Vítor Bento: “Taxa Robles” não vai reduzir a subida de preços dos imóveis

A especulação, referiu o presidente da SIBS, é um negócio, e o problema do aumento de preços dos imóveis jaz na pouca oferta para o aumento da procura, pelo que as soluções não devem passar por taxas.

O problema do aumento de preços nos imóveis não seria resolvido com uma solução como a proposta pelo Bloco de Esquerda de taxar as mais-valias, (taxa que foi apelidada pela direita de “Taxa Robles”), já que isso não resolveria a causa do problema, afirma Vítor Bento: o desfasamento entre a oferta e a procura no mercado imobiliário. Entrevistado no ECO 24, o presidente da SIBS e presidente do júri dos prémios IRGA, promovidos pela Deloitte, afirmou que em parte a vontade de taxar vem de uma “adversidade a quem ganha muito dinheiro”.

Questionado sobre a eficácia de uma taxa sobre as mais-valias no imobiliário como a que o Bloco de Esquerda tenciona propor, Vítor Bento afirmou que esta não resolve o problema. “Se o problema é o desfasamento entre a oferta e a procura”, que faz subir os preços dos imóveis, referiu, “tentar travar o preço só vai desincentivar o aumento da oferta. Portanto vai desencorajar o aumento da oferta e manter a pressão para a subida de preços. Parece-me contraproducente”, concluiu.

Vítor Bento afirmou mesmo que “toda a conversa que tem havido a volta das mais-valias, ou da especulação tem implícita a ideia da adversidade a quem ganha muito dinheiro”, e concluiu: “Não se gosta que haja quem ganhe muito dinheiro. Basicamente o problema é esse”.

Para o gestor, a subida dos preços não resulta necessariamente de especulação, mas sim de uma pressão da procura sobre a oferta. Para resolver esta pressão, deve haver aumentos na oferta ou diminuição na procura, disse, propondo, por exemplo, que talvez já não faça sentido continuar a oferecer benefícios fiscais aos pensionistas estrangeiros.

A procura, disse, é motivada em parte por aqueles que querem adquirir imóveis para apostar no boom do turismo e também por “estrangeiros que, graças também ao bónus fiscal que lhes é dado, vêm agora investir em Portugal”. Um caminho possível, assim, seria “diminuir a pressão da procura”, por exemplo sem dar incentivos aos estrangeiros para virem viver para Portugal. “Uma das coisas que é questionável é se vale a pena continuar a dar incentivos e diferenciação fiscal aos estrangeiros em detrimento dos portugueses que vivem cá e têm de sustentar os serviços que são criados e postos à disposição de todos”, afirmou.

O economista rejeitou, porém, a conotação negativa que é implícita na palavra “especulação” atualmente. “Do ponto de vista económico, a especulação não é uma coisa má, é uma atividade económica como outra qualquer que tenta equilibrar o mercado aproveitando imperfeições que o mercado tem, desajustamentos entre a procura e a oferta”, afirmou.

Vítor Bento foi o presidente do júri dos IRGA, os prémios promovidos pela Deloitte dos quais o ECO é um dos parceiros. Nesta entrevista, Bento reiterou esta quarta-feira que “não há nenhuma influência externa” na escolha dos vencedores e frisou que a atribuição de uma distinção “não é nenhuma garantia para o futuro”.

Vítor Bento lembrou que “a glória é efémera”, numa referência implícita a casos de premiados que, entretanto, foram apanhados em casos de justiça, como foi Ricardo Salgado. “As decisões são tomadas com base na informação disponível no momento em que as decisões são tomadas. E, obviamente, não é nenhuma garantia para o futuro. As pessoas são livres e são, naturalmente, complexas”, referiu.

O presidente do júri, escolhido pela Deloitte, indicou também que estes prémios visam “criar um estímulo para as boas práticas na relação entre as empresas e os financiadores e demais stakeholders”. “A forma de o fazer é, anualmente, premiar aqueles que mais se distinguiram nesse processo. A atribuição dos prémios é feita por um júri, que é sempre independente”, referiu.

  • Marta Santos Silva
  • Redatora
  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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