Secil corta nos combustíveis fósseis para produzir “cimento de baixo carbono” em Setúbal

Em entrevista ao ECO/Capital Verde, o administrador Carlos Abreu garantiu que o objetivo é reduzir em 20% as emissões de CO2 da fábrica, considerada a 10º maior poluidora em Portugal em 2020.

A Secil anunciou que vai investir 86 milhões de euros para modernizar a sua fábrica do Outão, em Setúbal. O objetivo, garante a empresa, é eliminar o uso de combustíveis fósseis primários e desta forma conseguir uma redução de 20% das emissões de CO2, aumentando assim a eficiência energética em 20% e gerando 30% de eletricidade por recuperação de calor.

Em 2020, de acordo com um ranking da associação ambientalista Zero, esta unidade industrial foi considerada como o 10º maior poluidor em Portugal, com emissões de mais 713 mil toneladas de CO2 no ano passado.

Denominado CCL – Clean Cement Line, o novo projeto encontra-se já em fase de execução com a adjudicação de equipamentos e a demolição de antigas estruturas industriais, estando previsto entrar em funcionamento em outubro de 2022.

“Trata-se de um investimento significativo, em contraciclo à atual conjuntura económica, que vai posicionar Secil e a fábrica como o principal fornecedor de cimento de baixo carbono para o ciclo de obras públicas e construção civil que se anuncia com o PRR e o PT2030, nos quais critérios de green procurement serão já aplicados”, explicou em entrevista ao ECO/Capital Verde Carlos Abreu, administrador da Secil, sublinhando que o CCL foi declarado Projeto de Interesse Nacional por parte da AICEP, tendo recebido financiamento de fundos europeus (PT2020) na ordem dos 14,5 milhões de euros.

A nível mundial, a indústria cimenteira é responsável por cerca de 5% de todas as emissões de CO2, provenientes de duas fontes: dos combustíveis fósseis usados no processo e, fundamentalmente, da libertação de carbono da matéria-prima utilizada (calcário e marga). O setor já estabeleceu como meta a neutralidade carbónica da cadeia de valor do betão até 2050.

O que irá mudar na fábrica com este investimento?

A evolução da fábrica nos últimos 20 anos é notória: do controlo de emissões de partículas com filtros de mangas, ao incremento da taxa de uso de combustíveis alternativos para valores acima de 50%, com forte impacto positivo na emissão de CO2. A fábrica será modernizada, ao nível dos equipamentos dos vários processos, não se alterando a base do seu perfil arquitetónico. Utilizará combustíveis fósseis, emitirá menos 20% de CO2, terá 20% de acrescida eficiência energética e gerará pelo menos 30% das suas necessidades de eletricidade a partir do aproveitamento do calor do processo e de um campo solar. Estes valores colocarão esta fábrica como benchmark (referência) europeu. Esta nova forma de produzir clínquer e energia terá impacto na redução da sua pegada carbónica.

Como é que se torna mais “verde” a produção de cimento?

Esta pergunta encerra um estereótipo: a produção de cimento não é menos verde (no sentido ambiental) do que a produção de qualquer outro material de construção. Apenas a produção de clínquer dá lugar a relevantes emissões de CO2. Com o clínquer faz-se cimento e com o cimento faz-se betão, com baixa pegada carbónica. O betão compara favoravelmente com todos os outros materiais, madeira incluída, se fizermos a correta análise a todo o ciclo de vida do produto.

Com a gestão mais sustentável, do ponto de vista do processo industrial, proporcionada por este Projecto CCL — incluindo o fabrico de clínquer de baixo carbono –, com a continuação da recuperação ambiental e melhoria na gestão das pedreiras, com logística de transporte que privilegia o modo ferroviário e marítimo em detrimento do rodoviário e com uma política de responsabilidade social, a nossa atuação já é muito mais verde do que cinzenta. De cinzento, só temos mesmo o material que produzimos.

A partir de quando a fábrica da Secil vai ver as suas emissões reduzidas e quanto?

A nova Linha CCL vai entrar em laboração no final de 2022 pelo que a partir dessa data as emissões de CO2 se reduzirão nos previstos 20%, conforme explicado acima.

A fábrica da Secil entrou em 2020 no top 10 dos maiores poluidores em Portugal (saltou do 12º para o 10º lugar) de acordo com a associação ambientalista Zero. O que motivou este aumento de emissões em ano de pandemia, já que em 2019 foram 15,3% inferiores?

Estas emissões dizem respeito apenas a CO2 e, assim, é de notar que nos primeiros lugares desse ranking aparecem as centrais de ciclo combinado que utilizam gás natural e que continuam a produzir CO2 de combustíveis fosseis. No caso do cimento tem a ver com o conjunto de emissões por volume de clínquer produzido e não com emissões específicas por tonelada. A fábrica da Secil subiu no ranking porque produziu mais clínquer, não porque tivesse emitido mais CO2 por tonelada produzida. Como sabemos, a pandemia não afetou a construção e foi vendido mais cimento, ao contrário do que sucedeu por exemplo, com a TAP. Os aviões não passaram a emitir menos, voaram menos, as centrais térmicas a carvão produziram menos, a nossa fábrica, felizmente, produziu mais.

Têm metas de redução para 2021? Como vão reduzir as emissões este ano e nos anos seguintes?

A Secil está vinculada à Ambição Climática da GCCA e ao Roteiro 5C do Cembureau, que preveem a neutralidade carbónica da cadeia de valor do betão em 2050, com importantes metas intermédias já definidas para 2030. O Roteiro da Indústria Cimenteira Portuguesa para a Neutralidade Carbónica também prevê uma substancial redução para 2030, pelo que o caminho tem que ser feito ano após ano, utilizando mais combustíveis alternativos não fósseis, melhorando a eficiência energética dos processos industriais, produzindo energia renovável e aumentando a circularidade dos materiais empregues no processo para diminuir a intensidade energética.

Entretanto, o setor cimenteiro anunciou que até 2050 quer alcançar a neutralidade carbónica ao longo da sua cadeia de valor. A mais curto prazo, até ao final da década, esta indústria espera já conseguir reduzir, face aos níveis de 1990, as emissões específicas brutas de CO2 por tonelada em quase metade (-48%) considerando toda a cadeia de valor. No total será um investimento estimado de 1.990 milhões de euros para pôr em prática o Roteiro da Indústria Cimenteira para a Neutralidade Carbónica 2050.

Qual o papel da Secil neste Roteiro recentemente apresentado? Qual a importância de a indústria se unir num documento comum para afirmar o seu compromisso de traçar metas e reduzir emissões?

O papel da Secil é relevante, como um dos principais players do mercado nacional. Os desafios de sustentabilidade e descarbonização são de tal magnitude que não podem ser resolvidos apenas por uma empresa, é necessário que os setores se comprometam integralmente. Por isso, a ATIC, alinhada com a Associação Europeia do Cimento e tendo em conta a Ambição Climática da GCCA definiu um roteiro vinculado também ao RNC2050 de Portugal e a Secil é uma das protagonistas desse roteiro, como se vê por este investimento industrial no CCL.

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