Esperar nova bazuca europeia em futura crise é uma “ilusão”, diz Poul Thomsenpremium

O ex-quadro do FMI responsável pela Europa critica fortemente a política monetária dos bancos centrais, incluindo o BCE, e diz que é contra o relaxamento das regras orçamentais na Zona Euro.

Poul Thomsen considera que é inevitável que haja uma nova crise das dívidas soberanas, tal como aquela que há uma década o trouxe à Grécia e a Portugal, se os países do Sul da Europa não fizeram as reformas estruturais necessárias para se aproximarem do Norte da Europa. O ex-chefe da missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Portugal diz em entrevista ao ECO que é contra o relaxamento das regras orçamentais na Zona Euro que está a ser discutido a nível europeu e deixa fortes críticas à ação da política monetária dos bancos centrais, incluindo o Banco Central Europeu (BCE).

É possível que daqui a uns anos estejamos a falar de uma nova crise das dívidas soberanas na Zona Euro?

Se não começarmos a fazer reformas estruturais para reduzir as diferenças estruturais entre o Norte e o Sul, se não aumentarmos a produtividade dos países com crescimento baixo, se não reduzirmos o défice orçamental estrutural, de certeza que irá acontecer uma crise de dívida na Zona Euro outra vez no futuro. É uma ilusão pensar que o Norte agora concordou em fazer transferências [orçamentais] para o Sul de cada vez que houver uma crise. Isso aconteceu desta vez por causa de Covid e o facto de ser uma questão humanitária.

Não houve uma mudança na arquitetura e gestão política da Zona Euro?

Foi um caso especial, mas as realidades políticas não mudaram. Há esta noção de que as crises catalisam a integração europeia e que no final vamos ser os Estados Unidos. É uma grande ilusão porque nos EUA há uns poucos Estados fracos dentro de uma economia muito dinâmica. Na Europa, os países com rating AAA são um terço, os países com dívida elevada são outro terço e o outro terço é um grupo de países como França que está rapidamente a perder controlo da sua dívida pública. Não faz nenhum sentido achar que vai haver transferência sem uma melhoria da governança. É ingénuo pensar isso. Só acontecerá se houver mudanças estruturais nos países mais fracos para que seja uma partilha de risco genuína em vez de uma transferência.

"De certa forma, durante os anos bons de crescimento, todos estavam a fazer o oposto do que deviam fazer. Os países com dívida elevada pararam a consolidação e reformas estruturais -- e alguns até as reverteram -- e os países com excedentes continuaram a consolidação em demasia.”

Poul Thomsen

Ex-chefe da missão do FMI em Portugal

Mas não houve também uma redução do défice demasiado rápida e desnecessária nos países com dívida baixa?

É verdade. Essa política exacerbou a tensão. Foram demasiado rápidos a atingir o equilíbrio novamente, a reconquistar a margem de manobra orçamental que tinham perdido. Não há dúvida de que depois da crise do euro a Alemanha, a Holanda e outros países contribuíram desnecessariamente para esta tensão ao ajustarem demasiado rápido. Olhando para o futuro, desta vez, não tenho nenhum problema em apoiar os que dizem que estes países deveriam ser mais lentos a reduzir a dívida após a crise pandémica. E isso também irá beneficiar os países do Sul. De certa forma, durante os anos bons de crescimento, todos estavam a fazer o oposto do que deviam fazer. Os países com dívida elevada pararam a consolidação e reformas estruturais -- e alguns até as reverteram -- e os países com excedentes continuaram a consolidação em demasia.

Atualmente o debate na Zona Euro é sobre o futuro da sua governança, especialmente no que toca às regras orçamentais. Qual é a sua posição?

Não sou a favor de uma mudança nas regras orçamentais da Zona Euro. Sei que há uma grande maioria a favor, mas acho que os assuntos em cima da mesa são enganadores. Olhe para França onde a dívida pública tem aumentado sempre, exceto nos anos de grande crescimento em que estabiliza. Os países mais endividados tiveram políticas pró-cíclicas durante os anos de crescimento económico. As pessoas dizem que é preciso mudar as regras orçamentais, mas onde é que está a austeridade? É um mito, não há austeridade. Há uma falta de reformas estruturais. Há muitas políticas nada amigas do crescimento, nomeadamente com o investimento público que baixou três vezes mais nos países mais endividados. Estamos a confundir assuntos. Ainda para mais com a flexibilidade [da interpretação das regras por parte da Comissão Europeia] que existe e que existirá agora se houver preocupação sobre apertar demasiado a política orçamental durante a retoma.

"Não compro o argumento de que temos taxas de juro historicamente baixas e, por isso, os países podem ter um nível de dívida muito mais elevado.”

Poul Thomsen

Ex-chefe da missão do FMI em Portugal

Acha que mudar as regras não resolverá nada?

Mudar as regras é um exemplo extremo de fazer uma mudança para ficar tudo igual. Só envia um sinal aos políticos que não têm vontade de fazer reformas durante anos de que podem continuar a não fazê-lo. Não compro o argumento de que temos taxas de juro historicamente baixas e, por isso, os países podem ter um nível de dívida muito mais elevado. Primeiro porque agora temos inflação alta e os juros baixos podem não durar muito mais e em segundo porque o bónus dado por este ambiente já foi "consumido" e de forma errada nos últimos 10 anos. Mesmo se houver um pouco mais de margem de manobra, será que isso importa para um país como França em que os políticos têm falhado nos últimos 40 anos no controlo da dívida?

Admite que é preciso uma simplificação das regras? Uma regra simples que incida sobre o aumento anual da despesa pública?

Concordo que existe a necessidade de simplificação. Concordo com uma regra simples da despesa, ancorada no médio prazo com uma meta para a dívida pública. Não tenho nenhum problema até que aumentem a meta da dívida face aos atuais 60% do PIB. Mas o que me perturba são todos os argumentos para não reconhecer que o maior problema na política orçamental são as décadas em que foram incapazes de fazer as reformas estruturais para reconquistar o controlo da dívida. Se eu fosse um decisor político no Norte, eu diria que só mudaria as regras orçamentais em troca de reformas sérias.

"Não acredito que a Zona Euro vá sobreviver na sua formação atual se não se lidar com os problemas estruturais.”

Poul Thomsen

Ex-chefe da missão do FMI em Portugal

Os fundos europeus, nomeadamente o Plano Recuperação e Resiliência, deveriam ser condicionados a reformas?

Eu entendo que as primeiras ajudas orçamentais tinham uma ótica humanitária e tal não poderia estar dependente de reformas. Politicamente penso que não será possível reabrir esse tema. Mais importante do que isso é que o BCE pare de dar este ajuda incondicional aos países vulneráveis, desviando-se da sua chave de capital. O entendimento que existia é que qualquer ajuda direcionada a um país teria de ser através do OMT [Outright Monetary Transactions - programa anunciado por Mario Draghi em 2012 que implicava um programa de ajustamento, mas que nunca avançou] e isso implicaria um programa do tipo da troika. Entendo que se desviasse disso durante a crise pandémica, mas agora é preciso que o OMT seja reintroduzido.

As notas do euro que usamos todos os dias vão fazer 20 anos. Acha que haverá mais 20 anos de Zona Euro?

Sim, haverá, mas serão anos excecionalmente dolorosos se não se lidar com os problemas estruturais. Não nos podemos esquecer que nestes anos houve um número excecional de jovens gregos, italianos e portugueses que abandonaram o seu país. Este gráfico mostra como a Grécia vai demorar 25 anos, mais de uma geração, a recuperar destas crises enquanto noutros países demorou até cinco anos. Este é o gráfico de um falhanço enorme. Não acredito que a Zona Euro vá sobreviver na sua formação atual se não se lidar com os problemas estruturais.

"A política monetária nos últimos 20 anos tornou os mercados viciados em dinheiro barato", critica Poul Thomsen

O economista dinamarquês, fora do FMI há alguns meses, mostra-se fortemente crítico da condução da política monetária nas economias avançadas, incluindo na Zona Euro, culpando-os pelo facto de os mercados estarem "viciados em dinheiro barato" e isso dificultar a normalização dos juros. Para Poul Thomsen o BCE devia ter esquecido a meta de inflação fixada nos tratados europeus e parar de meter o pé no acelerador, já a seguir à fase mais crítica da pandemia.

No debate da inflação, em que lado está: no lado dos que dizem que é temporária ou no lado dos que estão preocupados?

Estou definitivamente no último lado. Os livros de história não serão bons para os bancos centrais. O problema não é a reação ao Covid-19. Acho que foi excessiva, mas a incerteza era tão grande que se entende. O meu problema é que durante os muitos bons anos [de crescimento económico] tiveram uma política monetária demasiado expansionista. A política monetária nos últimos 20 anos tornou os mercados viciados em dinheiro barato. Tornaram-se viciados na ideia de que se houver um problema a política monetária vai salvá-los. A política monetária foi capturada pelos mercados. Todas as bolsas estão em níveis recordes e agora estão com medo do aperto monetário porque os mercados são muito importantes, em termos políticos, nos Estados Unidos. Na Europa, os mercados são politicamente menos importantes, mas o Banco Central Europeu está capturado pelos países mais fracos do Sul da Europa. O BCE está com medo de reduzir os estímulos por causa das implicações para esses países. Em 2016, 2017 e 2018, quando as economias recuperaram totalmente e a taxa de desemprego era muito baixa, o BCE continuou com este relaxamento sem precedentes da política monetária porque estava preocupado com alguns países vulneráveis.

"Houve um aumento enorme na desigualdade da distribuição da riqueza, com os mais jovens a serem excluídos do mercado imobiliário e com os mais ricos e mais velhos, que já são donos de ativos financeiros, a melhorarem a sua riqueza.”

Poul Thomsen

Ex-chefe da missão do FMI em Portugal

Mas a inflação não chegou nesses anos à meta dos 2% dos tratados para que o BCE pudesse subir os juros, certo?

A relação entre a inflação e a taxa de desemprego, a famosa curva de Phillips, quebrou-se. O BCE tem estado fortemente errado sobre a evolução da inflação nos últimos anos, sobrestimando a taxa. O mesmo fizemos nós no Fundo Monetário Internacional quando eu era o chefe do departamento europeu. Temos um fraco entendimento sobre o que provocou isto. A globalização, com pressões para manter os preços baixos, por exemplo, ou os sindicatos enfraquecidos em comparação com há 30 ou 40 anos. Porém, apesar de isto ser uma caixa negra, o BCE insistiu em meter o pé no acelerador para ter a inflação na meta. Com que custo? Não é inflação, mas houve um aumento enorme na desigualdade da distribuição da riqueza, com os mais jovens a serem excluídos do mercado imobiliário e com os mais ricos e mais velhos, que já são donos de ativos financeiros, a melhorarem a sua riqueza. Temos de apertar a política monetária num momento em que os mercados têm muita liquidez. Os bancos centrais têm sido imprudentes na forma como geriram isto.

"A política monetária está a ir por um caminho em que haverá mais politização.”

Poul Thomsen

Ex-chefe da missão do FMI em Portugal

O BCE devia ter deixado de lado a sua meta?

Sem dúvidas. Em 2016, em 2017 ou em 2018, o BCE deveria ter dito que ainda queria chegar aos 2%, mas que iria demorar muito mais tempo a chegar lá e, por isso, vamos começar a normalização [da política monetária] mais cedo. As pressões dentro do BCE nos últimos meses do Draghi eram para apertar, mas a pandemia chegou e deu um argumento claro para se continuar com uma política monetária expansionista. Não tiveram de lidar com o dilema. Tudo isto vai dar ao facto de que temos uma fragmentação estrutural entre o Norte e Sul na União Europeia. Vai haver uma divisão política entre estas duas áreas dentro do BCE porque no Norte querem uma normalização da política monetária mais cedo do que no Sul. A política monetária está a ir por um caminho em que haverá mais politização.

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