vídeo publicado no portal da Fed: “Isto é um pretexto. A ameaça de processo é uma consequência do compromisso da Fed em definir as taxas de juro no melhor interesse do público, em vez de ir ao encontro das preferências do presidente.”
Powell explicou que trata-se de saber se a Fed será capaz de continuar a definir as taxas de juro com base em evidências e condições económicas — “ou se, em vez disso, a política monetária será orientada por pressões políticas ou intimidações”.
Recordou que trabalhou na Fed sob quatro administrações, tanto republicanas como democratas, e que em todos os casos cumpriu as funções “sem medo ou favoritismo político, focando-me exclusivamente no nosso mandato de estabilidade de preços e máximo emprego”. O serviço público às vezes exige firmeza diante de ameaças, adiantou.
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Que apoios é que Powell recebeu?
As reações de apoio a Powell não tardaram. Ainda na segunda-feira, 13 antigos líderes da Fed e do Tesouro americano que estiveram no cargo em administrações democratas e republicanas e que incluem nomes como Ben Bernanke, Alan Greenspan ou Janet Yellen, criticaram a investigação do Departamento de Justiça.
“A investigação criminal contra o presidente do Reserva Federal, Jay Powell, é uma tentativa sem precedentes de usar ataques para minar essa independência [da Fed]”, destaca a declaração conjunta assinada por antigos líderes do banco central dos EUA e publicada esta segunda-feira na plataforma Substack.
Esta terça-feira, mais de uma dezena de responsáveis de vários bancos centrais de todo o mundo, incluindo Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, assinaram uma declaração conjunta de apoio ao líder da Fed. “O presidente Powell serviu com integridade, focado no seu mandato e com um compromisso inabalável com o interesse público. Para nós, é um colega respeitado e muito estimado por todos os que com ele trabalharam”, declararam.
“A independência dos bancos centrais é um pilar fundamental da estabilidade de preços, financeira e económica, no interesse dos cidadãos que servimos”, escrevem os signatários da carta. Entre os subscritores estão ainda Andrew Bailew do Banco de Inglaterra, Tiff Macklem do Banco do Canadá, Gabriel Galípolo do Banco Central do Brasil e ainda François Villeroy de Galhau, presidente do Banco de Pagamentos Internacionais.
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O que disseram Trump e os seus aliados?
A 29 de dezembro, Trump disse em conferência de imprensa que “estamos a pensar em processar Powell por incompetência, porque, pensem bem, são dois edifícios que não têm nada de especial… é o preço mais alto de construção por metro quadrado da história do mundo.”
No entanto, questionado esta segunda-feira sobre a investigação do Departamento de Justiça, respondeu: “Não sei nada sobre isso.” Aproveitou, contudo, para tecer mais críticas: “Ele certamente não é muito bom na Fed e não é muito bom a construir edifícios”.
Sobre se a investigação teria sido desenhada para pressionar Powell a descer as taxas de juro, foi claro. “Não, eu nem pensaria em fazer isso”, disse à NBC News. “O que deveria pressioná-lo é o facto de as taxas estarem muito altas, essa é a única pressão que ele tem.”
Kevin Hassett, conselheiro económico da Casa Branca e potencial sucessor de Powell, afirmou que não esteve envolvido na investigação, mas sugeriu que apoia o DOJ a investigar a dispendiosa renovação da Fed e que não sabia se Trump tinha autorizado a investigação. Enquadrou a questão em torno da responsabilidade pelo projeto caro, em vez de motivos políticos.
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Quais estão a ser as reações nos mercados financeiros?
Os ataques de Trump a Powell costumam ser recebidos de forma negativa pelos investidores, que ficam nervosos sobre a capacidade de uma Fed menos independente conduzir da melhor forma a política monetária e a economia. Esta segunda-feira, a tendência começou por ser essa, com os principais índices bolsistas em Wall Street a caírem até perto 1%. Em paralelo, a cotação do ouro subiu para níveis recorde e o dólar depreciou-se face às outras principais moedas mundiais.
No entanto, o sentimento acabou por mudar durante a sessão, com os investidores as interpretarem as notícias sobre a investigação como um choque político, em vez de uma mudança económica fundamental. “Sempre que surge uma nova perspetiva sobre algo, o mercado interpreta-a, negoceia um pouco com base nela, tem de a digerir e, depois, percebe que se trata apenas de uma notícia nova que é consistente com eventos anteriores que já foram divulgados”, explicou Jim Barnes, diretor de rendimento fixo da Bryn Mawr Trust em Berwyn, Pensilvânia, à Reuters. “Parece que a Fed é uma instituição difícil de quebrar e, por isso, isto vai continuar, embora não vá desaparecer, a persistência provavelmente vai continuar e o mercado vai ter de aceitar isso com naturalidade”.
O dólar acabou por sentir algum impacto, com o índice dólar, que mede a moeda norte-americana face a uma cesta das principais moedas, a cair 0,34% para 98,90. Mas os principais índices acionistas terminaram a sessão em terreno positivo, com o S&P 500 e o industrial Dow Jones a ganhares 0,16% e 0,17%, respetivamente, enquanto o tecnológico Nasdaq subiu 0,26%.