AESE abre novo campus no Porto e já prepara programas específicos para o Norte do país

AESE Business School tem atividade no Porto desde os anos 90, mas decidiu agora abrir um campus na Invicta. Dean revela vontade de intensificar atividade na região, com, nomeadamente, novos programas.

Não é que os empresários portugueses deem menos importância à formação contínua do que os pares europeus. É que, numa economia com “algumas fragilidades”, estão de tal maneira “metidos no dia a dia das empresas” que acabam por não ter disponibilidade para fazer essa aposta. A visão é partilhada pela dean da AESE Business School, Maria de Fátima Carioca, em entrevista ao ECO.

A mais antiga escola de negócios em Portugal acaba de inaugurar um campus no Porto, com dois objetivos, explica a responsável: intensificar a sua atividade no Norte do país e aproximar a instituição dos seus antigos alunos com morada nessa região.

Ao ECO, Maria de Fátima Carioca adianta também que, com este novo campus, a AESE está a ponderar criar programas setoriais mais adequados ao tecido empresarial nortenho, tal como fez quanto ao lisboeta.

Esta é uma de duas partes da entrevista da dean da AESE Business School ao ECO. Na outra (que pode ler aqui), a responsável reflete sobre a revisão da lei do trabalho que o Governo quer levar a cabo e sobre o aumento dos salários em Portugal.

A AESE Business School está a celebrar 45 anos. Nestas quatro décadas e meia, o que mudou no modo como se formam os líderes empresariais em Portugal?

Os líderes mudaram. A AESE Business School é a mais antiga escola de negócios em Portugal. Foi criada por empresários com a missão de preparar líderes, no sentido de, principalmente, fazer com que estes cresçam na sua ambição de deixar uma marca no mundo. A missão mantém-se, mas o mundo mudou e mudaram algumas metodologias.

Há um conjunto de características que tentamos despertar, que, creio, se mantêm. Em concreto, a excelência profissional, a integridade e um grande espírito de serviço.

Que mudanças concretas identifica nas novas gerações de líderes?

Tempos diferentes fazem líderes diferentes, mas também é verdade que nem tudo mudou. Uma das coisas mais interessantes que muitas vezes debatemos nos programas na AESE Business School é o que há de perene em termos da liderança. Há um conjunto de características que tentamos despertar, que, creio, se mantêm. Em concreto, a excelência profissional, a integridade e um grande espírito de serviço, que se traduz, muitas vezes, nessa ambição de deixar um legado, uma marca positiva no mundo. A ambição é a mesma, mas provavelmente a marca que pensarão deixar poderá ser diferente.

Vivemos um tempo de várias transições, da ecológica à tecnológica. Ser e formar um líder hoje é mais difícil do que era há 40 anos, tendo em conta o enquadramento atual?

Penso que não é mais difícil. Mas é verdade que os tempos estão mais complexos e, por isso, as características de liderança são provavelmente mais colaborativas. Neste momento, um par de olhos não chega para chegar às soluções dos problemas, de tal maneira complexos. Por isso, hoje o líder tem de ser muito mais colaborativo e escutar ideias de outras pessoas.

Maria de Fátima Carioca, Dean da AESE Business School, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Ser mais colaborativo, até para tirar partido das competências que tem na equipa. Que avaliação faz das qualificações dos líderes e empresários portugueses?

Os líderes ou empresários portugueses são os nossos primeiros participantes, ou seja, são aqueles a quem nos dedicamos em primeiro lugar. Ao longo dos 45 anos da AESE Business School, tem sido um caminho a par e passo. Somos uma escola que é muito feita também pelos líderes que nos procuram. Líderes, por exemplo, que podem vir fazer o Programa de Alta Direção de Empresas.

Insisto: que avaliação faz das competências atuais desses líderes? Às vezes, identifica-se a falha nas qualificações dos empresários como uma das razões para a fraca produtividade em Portugal. Concorda com essa visão?

Acho que o baixo nível de produtividade tem essencialmente que ver com a dimensão das empresas, e aí pode-se notar alguma carência de formação. Pode haver outros países em que os líderes se aproximam mais da formação ao longo da vida. Reiteradamente, refrescam essa formação de uma forma mais natural do que cá em Portugal. Não diria que [os portugueses] dão menos importância à formação. Tem que ver muito com a economia que se vive no país, que ainda tem algumas fragilidades.

Estão de tal maneira metidos no dia a dia da empresa, que, embora deem importância à formação, acabam por não ter nem sequer a disponibilidade mental para fazer essa mesma formação.

Os líderes portugueses não têm talvez recursos para fazer formação?

Muitas vezes estão super ocupados a levar, por exemplo, a empresa para fora e a exportar. Estão de tal maneira metidos no dia-a-dia da empresa que, embora deem importância à formação, acabam por não ter sequer a disponibilidade mental para fazer essa mesma formação. Mas acho que muitos deles são excelentes profissionais e gente íntegra. Os verdadeiros líderes têm sempre uma atitude muito generosa de serviço, de desenfoque de si mesmos para servir.

Como é que se incentiva a aproximação dos líderes à formação, considerando esse modo quase de piloto automático em que muitos vivem?

Costumamos dizer que, no primeiro dia em que se sentam na sala de aula, os líderes percebem o grande benefício que é, e a relevância, de fazerem um programa de formação. É um passo que é importante dar. Tem o seu tempo, tem o seu momento na agenda, tem o seu momento de disponibilidade mental.

Maria de Fátima Carioca, Dean da AESE Business School, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

A propósito, a AESE Business School inaugurou recentemente um campus no Porto. O que justifica esta aposta?

Já temos atividades no Porto desde a década de 90. Temos vindo a ativar bastante a atividade no Porto, com uma equipa dedicada em concreto ao mercado e à comunidade do Norte. Os programas da AESE Business School dividem-se em duas grandes linhas de concretização: por nível de responsabilidade (falamos, por exemplo, em programas de alta direção e de gestão de equipas) e programas setoriais. Toda a oferta que temos de programas genéricos, à exceção do MBA, já está disponível no Porto, bem como alguns programas setoriais que percebíamos ter sentido.

Pode concretizar?

Por exemplo, o programa setorial focado nas instituições de saúde. Temos um ecossistema de saúde com grandes hospitais não só no Porto, mas também em toda a região norte. Também o programa focado nas organizações sociais, uma vez que o Norte do país é um território onde proliferam muitas instituições sociais que dão respostas muito importantes. Neste momento, estamos a pensar levar outros e, inclusivamente, estamos a olhar para o mercado do Porto, por forma, provavelmente, a criarmos programas que respondem, em concreto, ao tecido empresarial local e que podem até não ter sentido em Lisboa.

Cerca de 20% dos alumni da AESE Business School fizeram programas no Porto. Achávamos que era muito importante estarmos junto desses alumni.

Portanto, já têm presença no Porto há cerca de 30 anos. Por que é que inauguram agora um campus na cidade?

Cerca de 20% dos alumni da AESE Business School fizeram programas no Porto. Achávamos que era muito importante estarmos junto desses alumni. Aliás, foi um grupo de antigos alunos do Porto que nos ajudou em todo este projeto de construção do campus do Porto. A outra razão foi multiplicar toda a nossa atividade do Porto, sabendo que o impacto no tecido empresarial, e nas instituições em geral, que estão localizadas não apenas no Porto, mas em toda a zona norte, será muito mais frutífero com a nossa presença.

Admitia há pouco criar programas específicos para o Norte, que farão sentido nessa região e talvez nem tanto em Lisboa.

Repare que o tecido a norte é, por exemplo, muito mais industrial. Há setores que nitidamente têm nichos no Norte. Falamos, por exemplo, no setor têxtil. Da mesma maneira que foram surgindo programas setoriais novos em Lisboa… Estamos de momento a equacionar.

Referiu um aumento da atividade no Porto. Isso implica um aumento do corpo docente?

O reforçar do nosso do corpo docente é algo que não tem que ver apenas com o campus do Porto, mas que é uma das preocupações da AESE. Nestes últimos, temos olhado com muita atenção para o crescimento do corpo docente e para a sua especialização em relação a temáticas inovadoras. Por exemplo, em 2024, criámos a iniciativa de inteligência artificial como catalisadora de várias disciplinas.

Maria de Fátima Carioca, Dean da AESE Business School, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

E isso implicou a formação em IA dos vossos docentes?

Significou juntar docentes para colaborativamente terem pensamento sobre inteligência artificial. Juntámos um professor que vem da área mais das operações e das tecnologias, outro que vem mais da área da estratégia e uma professora que vem da área da ética. É desta multidisciplinaridade que surge a aprendizagem que podemos transmitir aos nossos participantes.

Que perspetivas tem para a AESE Business School quanto a 2026?

No próximo ano, diria que estes eixos estratégicos continuarão a ser o nosso foco de atenção. Isso pode significar o surgimento de novos programas, que estamos a estudar. Significará certamente o fortalecimento do corpo docente. Em termos de infraestruturas, agora estamos a estrear o campus do Porto, mas a atualização das infraestruturas também. Estamos num edifício que tem 25 anos e, por isso, certamente é mais do que tempo também de olharmos para o edifício onde estamos.

Veja a entrevista na íntegra abaixo:

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