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“Sem estatísticas andamos perdidos na sociedade em que vivemos”

A diretora da Pordata e co-autora do livro 'Que número é este?' fala ao ECO sobre o projeto de divulgação das estatísticas que, para Maria João Valente Rosa, são "o abecedário da era moderna".

Alguma vez pegou num jornal e olhou para um gráfico com surpresa, ou leu uma percentagem que o confundiu e o deixou a perguntar: “Que número é este?”. É a essa pergunta que o livro da Pordata e da Fundação Francisco Manuel dos Santos com o mesmo título quer ajudar a responder. O livro, subtitulado Um guia sobre estatísticas para jornalistas, ensina em 22 capítulos a lidar com dados estatísticos: como os interpretar, trabalhar, representar e transmitir aos outros com maior clareza.

Mas, para a diretora da Pordata Maria João Valente Rosa, um dos três pares de mãos que escreveram este livro, juntamente com o jornalista Ricardo Garcia e a socióloga Luísa Barbosa, as estatísticas têm um valor ainda mais profundo: são o alfabeto com que interpretar a sociedade em que vivemos e podem mesmo ajudar a responder a inquietações que parecem mais íntimas. Em entrevista ao ECO, a socióloga falou sobre o projeto Que número é este?, mas também sobre as estatísticas em geral e o seu valor na sociedade moderna.

Que livro é este?

Este livro pode ser entendido como um guia útil para nos orientar na nossa relação com as estatísticas. Pode-nos ajudar a lidar com elas, a compreendê-las, e também a transmiti-las a outras pessoas.

As estatísticas não são números abstratos, pois falam de nós. Sem estarmos atentos ao que dizem as estatísticas, ficamos perdidos na sociedade em que vivemos. É sobre esses números especiais que este livro versa. No fundo, as estatísticas refletem aquilo que somos, o modo como nos comportamos e a sociedade em que vivemos. São o melhor espelho que temos de nós próprios.

Este livro fala de estatísticas e não de Estatística, enquanto disciplina científica. As estatísticas são dados quantitativos que captam diversas realidades. Chegam-nos todos os dias das mais variadas formas, e temos que as saber descodificar e dar-lhes voz.

O livro foi pensado para jornalistas, mas tem outros públicos-alvo?

As estatísticas dizem respeito a todos e os jornalistas são utilizadores muito especiais e importantes deste tipo de dados. Têm de os utilizar no dia-a-dia, e são grandes disseminadores desta informação. Por isso este livro foi dedicado aos jornalistas, mas que pode ser útil para todos nós. É um livro que está escrito de uma maneira simples, fácil e compreensível para qualquer pessoa.

Excerto do livro “Que número é este” que exemplifica como as escalas devem começar em zero.Fundação Francisco Manuel dos Santos

As estatísticas podem permitir contar histórias cativantes?

Como as estatísticas falam sobre nós, e tudo o que fale sobre nós é sempre cativante, logo as estatísticas são cativantes. São essenciais para nos descobrirmos, para pensarmos pelas nossas cabeças de forma livre, e também para tomarmos decisões sustentadas.

Por exemplo, imaginando que um jovem precisa de tomar uma decisão se deve ou não interromper precocemente os seus estudos. Olhando para os factos, consegue concluir que o retorno do prolongamento dos estudos é muito superior ao que terá se desistir cedo de estudar, ou seja, que no caso português estudar compensa!

O que motivou o lançamento do projeto?

No passado não muito distante, muita gente em Portugal não sabia ler nem escrever, e vivia à mercê dos outros, do que os outros lhes diziam que era a mensagem que estava escrita. Viver à mercê dos outros é algo que nos limita seriamente em termos da nossa capacidade de sermos livres, de tomar decisões. Hoje já não basta saber ler e escrever. As estatísticas figuram também como o abecedário da era moderna. Por isso é preciso as pessoas conseguirem chegar aos dados e compreenderem a sua mensagem, para formarem as suas opiniões e decidirem de forma livre, pensando por si e não dependendo do que vai na cabeça de outros!

Tem sido nosso objetivo, no âmbito do projeto da Pordata, para além da preocupação em aproximar a informação dos cidadãos, contribuir para promover a literacia em estatísticas. Nesta época vamos tendo informação estatística com cada vez mais qualidade. Mas não basta ter dados de qualidade, é preciso conseguir chegar a eles de forma simples, e conseguir aproveitá-los da melhor forma, competência que não está tão desenvolvida na nossa sociedade como por vezes imaginamos.

Parece-lhe que é uma capacidade que deveria ser introduzida nos diferentes níveis de ensino?

O interesse por estes números deve ser cultivado desde o início das nossas vidas. As estatísticas não são um assunto para adultos, e é de pequenino que tudo começa. Temos uma obrigação enquanto sociedade de aproximar estes números especiais dos mais jovens e também das crianças. As crianças são muito curiosas em relação ao mundo em que vivem.

Nessa ótica a Pordata desenvolveu um projeto, o Pordata Kids, dirigido para crianças entre os oito e os 12 anos. Porquê os oito? Porque têm de saber ler e escrever, mas a partir daí é importante que as crianças comecem a interessar-se por estes números.

Este livro também é para quem não gosta de números?

Aquela afirmação bizarra: “Eu não gosto de números…” Isto é estranho. Como é que uma pessoa não gosta de números? Vive-se o dia-a-dia com números. Paga-se com números. Olha-se para o relógio e a hora está em números. Não nos apercebemos mas até para nos vestirmos no dia seguinte olhamos para o boletim meteorológico e a temperatura é dada em números.

"Quando alguém diz que não gosta de números está a negar a sua própria existência.”

Maria João Valente Rosa

Não nos apercebemos mas até para decidir o tipo de roupa que iremos usar tantas vezes recorremos às previsões da meteorologia sobre temperatura que é também expressa em números. No nosso quotidiano, vivemos rodeados de números. Eles são companheiros da nossa vida que já não dispensamos em muitas áreas. Por isso, não faz qualquer sentido afirmar que não gostamos deles.

Contudo, em relação a alguns números, como acontece com certos dados estatísticos, temos dificuldade de os perceber, embora sejam importantes. Aí a solução não é fugir deles, mas esforçarmo-nos por entender o que querem dizer. Este livro pode ser muito útil para o conseguirmos. Avança com alguns alertas e cuidados a ter, erros a evitar, ensina nalguns casos a fazer cálculos, mas é um livro constituído por 22 capítulos, que pode ser lido por partes, para que as pessoas passem a entender as estatísticas como grandes aliados deles próprios.

Tem tido feedback deste trabalho da comunidade jornalística ou de outros curiosos?

O feedback genericamente tem sido muito favorável. Este livro está disponível para download no site da Pordata e, de facto, nós temos tido muitos descarregamentos do livro.

Dos jornalistas temos tido um feedback muito favorável. O lançamento do livro foi no âmbito do Congresso Nacional de Jornalistas. Muitos profissionais têm contactado connosco a propósito deste livro, mas não têm sido só os jornalistas. Temos tido muito bom feedback das escolas, que começam a usar este livro — e não só de formação superior em Ciências da Comunicação mas também em outras áreas.

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