David Brown da Techstars: “Qualquer comunidade pode construir um ecossistema de startups, só que leva tempo”

Aceleradora norte-americana escolheu Portugal para segunda localização na Europa. O ECO falou com o CEO sobre empreendedorismo, startups e Lisboa.

O país que David Brown conheceu nos anos 70 nada tem a ver com Portugal em 2019. Pelo menos é isso que garante o canadiano que, mais de 40 décadas depois, está de regresso à capital, Lisboa, em vésperas do arranque do primeiro programa de aceleração da Techstars, em parceria com a portuguesa Semapa. A rede internacional fundada em Boulder, estado do Colorado, em 2006, conta com mais de 10 mil mentores e uma rede superior a 300 mil alumni com presença em mais de 150 países.

Como é que surgiu a ideia de criar a Techstars?

Eu sou um empreendedor em série, tenho um parceiro de negócios que se chama David Cohen, e decidimos juntar-nos para criar uma série de startups, sempre juntos, um perfect match. Ambos tivemos sorte porque trabalhámos como empregados numa startup em Miami, no início dos anos 90. Ficámos amigos, vivemos juntos e, de repente, encontrámos uma ideia para uma startup nossa. Vendemo-la, criámos uma nova, tivemos algum sucesso e alguns falhanços. E, quando a Techstars começou, queríamos dar de volta, ajudar outros a ter sucesso. Agora estamos um pouco por todo o mundo, a ajudar os empreendedores a ter sucesso, e esse era um objetivo desde o início. Toda a ideia da Techstars veio de considerarmos esse processo muito difícil. Cometemos alguns erros, e esperamos que eles não cometam os mesmos. Essa era a ideia original.

Como começou?

A ideia veio em 2006. E, no verão de 2007, começámos o primeiro programa de aceleração. Definimos: três meses de programa, dez startups. Porquê? Não faço ideia, foi o que definimos na altura. Demos-lhes algum dinheiro, ficámos com equity de volta. Como decidimos? Não sei. Decidimos também ter um demo day no final, e esse é o modelo agora, não há diferenças. Era assim que funcionava, e continuámos a fazê-lo. Em Boulder em 2008 e, depois, outra vez em 2009. Decidimos que era bom o suficiente para escalar para outras paragens, e fizemo-lo em Boston e em Seattle, Berlim e, agora, Lisboa.

Porquê Lisboa?

Lisboa tem imensa atenção entre a comunidade de startups, também devido à presença do Web Summit aqui. Ter o programa de aceleração aqui é uma espécie de passo natural. Decidimos fazê-lo com um parceiro local, a Semapa, porque é útil para nós organizar programas com parceiros. Temos o programa com o Metro, em Berlim, e com o Barclays em Londres. É uma relação win-win porque eles ajudam-nos localmente, com os empreendedores com contactos, e então é bom para todos.

Volta a Lisboa mais de 40 anos após a primeira vez. Quais as primeiras impressões deste regresso?

Ainda não passei muito tempo na cidade mas a minha primeira impressão é que é uma linda cidade. Como quando vim pela primeira vez era adolescente, provavelmente no início dos anos 70, não me lembro de nada. Foi provavelmente depois da revolução, lembro-me apenas de ter ido a uma tourada.

Nessa altura já era o empreendedor que se veio a tornar depois, empreendedor em série?

Um serial entrepreneur é alguém que começa múltiplas coisas ao mesmo tempo. É a definição. Mas é uma pessoa que, por outro lado, é inempregável. Acho que os empreendedores em série simplesmente não conseguem trabalhar numa grande empresa, fazer parte de um processo. São pessoas diferentes, há um gene empreendedor com que se nasce, ou não.

"Empreendedores são pessoas diferentes, há um gene empreendedor com que se nasce, ou não.”

Mas pode aprender-se?

Não, infelizmente não pode. Ou tens ou não tens. Mas talvez o tenhas e não te tenhas dado conta até seres mais velho e só aí aprendes como ser um bom empreendedor. Mas já o tens na tua maneira de ser. Então, a famosa história do fundador da Kentucky Fried Chicken que só aos 65 anos se tornou empreendedor. Algumas pessoas tornam-se empreendedores no liceu, como eu, outras depois dos 60 e têm um momento iluminado.

É mais fácil ser empreendedor agora do que há dez anos?

Hoje é socialmente aceite ser empreendedor, é cool. Quando eu me tornei um empreendedor, era como ser um inventor. Era quase como aquele teu tio louco a fazer invenções na garagem aos fins de semana. Não era uma coisa que se fizesse para a vida. Agora, não interessa se frequentas a universidade de direito ou de gestão, há sempre muitas pessoas que querem ser empreendedores. Nem todos deveriam ser mas… muitos serão.

Hoje é socialmente aceite ser empreendedor, é cool.

Deixar de empreender numa garagem, como um cientista, tira a magia?

É melhor agora. Eu cresci como um empreendedor dos anos 80, em Montreal, no Canadá. E sentia um desfasamento, era uma espécie de inadaptado. Nunca tinha conhecido alguém como eu até conhecer este tipo, este norte-americano empreendedor, quando me mudei para os Estados Unidos. Foi a primeira vez na minha vida que encontrei as minhas pessoas, a minha tribo. Agora não é muito difícil encontrar uma tribo. Vens à Startup Lisboa, está cheia de gente que pode funcionar como uma tribo.

Lisboa é hoje um pouco maior, de certeza, do que da última vez que cá estive, no ano passado. Todos os ecossistemas de startups estão a crescer.

E porque é que isso acontece?

Porque cada vez mais pessoas percebem o que é ser uma startup, e cada vez mais pessoas apoiam. Isso torna-se um ciclo em que há mais dinheiro, mais capital, mais mentores, mais ideias e mais startups. No decurso da minha carreira, tenho visto sempre a crescer, e algumas comunidades continuam um pouco particulares. Em Boulder, por exemplo, a pequena cidade onde eu vivo, há mais startups per capita do que em qualquer outro sítio do mundo. Mais do que em Silicon Valley. E a cidade conta com apenas 100 mil pessoas. Gosto de dizer que temos algo também a ver com isso: é um ótimo sítio, perto das montanhas, as pessoas querem viver lá, têm havido muitos fundos de capital de risco a ir para lá instalar as suas sedes. Boulder, onde quando me mudei não havia nada, faz-me acreditar que qualquer comunidade pode construir um ecossistema, só que leva tempo. Há uma boa comunidade de startup, mas diz-se que demora 20 anos não de quando começaste mas de hoje. E se tiveres sempre essa noção de que demora a construir, consegues construir um bom ecossistema de startups.

Quais são os vossos planos em Lisboa?

Estamos muito entusiasmados com este programa que temos com a Semapa, e isto é só o princípio. Agora temos uma ou duas empresas no nosso portefólio sediadas aqui, mas nesta altura no próximo ano, teremos mais dez. E, um ano depois, mais dez. É um ciclo que constrói o ecossistema.

"Há startups a fazer coisas com blockchain apesar de o negócio não tirar qualquer benefício disso. ”

Quais são as tendências atuais nas startups?

É engraçado porque, a cada seis meses há uma nova. Chatbots, veículos autónomos, AI, blockchain, ICOs… Creio que há uma distinção entre tendências e distrações. E chatbots, machine learning, AI, são as distrações, aquilo que todas as startups dizem que têm. Há startups a fazer coisas com blockchain apesar de o negócio não tirar qualquer benefício disso. Eles só pensam que, como se fala, deviam fazer porque faz deles trendy. Mas não faz. Isso é uma distração.

Quais são as tendências? Há muito mais empreendedores à procura de criar grandes negócios, criar tecnologias disruptivas, estas grandes empresas. E com a passagem dos anos torna-se mais simples fazê-lo, a internet mudou tudo. Todas estas tecnologias tornam mais fácil começar negócios com tecnologias disruptivas, o que faz com que as grandes empresas estejam… nervosas sobre “serem uberizadas”. Veem o que a Uber fez ao negócio dos táxis, e o que a Airbnb fez aos hotéis, e querem perceber o que as startups podem fazer aos seus negócios. E é por isso que querem fazer parcerias connosco, para perceber o que fazer.

A relação está a funcionar?

Sim, bastante bem. Temos muito para aprender uns com os outros: eles querem aprender a relacionar-se e conhecer startups, e todo o nosso portefólio, são esses os nossos clientes. É muito complicado para uma startup entender como trabalha uma grande empresa porque não entende a escala.

Falando em escala geográfica, algum dia a Europa será como Silicon Valley?

Se conseguimos fazê-lo em Boulder, vocês vão conseguir fazê-lo em Lisboa (risos). Em qualquer lado. Não se deve replicar mas fazer exatamente à vossa maneira. Nunca gostei de ver cidades autoproclamarem-se “as novas Silicon Valley”. O que é Lisboa? Silicon qualquer coisa? Muitas cidades fizeram-se marca como Silicon-something e não acho que isso seja uma boa ideia porque não se tira vantagem de determinadas características. Silicon Valley funciona de forma incrível como Silicon Valley. Qualquer comunidade pode construir um ecossistema empreendedor, vendo Boulder como exemplo. Se pudemos fazê-lo lá, podemos fazê-lo em qualquer lado. Viajei pelo mundo, há empreendedores em todo o lado, eles têm o gene, têm o DNA, e querem construir negócios. E muitos deles não querem sequer ouvir falar em mudarem-se para Silicon Valley. Ou mesmo mudarem-se para os Estados Unidos. Seguramente, acredito que a administração Trump forçou a atividade das startups para fora dos Estados Unidos. E muitas outras comunidades beneficiaram disso. As mais óbvias são as canadianas.

E acha que isso vai continuar?

Só espero que não. Acho que é uma oportunidade perdida para o país onde vivo e que se vão para sempre.

Um dos princípios da Techstars é “se é para falhar, que se falhe bem”. O que entende por “falhar bem”?

Significa suportar o falhanço, ter conversas e discutir com os investidores, garantir que eles sabem das razões pelas quais o negócio está a esmorecer, apoiar os outros membros da comunidade, suportar e dar apoio às pessoas que falham no ecossistema. Na comunidade de Boulder, de cada vez que alguém falha, organizamos startup weeks, partilhando os falhanços e normalmente envolve bastante álcool (risos). É tão importante a sensação de que é OK falhar porque condiciona a possibilidade de arriscar. Se não falhas não arriscas, e se não arriscas não podes criar um negócio. É um conceito importante.

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