“Será um erro enorme reverter as reformas no mercado de trabalho”, avisa ex-chefe da missão do FMI em Portugalpremium

O primeiro rosto da troika em Portugal, período em que se fez a reforma da lei laboral, defende que as mudanças não devem ser revertidas. E acredita que o programa de ajustamento foi "bem-sucedido".

O Mr. Blue Eyes ("o senhor dos olhos azuis") regressou a Portugal para apresentar um paper sobre os desafios da economia europeia e aproveitou a vinda a Lisboa para deixar elogios, assim como avisos, a Portugal. Em entrevista ao ECO, Poul Thomsen, ex-chefe da missão do FMI em Portugal, defendeu a sua dama ao dizer que o programa de ajustamento foi "bem-sucedido", argumenta que Portugal fez melhor o trabalho de casa em comparação com outros países do Sul da Europa e considera que seria positivo um acordo entre o PS e o PSD após as eleições legislativas antecipadas de 30 de janeiro.

Tem dito que Portugal compara melhor do que outros países do Sul da Europa em termos económicos. Porquê?

Sim, em comparação com outros países, na perspetiva de que reduziram a dívida pública, mas não sei se o fizeram da forma correta. O que posso dizer é que, se olharmos para os países com elevada dívida -- Itália, Grécia, Espanha, Portugal e França --, todos, exceto Portugal, entraram na crise pandémica com uma dívida tão elevada quanto a que tinham quando saíram da crise do euro. Não fizeram quase nada entretanto para reduzir a dívida.

A crise dissipou-se e a confiança na economia portuguesa por parte dos credores foi restaurada. Isso atesta o sucesso. Sem dúvida que Portugal tem agora uma credibilidade internacional muito maior.

Poul Thomsen

Ex-chefe da missão do FMI em Portugal

A economia portuguesa está melhor protegida para enfrentar uma eventual nova crise do que quando chegou cá há uma década para negociar o programa de ajustamento?

Muito melhor. O programa [de ajustamento da troika] foi bem-sucedido, houve reformas estruturais importantes tanto no setor público como no privado, mas há muitos assuntos que ficaram por resolver, como noutras economias. O programa colocou Portugal numa situação em que, terminada a crise, registou um crescimento económico notável, em comparação com a década anterior à crise em que o crescimento foi anémico. E a dívida pública continuou a cair de forma sustentada. A crise dissipou-se e a confiança na economia portuguesa por parte dos credores foi restaurada. Isso atesta o sucesso. Sem dúvida que Portugal tem agora uma credibilidade internacional muito maior.

Que tipo de reformas tem na cabeça para países como Portugal?

Na frente estrutural, não há uma solução que encaixe em todos os países. Depende. Em Portugal, há setores como a energia em que não há concorrência suficiente e isso trava o potencial de crescimento. Olhando para o mercado de trabalho e a educação, ainda existe uma lacuna de conhecimento na força de trabalho. É preciso que haja melhor educação vocacional. Mas não sigo Portugal em detalhe, portanto não queria fazer mais comentários.

Uma das razões pelas quais o país enfrenta eleições antecipadas é a divergência entre o PS e a esquerda sobre a reversão das mudanças da troika na lei laboral. Uma eventual reversão seria um retrocesso?

Seria um erro enorme reverter as reformas no mercado de trabalho. Há pressões semelhantes em Espanha e na Grécia. As reformas do mercado de trabalho foram uma parte muito importante para tornar as economias mais flexíveis e mais adaptadas para viverem dentro de uma União Monetária [Zona Euro] e num mundo em mudança. Recuar nesse âmbito e ter mais rigidez no mercado de trabalho seria um erro sério.

Os políticos portugueses do mainstream perceberam que Portugal estava perto do abismo e que era a altura de deixarem de lutar entre si e unirem-se. Isso diz bastante da noção de interesse nacional.

Poul Thomsen

Ex-chefe da missão do FMI em Portugal

Existe atualmente especulação sobre se poderá haver um acordo entre os dois maiores partidos após as eleições. Seria positivo para Portugal e a economia ter um acordo semelhante ao que existiu na Alemanha entre a CDU (Angela Merkel) e o SPD (Olaf Scholz)?

Sim, se levar a reformas. Mas não tenho a certeza que tenha levado a reformas na Alemanha. Mas isto leva-me à razão mais importante pela qual o programa em Portugal foi bem sucedido: a elite política unificou-se à volta do programa. Um ano antes, tinha estado a negociar na Grécia e vi como o programa grego colapsou porque os dois partidos principais estavam a lutar entre si, de forma populista, mesmo com o país perto do abismo. Quando viemos para Portugal, a primeira coisa que dissemos ao Governo socialista é que queríamos também o acordo dos social-democratas. Eu tinha reuniões paralelas com os dois partidos e na última noite antes do acordo fizemos questão de ter a certeza de que havia consenso amplo. Isso significou que quando houve mudanças no Governo meses depois a implementação do programa continuou. Os políticos portugueses do mainstream perceberam que Portugal estava perto do abismo e que era a altura de deixarem de lutar entre si e unirem-se. Isso diz bastante da noção de interesse nacional. Espero que essa grande coligação que você referiu possa levar a reformas, mas não sei se levará.

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