“Há grandes grupos internacionais atentos à Lusitania”, garante CEO das seguradoras do Montepio

Paulo Martins Silva, presidente executivo da Lusitania, garante que a situação das seguradoras está agora estabilizada e explica como vê o futuro, a estratégia e a vivência dentro do grupo Montepio.

A Lusitania Seguros e a Lusitania Vida — as duas companhias seguradoras do Grupo Montepio — atravessam uma fase de consolidação e crescimento, marcada pela recuperação de solvência, pela valorização dos ativos e por investimentos tecnológicos. Paulo Martins Silva, que lidera ambas as seguradoras enquanto presidente da Comissão Executiva, foi entrevistado pelo ECOseguros e falou sobre os problemas passados, como está a recuperar as seguradoras, os interessados na compra das companhias e a relação com o grupo. Expõe ainda a estratégia de modernização e garante que a área seguradora do Montepio “é hoje um dos ativos mais sólidos e rentáveis do grupo”.

A revisão das normas de Solvência II foi criada com o objetivo de proteger o tomador de seguros. Essa é também a sua leitura?

Esse é um dos princípios fundamentais da diretiva: a proteção dos tomadores. A grande evolução que a revisão de Solvência II trouxe foi a exigência de operadores resilientes, com a solvência necessária para enfrentar perturbações de mercado. Isso implica que os requisitos de capital estejam alinhados com o perfil de risco de cada seguradora, com a capacidade de risco que pretende assumir e com o capital que necessita para o sustentar. No fundo, trata-se de garantir que a estrutura de capital acompanha o nível de risco da operação.

Essa prudência tem sido uma constante na gestão da Lusitania?

Sem dúvida. A gestão seguradora é, por natureza, técnica e prudente. É essencial conhecer o risco que se toma, avaliar a capacidade interna de o gerir e assegurar proteção através de mecanismos de resseguro. Tudo isto numa lógica de sustentabilidade de médio e longo prazo — não apenas no sentido ESG, mas na sustentabilidade intrínseca do negócio: que seja sólido, previsível e capaz de honrar os compromissos assumidos com os clientes.

Solvência II é muitas vezes apontada como um travão ao investimento em ativos de maior risco. A revisão muda o cenário?

Não exatamente um travão. O essencial é compreender a tipologia de riscos em que se pode investir e como esses riscos são ponderados no cálculo da solvência. As seguradoras são investidores institucionais de médio e longo prazo e, portanto, têm um papel fundamental no financiamento da economia real — especialmente em projetos de infraestruturas e de transição climática. Faz sentido que haja um alívio das cargas de capital para investimentos com esse horizonte temporal e relevância estratégica. O objetivo não é aliviar capital por si só, mas alinhar a capacidade de investimento das seguradoras com as necessidades estruturais da economia europeia.

O processo de reporte regulatório também é apontado como excessivo. No caso da Lusitania é uma preocupação?

Há um consenso no setor de que é necessário aliviar a carga de reporte, que tem sido extremamente pesada e burocrática. No caso da Lusitânia, essa fase mais exigente já está ultrapassada. A crise provocada pela invasão da Ucrânia trouxe uma perturbação significativa aos mercados financeiros e, naturalmente, impacto na solvência das seguradoras, incluindo a nossa. Mas, rapidamente recuperámos através de um programa interno de de-risking. Hoje temos níveis de solvência confortáveis, acima dos 160% na Lusitânia Vida, e a situação está completamente estabilizada.

A Lusitânia Vida nunca teve prejuízos?

Nunca. A companhia teve sempre uma gestão muito cuidada. O que aconteceu foi uma perturbação temporária e totalmente externa — resultante da guerra e do aumento súbito das taxas de juro —, que provocou uma quebra momentânea no valor dos ativos. Foi uma situação passageira e rapidamente corrigida.

Como está organizada hoje a área seguradora do grupo Montepio?

Existe um plano estratégico aprovado até 2026 que prevê uma gestão integrada das duas companhias — Lusitania e Lusitania Vida. Ambas partilham a mesma direção e o objetivo é reforçar a área seguradora como plataforma de distribuição e captação de riscos, com uma oferta integrada. Temos produtos de mass market, soluções especializadas e canais de distribuição diversificados: a nossa rede de mediadores e corretores — que representa cerca de 80% do negócio —, a distribuição direta sob a marca “N Seguros” e o canal bancário do grupo, através da rede Montepio. Estamos a investir fortemente em tecnologia, eficiência operacional e capacitação das pessoas. Tudo isto com base em autofinanciamento, sem recorrer a aumentos de capital. Queremos uma seguradora moderna, eficiente e próxima do cliente.

E quanto à rentabilidade e política de dividendos para benefício da Associação Mutualista?

O objetivo é claro: gerar valor e remunerar o capital, mas mantendo equilíbrio com a necessidade de reinvestir. Temos uma meta mínima de retorno de 7,5%, embora isso varie consoante as oportunidades de reinvestimento anual. A Lusitania Vida tem conseguido distribuir dividendos consistentes, enquanto a Lusitania Seguros tem reinvestido mais intensamente para acelerar a transformação digital e o crescimento.

A empresa enfrentou um processo da Autoridade da Concorrência no chamado “cartel dos seguros”. Que impacto teve?

Foi um processo que nos afetou profundamente. Fomos injustamente incluídos num conjunto de operadores e tivemos de provisionar 20,5 milhões de euros, o que limitou fortemente a nossa capacidade de investimento durante vários anos. Só em 2023 libertámos metade dessa provisão e a decisão final veio dar-nos razão. Foram cinco anos perdidos em termos de velocidade de transformação tecnológica. Estamos agora a recuperar esse atraso com uma estratégia clara e investimentos seletivos.

“O cliente está mais informado, mais digital e mais exigente. O futuro será marcado pela capacidade de combinar tecnologia com proximidade humana”.Hugo Amaral/ECO

As reversões de imparidades nas contas do grupo Montepio também tiveram impacto relevante?

Em 2023, revertemos cerca de 5 milhões de euros, e em 2024 aproximadamente 30 milhões, refletindo a valorização do ativo Lusitania. Essa valorização tem dois efeitos: reforça os fundos próprios e valoriza a operação, beneficiando diretamente a casa-mãe. É importante sublinhar que a Lusitania Vida nunca registou imparidades. Hoje, a área seguradora é um dos ativos mais sólidos e rentáveis do grupo Montepio, contribuindo significativamente para o equilíbrio do conjunto.

Como avalia a evolução recente do mercado segurador português?

O setor está em profunda transformação. Há uma maior profissionalização, novos canais de distribuição — como o embedded insurance ou o direct insurance — e uma concorrência cada vez mais exigente. Tudo isto obriga as companhias a inovar continuamente, a simplificar processos e a adaptar produtos. O cliente está mais informado, mais digital e mais exigente. O futuro será marcado pela capacidade de combinar tecnologia com proximidade humana.

Dentro do grupo Montepio coexistem várias entidades — associação mutualista, banco, seguradoras, gestora de fundos de pensões. Há risco de sobreposição ou concorrência interna?

Não, pelo contrário. Há complementaridade. O grupo oferece diferentes veículos de poupança e proteção: seguros, fundos de investimento, fundos de pensões. As soluções são distintas, mas complementares. O foco está no cliente: oferecer soluções adequadas a cada fase da vida e ao perfil de risco de cada pessoa. Desde o nascimento até à reforma, há uma oferta global que cobre as várias dimensões da proteção financeira. Essa integração é o que torna o grupo Montepio único no mercado português.

Fala-se ciclicamente na eventual venda das seguradoras do grupo Montepio. Esse tema está atual?

A nossa missão enquanto gestores é valorizar o ativo, e é isso que temos feito. O presidente do grupo já afirmou publicamente que, a prazo, não exclui a entrada de parceiros estratégicos, caso isso permita crescer e ganhar escala. Mas essa é uma decisão que cabe exclusivamente ao acionista. Hoje, o grupo está a beneficiar da valorização das seguradoras, com as imparidades praticamente resolvidas e uma situação financeira muito mais estável. É natural que haja interesse — sabemos que existem grandes grupos internacionais atentos —, mas o foco da nossa gestão é continuar a criar valor, a reforçar a rentabilidade e a confiança no mercado.

Confiança é uma palavra que surge várias vezes no discurso…

Porque é o pilar de tudo. O negócio segurador assenta na confiança — de quem nos entrega a sua poupança e de quem espera ser ressarcido quando precisa. É essa confiança que sustenta a relação com clientes, parceiros, colaboradores e acionistas. Na Lusitânia e no grupo Montepio, trabalhamos todos os dias para merecer e reforçar essa confiança. Só assim se garante a sustentabilidade do negócio e o cumprimento da missão de proteger pessoas e patrimónios ao longo do tempo.

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