“Vamos ter cada vez mais carreiras fluidas. Uma sucessão de projetos”

Paulo Soeiro Carvalho defende que formação contínua "vai ser como oxigénio", num futuro em que carreiras serão líquidas. "Vamos ter não empregos, mas quase que uma sucessão de projetos", prevê.

Um canalizador vai mesmo ganhar mais do que um programador, num mercado de trabalho transformado pela Inteligência Artificial (IA)? Paulo Soeiro Carvalho rejeita-o, mas admite que profissões como essa vão ser cada vez mais procuradas. Em entrevista ao ECO, o advisor do Fórum Económico Mundial atira ainda que as carreiras serão cada vez mais fluidas, com os empregos a serem substituídos por uma “sucessão de projetos e de iniciativas“.

Paulo Soeiro Carvalho é keynote speaker da conferência “Leader’s Agenda 2026 – Transformar o Trabalho: IA, Liderança e o Futuro do Trabalho Humano“, promovida esta terça-feira pelo Conselho Estratégico de Liderança da ISEG Alumni Económicas.

Com o ECO, falou sobre as profissões emergentes, o papel da formação contínua e ainda sobre a necessária reforma do sistema educativo. “Não só é fundamental, como vai ser uma inevitabilidade“, diz sobre este último ponto, defendendo um sistema onde os jovens possam conhecer-se a si mesmos, estimular a sua criatividade e espírito crítico, e adquirir ferramentas de empreendedorismo.

O Fórum Económico Mundial está a contar com a criação de 170 milhões de empregos nos próximos anos e com a destruição de cerca de 92 milhões de empregos. O resultado líquido será, portanto, positivo, mas isso exige a reconversão (e formação) dos trabalhadores. Está do lado dos otimistas ou dos que estão preocupados?

Não devemos estar de nenhum lado. Devemos estar preparados. Se expandirmos o campo dos possíveis sobre o futuro do trabalho – que empregos vamos ter –, acho que é possível identificar vários futuros possíveis. Num cenário de transformação disruptiva, à imagem do que aconteceu no passado, milhões de empregos podem ser destruídos e milhões criados. Sabemos, mais ou menos, quais são os empregos que poderão ser destruídos ou extintos. Tudo aquilo que é inteligência humana, no sentido cognitivo do termo, como cálculos e trabalho administrativo, vai ser ocupado por máquinas. Isso é uma inevitabilidade. A única coisa que não é inevitável é o ritmo a que isso vai acontecer.

Tudo aquilo que é inteligência humana, no sentido cognitivo do termo, como cálculos e trabalho administrativo, vai ser ocupado por máquinas. Isso é uma inevitabilidade.

E tem pistas sobre as novas funções que serão criadas, em contrapartida?

Nesse cenário, vamos ter outras funções a desempenhar que não são puramente de inteligência no espaço cognitivo. Quais são os espaços onde o humano é singular, é distintivo e pode ser relevante no futuro? Na consciência, num sentido muito amplo do termo. Quais vão ser esses novos empregos? Não sabemos, mas podemos e devemos explorar o futuro.

Mas que previsões tem, quanto aos novos empregos?

É muito difícil dizer quais são, porque ainda não emergiram. Se há 15 anos dissessem que, entre os empregos emergentes e muito significativos, estariam influenciadores e podcasters, não íamos conseguir compreender. Era difícil antecipar, mas hoje temos um conjunto muito significativo de pessoas que vivem e trabalham com base numa estrutura (as redes sociais) que veio com uma mudança tecnológica importante. Por cima desta revolução da Inteligência Artificial, há um conjunto de empregos que vão desaparecer. Tudo o que são call centers, atividades que manipulam dados e informação, contabilidade e atividades administrativas.

Paulo Soeiro Carvalho, Advisor do World Economic Forum, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Não sabendo, em concreto, que empregos surgirão, consegue, pelo menos, prever em que áreas vão aparecer novas funções?

Áreas que combinam a consciência humana – por exemplo, o pensamento crítico e a criatividade – e a inteligência artificial.

Há profissões mais “tradicionais” que estão a salvo?

Há um conjunto de empregos em que a presença física vai ser, durante algum tempo, insubstituível e uma mais-valia. Chegar ao extremo e dizer que nos devíamos formar para sermos canalizadores e eletricistas… É claro que os canalizadores, os eletricistas, os marceneiros… Essas profissões que tratam de coisas físicas e analógicas vão ser cada vez mais procuradas. Mas o cenário em que vamos precisar de milhões de canalizadores ou eletricistas não vai acontecer.

Ouviu-se em novembro na Web Summit que um canalizador vai ganhar mais do que um programador, no futuro do trabalho. Partilha dessa visão?

Não, acho que isso não faz muito sentido. Isso implicaria um movimento de investimento e de construção a um nível que nunca tivemos, pelo menos até agora. Aquilo que vai ser importante é formar profissionais para que o nosso stock, nomeadamente, habitacional, no caso dos canalizadores, possa ter manutenção. Mas o futuro não vai passar por essas atividades. As atividades económicas que vão crescer de uma forma muito significativa não vão ser essas. Serão as atividades que estão na confluência das redes neuronais, das novas tecnologias energéticas, da biotecnologia e da descentralização da economia.

Se este cenário levar a uma taxa de desemprego estrutural em torno dos 10, 15 ou 20%, a economia e a própria sociedade não serão sustentáveis.

Este é um cenário otimista. Mas há também especialistas que apontam para um futuro mais negro.

No cenário mais negativo, com todas estas mudanças e toda esta automatização de funções, teremos uma redução muito significativa daquilo a que chamamos human in the loop. Num país desenvolvido, o pleno emprego anda em torno dos 4 a 7%. Se este cenário levar a uma taxa de desemprego estrutural em torno dos 10, 15 ou 20%, a economia e a própria sociedade não serão sustentáveis. O nível de disrupção social, política, económica é de tal ordem, que é muito difícil sustentar a economia. Nesse caso, como é que vão ser desenhados os mecanismos de distribuição da criação de riqueza? Há vários canais.

Taxar os robôs tem sido uma das hipóteses mais discutidas.

E é aqui que entram também os modelos sobre os quais temos ouvido falar, como o rendimento básico incondicional. Vamos ter de rapidamente pensar na forma como é que todos poderemos ter um rendimento. Por outro lado, hoje a nossa identidade é muito definida pelo emprego. O que é que acontece nesse cenário de maior desemprego? Seria um grande desafio. Yuval Harari tem uma expressão que é um bocadinho forte: a classe dos inúteis. Passamos a ser irrelevantes em termos económicos.

Paulo Soeiro Carvalho, Advisor do World Economic Forum, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Em qualquer um dos cenários, há uma necessidade de reconversão dos trabalhadores, o que implica a formação. Em Portugal, os dados mostram que as empresas dão pouca formação contínua aos seus trabalhadores. Acha que isso é preocupante, tendo em conta o cenário de transformação que vivemos?

É muito preocupante. A formação contínua é relevante num mundo onde precisamos de uma aprendizagem contínua. A transformação muito significativa da forma como as nossas carreiras vão continuar a ser desenvolvidas não tem outra forma que não nos reinventarmos ao longo da nossa vida, e isso exige que tenhamos a capacidade de aprender continuamente. A formação contínua vai ser uma espécie de oxigénio. Nem devia ser uma questão. Outra questão é: quais são as competências e as capacidades que devemos ter no futuro?

Tem previsões?

Vamos ter cada vez mais aquilo a que vamos chamar carreiras fluidas e líquidas. Não vamos ter carreiras que demoram muito tempo. Cada vez mais, vamos ter não empregos, mas quase que uma sucessão de projetos e de iniciativas. Imagine que a Inteligência Artificial é um oceano. A primeira coisa que devemos fazer é não ter medo de surfar estas ondas. As pessoas que estão desatentas ou que são céticas… Esta atitude é muito perigosa.

Porquê?

Porque a Inteligência Artificial é como uma onda gigante, que vamos ter que surfar, explorar e experimentar.

E essas pessoas podem ser apanhadas tarde demais, é essa a sua previsão?

Exatamente. Como o ritmo destas tecnologias evolui a uma escala que é exponencial, no momento em que formos passivos, a distância a que vamos ficar da fronteira do conhecimento, da crista da onda vai ser muito rapidamente gigante.

Uma das coisas que vamos precisar e já podemos aprender é o espírito empreendedor. Um conjunto de princípios, conceitos e ferramentas que permitam a qualquer um de nós, se tivermos uma ideia, possamos transformar essa ideia em qualquer coisa.

Falou em carreiras mais fluidas. Num conjunto de projetos, em vez de uma carreira para a vida. O futuro ficará marcado por um agravamento da precariedade?

É possível que venham a ser carreiras precárias no sentido em que as pessoas podem não ter vínculos de longo prazo, mas a precariedade, no sentido negativo do termo, pode ser ultrapassada, se formos capazes de desenvolver políticas e modelos sociais que permitam limitar as externalidades negativas de uma realidade que vai ser diferente. Uma das coisas que vamos precisar e já podemos aprender é o espírito empreendedor. Um conjunto de princípios, conceitos e ferramentas que permitam a qualquer um de nós, se tivermos uma ideia, possamos transformar essa ideia em qualquer coisa.

Dizia há pouco que a formação contínua vai ser como oxigénio. A formação contínua exige, de alguma forma, investimento. Em Portugal, os rendimentos estão abaixo dos pares europeus. Isso coloca os profissionais portugueses em desvantagem, uma vez que, com menor rendimento, têm menor capacidade de investimento?

Qualquer país que faça um subinvestimento na formação profissional é um país que vai ter desvantagens competitivas. Se houver um benchmark e chegarmos à conclusão que o investimento que Portugal e as empresas fazem nos seus profissionais é inferior, isso é um mau sinal. Mas um sinal mais importante é perceber onde é que vamos investir em formação e educação. A formação e a educação ainda estão muito estruturadas em torno do conteúdo e do conhecimento formal. Devemos trabalhar a nossa mente e não apenas aquilo que já está estruturado nos nossos sistemas de educação e de formação.

Portanto, defende uma reforma urgente da educação para preparar a transformação do mundo do trabalho.

Não só é fundamental, como vai ser uma inevitabilidade. Podemos ser obrigados a isso e acabar a apagar fogos. Ou podemos trabalhar de forma mais antecipativa e sermos capazes de pensar o que é que pode acontecer e, no caso de algumas destas coisas acontecerem, o que é que podemos começar já a preparar.

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