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Cultura empresarial. A cola que nos liga e dá propósitopremium

A importância da cultura empresarial nas marcas e a forma como os desafios podem ou não afetá-la são alguns dos aspetos que levam as organizações a comprometerem-se cada vez mais com os seus valores.

Todas as empresas nascem com um propósito, com a vontade de prestar um serviço, de apresentar novos produtos, ideias e combinações. Mas é o compromisso que assumem internamente, aliado aos serviços ou produtos que oferecem, que constrói a cultura empresarial: os valores que cada empresa, na sua origem, assume como intrínsecos à sua marca. E são esses valores que orientam as decisões que se tomam e o rumo que a instituição segue. É por eles e para eles que a marca trabalha e o que a distingue dos seus concorrentes no mercado.

Como se constrói uma cultura empresarial, como se transmite esses valores aos colaboradores num cenário de trabalho remoto, porque é importante as organizações terem um propósito? Estas são algumas das questões sobre as quais a Pessoas ouviu os representantes de várias empresas de áreas distintas da saúde ao desporto, passando pela tecnologia e recursos humanos.

No princípio é o propósito

“A definição do propósito da empresa é a peça essencial para a criação da cultura, principalmente porque a cultura vai sendo construída por todos à volta da visão, da missão e dos valores”, garante André Ribeiro Pires, chief operating officer (COO) da Multipessoal. Na recrutadora todos os trabalhos são importantes e cada pessoa é uma peça essencial do resultado final. “É neste conceito que a criação do propósito é alargada a cada função. Talvez seja a forma mais rápida e eficiente de encontrar motivação de indivíduos e de equipas para reinventar a forma de trabalhar.”

A definição do propósito da empresa é a peça essencial para a criação da cultura, principalmente porque a cultura vai sendo construída por todos à volta da visão, da missão e dos valores.

André Ribeiro Pires

COO da Multipessoal

Uma opinião partilhada por Filipa Ferreira. A senior director of people Portugal na Talkdesk, startup portuguesa dedicada à tecnologia, acredita que o propósito é a motivação necessária para “acordar todos os dias com vontade de fazer a diferença”.

A Talkdesk tem apostado, por isso, na construção de uma cultura magnética. “Nela, cada um sabe e sente verdadeiramente qual é o seu contributo, singular e diferenciador, para o todo da organização, quer no valor acrescentado que trazemos diariamente para os nossos clientes, quer na forma como construímos relações de trabalho saudáveis e frutíferas”, explica.

Há quem considere, no entanto, que é a cultura empresarial que traz propósito à organização e não o contrário. “A cultura suporta o desempenho da organização e das equipas, dando-lhe um propósito e uma direção, estrutura a forma como nos relacionamos. A cultura é vivida, não é imposta”, defende Susana Moreira da Silva, diretora de recursos humanos da Lusíadas Saúde.

Um dos princípios que fazem parte da cultura empresarial do grupo de saúde, que detém vários hospitais, é o Leadership Shadow, que se baseia no mantra “o que nós permitimos, nós promovemos”, assim como alguns protocolos, entre os quais, “assegurar que os telemóveis estão em silêncio nas reuniões e não haver atrasos nos inícios das reuniões”. A diretora de recursos humanos do grupo garante que é com base nestas “pequenas” regras que rumam a passos maiores, passos esses que dão propósito à empresa.

Os desafios da pandemia

Se os desafios põem à prova a capacidade das organizações de manterem a sua cultura, ao mesmo tempo que lutam para superar as dificuldades, nenhum teve a dimensão dos obstáculos colocados pela crise sanitária provocada pela Covid-19. “O cenário pandémico só veio mostrar como a nossa missão e os nossos valores são transformacionais e que apelam a que os colaboradores se adequem a diferentes contextos, inclusivamente adversos e imprevisíveis”, diz Susana Moreira da Silva.

O trabalho remoto passou a ser uma realidade para muitas companhias que tinham de assegurar que os laços de cultura empresarial não se perdiam com os colaboradores a trabalhar a partir de casa. “Esta nova forma de trabalhar exigiu um reforço na confiança dos colaboradores para que estes pudessem continuar a contribuir para a organização como um todo, assim como na identificação de soluções para novos desafios”, considera a diretora de recursos humanos da Lusíadas Saúde.

A pandemia levou a uma diversificação da organização de trabalho das empresas que, consoante a sua atividade, mantiveram os seus colaboradores a trabalhar de forma total ou parcialmente remota ou 100% presencial. “Em qualquer um destes casos há riscos e ações a ter em conta para garantir que a cultura empresarial é promovida. Numa organização que se quer cada vez mais humanizada é preciso garantir que a relação entre as chefias e as equipas é também ela humana e gratificante”, afirma André Ribeiro Pires.

Ainda assim, num cenário em que o trabalho seja maioritariamente remoto, o chief operating officer da Multipessoal refere que a maior dificuldade passa pela integração de novos elementos. “É preciso que o conhecimento sobre a organização, os valores e o seu propósito sejam acautelados desde o início de cada jornada, promovendo a relação de novos elementos com a restante organização, de forma que o propósito venha a ser cada vez mais adotado”, defende.

O teletrabalho só está a ser um desafio por ser uma novidade e estar numa fase de adaptação, acredita o responsável da Multipessoal. “Estes desafios são também eles temporais e suscetíveis de constante mudança, na medida em que a generalidade das empresas portuguesas não tinha o trabalho remoto como modelo normal ou consensual no dia a dia de trabalho e a evolução do modelo e desenvolvimento das lideranças irá acelerar a mitigação dos riscos inerentes a uma falha de aculturação empresarial.”

Na Talkdesk o remoto acabou por trazer algumas vantagens aos colaboradores. “Implementámos, neste contexto, novos benefícios como o acesso adicional a dias de descanso e o incentivo à atividade física, por exemplo”, especifica a senior director of people da empresa.

O anterior cargo de Filipa Ferreira – head of employee experience – foi criado no contexto pandémico e tem como objetivo trabalhar a experiência do colaborador em contexto full remote. “Criámos a função de head of employee experience, cientes de que era basilar a criação de uma estratégia global que acelerasse o desenho, criação e entrega de experiências diferenciadoras ao longo do ciclo de vida do colaborador, tornando o trabalho uma experiência mais valiosa, beneficiando tanto a nossa organização como cada colaborador na sua individualidade”, explica.

A base na criação de uma empresa tem que ser sólida e tem que haver um caminho, uma visão. Para atingir essa visão, ela tem de ser passada, sem nenhuma dúvida, aos nossos colaboradores, para que sejam o prolongamento dessa visão para os alunos.

Raul Dias

Fitness manager do Breakgym

Nascido em plena pandemia, para o Breakgym a adaptação ao teletrabalho foi imediata. Só que aqui eram os clientes que ficavam em casa e os profissionais de desporto continuavam a ir trabalhar para o ginásio, dando aulas de diferentes modalidades totalmente online, que tanto podiam ser em direto como gravadas.

“Através de plataformas digitais, como as redes sociais, criamos conteúdo com qualidade para continuarmos a estar presentes no dia a dia das pessoas. Apesar de ser desafiante fazer gravações e passar a energia sem ter a presença física dos nossos alunos, imaginar que, do outro lado do ecrã, eles continuam do nosso lado só nos dá a resiliência necessária para continuar a fazer melhor com um único propósito – eles”, afirma Raul Dias, fitness manager do Breakgym.

Quando as pessoas mudam, a cultura empresarial também tem de mudar?

E quando mudam as pessoas a cultura empresarial deve sofrer também alterações? As opiniões não são unânimes. Se há quem defenda que a cultura de uma empresa não pode mudar, independentemente do que possa vir a acontecer, pois são o valor absoluto da política da marca, também há quem considere que a mudança não só faz parte como é necessária, até pela adaptação a novas realidades.

Raul Dias está entre os que defendem a permanência da cultura empresarial: deve basear-se sempre nos mesmos princípios, que devem ser transmitidos de forma clara e objetiva, para que os objetivos se cumpram. “A base na criação de uma empresa tem que ser sólida e tem que haver um caminho, uma visão. Para atingir essa visão, ela tem de ser passada, sem nenhuma dúvida, aos nossos colaboradores, para que sejam o prolongamento dessa visão para os alunos”, diz o fitness manager do Breakgym. “O nosso maior propósito são as pessoas, fazer com que um espaço onde se faz exercício físico esteja associado à boa disposição e à criação de momentos libertadores da tensão do dia a dia”, afirma.

“A cultura não é estanque”, afirma, por seu turno, Susana Moreira da Silva, defendendo que não são as pessoas que provocam a mudança na cultura, mas sim a cultura que provoca mudanças nas pessoas. “Tal como um ser vivo que evolui, a mudança das pessoas faz parte dessa mesma evolução”, refere a diretora de recursos humanos da Lusíadas Saúde. “São essas mesmas pessoas, que vivem a cultura da empresa, integram e contribuem para a evolução de uma organização em constante transformação”.

Cultura não é escrever uma missão e ter valores espalhados na comunicação institucional. É necessário torná-la tangível.

Susana Moreira da Silva

Diretora de recursos humanos da Lusíadas Saúde

Workshops “facilitadores do experienciar da missão e valores da empresa, formação de embaixadores de cultura e consistência na comunicação interna” são algumas das apostas da Lusíadas Saúde para promover na prática a integração e a evolução da empresa e não deixar as ideias apenas no papel. “Cultura não é escrever uma missão e ter valores espalhados na comunicação institucional. É necessário torná-la tangível”, explica Susana Moreira da Silva.

A senior director of people Portugal da Talkdesk também acredita numa política de inclusão, que já faz parte do processo de recrutamento da empresa: “Recrutamos com esta ideia em mente, desde o princípio, o que faz da nossa cultura aberta à diversidade e, por consequência, adaptada por todos e também adaptável aos que cheguem.” O envolvimento das pessoas na cultura de inovação e na criatividade da empresa é para Filipa Ferreira fundamental, uma vez que através destes princípios reflete-se uma realidade na qual todas as pessoas importam e para a qual as suas opiniões contribuem muito. “Acreditamos nos benefícios da diversidade e apostamos na inclusão como reflexo da sociedade em que vivemos e para a qual queremos contribuir.”

Por isso, apesar de concordar com a inevitabilidade da mudança, a responsável da empresa de tecnologia deixa claro que há valores que, independentemente do que possa acontecer, não vão mudar. “A vontade de inovar, a confiança e transparência, o respeito pela diversidade, a solidariedade com a sociedade e o meio ambiente e o foco no serviço prestado ao cliente mantêm-se”, garante. “A mudança é intrínseca à nossa formação e à nossa história. Penso que é inevitável que quando existe mudança nas pessoas, a cultura empresarial seja também ela afetada”, reconhece, por sua vez, André Ribeiro Pires, da Multipessoal.

O chief operating officer da empresa de recursos humanos explica que o primeiro passo para a criação da cultura consiste em definir o objetivo que a organização pretende alcançar e perceber qual o caminho para lá chegar: “Saindo da versão mais holística desse objetivo, é preciso partir para a definição do papel individual de cada um, uma espécie de soletração, facilmente interpretada, onde cada elemento consegue compreender o propósito da sua tarefa.”

Acreditamos nos benefícios da diversidade e apostamos na inclusão como reflexo da sociedade em que vivemos e para a qual queremos contribuir.

Filipa Ferreira

Head of employee experience da Talkdesk

A visão de que é preciso mudar as pessoas para que a empresa possa alcançar um novo patamar na cultura é, por isso, “enganadora e perigosa”, segundo o COO da Multipessoal. “A cultura empresarial é um processo de melhoria contínua e evolutiva, que deve estar suportado naquele que é o maior ativo de todas as empresas: as pessoas.”

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