Do músico ao banqueiro, como estes portugueses avaliam o Estado da Nação

O Estado da Nação é debatido esta sexta-feira na Assembleia da República. O ECO foi ouvir as vozes para lá do Parlamento, da banca à música, passando pelo ambiente.

Esta sexta-feira é dia de discutir o Estado da Nação na Assembleia da República. O debate, que se alongará por quase quatro horas, contará também com a participação do Executivo de António Costa. Mas o que pensam os portugueses para lá das paredes de São Bento? O ECO foi questionar.

Num ano marcado pela pandemia de coronavírus e, consequentemente, pelas crescentes pressões sobre o serviço de saúde, pela escalada do desemprego e pela adaptação do ensino, que perspetiva de Portugal têm os médicos, os estudantes prestes a entrar no mercado de trabalho e os professores? E o que pensam os juízes e banqueiros do país, numa altura em que o caso BES marca a ordem do dia? Voltarão a ser os pensionistas “o amparo” dos filhos e netos em dificuldades? E na cultura, como se vive? O ECO quis ouvir as respostas diretamente da boca de quem sente na pele, todos os dias, estes desafios.

Mário Cordeiro, médico pediatra

Para Mário Cordeiro é preciso ter duas perspetivas do Estado da Nação: uma referente ao tempo pré-Covid e outra ao atual.

Antes da pandemia, Portugal era “uma nação que estava a dar sinais de alguma recuperação económica”, diz o médico pediatra, acrescentando: “Mesmo que possamos discutir alguns truques de engenharia que permitiram ‘cativar’ um défice com superavit“. O profissional lembra, ainda assim, que estavam a prevalecer “as dores dos banqueiros e do grande patronato, a eterna corrupção e alguma promiscuidade entre os poderes financeiro e político”.

A pandemia veio, contudo, abanar Portugal. E agora, “há uma Nação que pode e tem de ressurgir com força, vontade, determinação e saneamento do que ‘de podre existe no reino da Dinamarca’, que afinal é a República Portuguesa”, diz Mário Cordeiro. “Os recentes ‘casos’ que têm passado pela Justiça mostram alguma coisa boa”, acrescenta o médico.

Para Cordeiro, o país precisa, portanto, de um Governo forte e de uma oposição com igual força; precisa de debate a todos os níveis. “É este, para mim, o Estado da Nação: com muitas potencialidades, mas doente e com medo. Será que poderemos vencer o que muitos nos atribuíram como nosso fatal destino? (Ainda) acredito que sim”, remata.

Rui Cardoso, professor do 1º ciclo

Portugal vive hoje um momento de retrocesso, diz Rui Cardoso. “Retrocedemos a nível de emprego, do turismo, dos negócios”, sublinha o professor do 1º ciclo, que atira: “Não vemos uma luz ao fundo do túnel“. Para Cardoso, o país vive um ambiente de “pessimismo muito grande e de incerteza“, o que também está refletido no setor no qual trabalha, garante.

Na educação, o professor diz faltarem orientações sobre como deviam funcionar as escolas face à atual pandemia de coronavírus. O terceiro período do ano letivo que terminou há pouco ficou marcado por “desnorte e insegurança“, conta. “Deixaram-nos um bocado nas nossas próprias mãos”. E o ano que se segue? O Ministério de Tiago Brandão Rodrigues já deu algumas pistas e orientações, mas “são curtas” e proliferam, neste momento, as dificuldades, frisa Rui Cardoso.

Miguel Pinto, empresário

Para o diretor-geral da Continental Advanced Antenna Portugal, neste momento, o mais importante é “combater o mais rápido possível” o surto de Covid-19, uma vez que está a ter um forte impacto na economia nacional. “Depois é preciso sermos resilientes e apoiar as empresas”, acrescenta Miguel Pinto.

Para o responsável, o Estado precisa de dar a mão às empresas robustas e que têm futuro, de modo a que o país continue a ter “um tecido produtivo e uma base empresarial forte” ou os problemas económicos poderão ser ainda mais graves. “Sem empresas não existe economia e sem economia não se cria riqueza e não se vive bem”, salienta Miguel Pinto.

“As empresas têm que ser apoiadas agora. Não tenho dúvidas que vamos ter uma recessão grave a partir de setembro ou outubro, ou no pior cenário a partir de janeiro do próximo ano. Portanto, temos que ser resilientes”, remata o gestor.

Susana Peralta, economista

A economia portuguesa sofre hoje um estado de fragilidade histórico, avisa Susana Peralta. A economista e professora salienta, antes de mais, que fazer previsões, neste momento, não é fácil. “É como fazer mergulho em águas lamacentas”, diz.

Por outro lado, Peralta salienta: “Em Portugal não há grande capacidade para fazer face à crise, para ajudar as famílias e as empresas”. Tal resulta, afirma a economista, não só da escassez de recursos, mas tem também uma raiz política. A propósito, a economista critica a injeção de 1.200 milhões de euros na TAP, quando esse mesmo capital poderia ser dirigido para apoios “mais generosos às famílias”. “Na Alemanha, cada criança recebeu um cheque de 300 euros. Em Portugal, a resposta tem sido mais modesta“, detalha. A transferência da ajuda pública acontece, de resto, de forma pouco transparência, atira a especialista.

Susana Peralta confessa, tudo somado, que está pessimista e que não vê “uma linha condutora” para o futuro do país. O maior desafio? “Não deixar perder uma geração, todos os jovens que estão hoje em idade escolar”. Jovens esses que são, remata a economista, o futuro da economia e da sociedade.

Faria de Oliveira, banqueiro

Portugal enfrenta, neste momento, “um dos maiores desafios do século”, diz o presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB). “Recessões da dimensão que vamos ter não há memória de terem acontecido. O que é que vai representar? Só incertezas”, detalha Faria de Oliveira.

O banqueiro defende que a prioridade deve ser agora “aguentar o mais possível a economia”, apoiar as empresas viáveis e “ter um sistema bancário capaz de apoiar essa economia”.

“Precisamos de mais do que nunca do sistema bancário para recuperar a economia. Em Portugal, sempre houve exiguidade de capital e, no passado, foi o sistema bancário que sempre substituiu essa exiguidade de capital. Neste momento, estamos numa fase absolutamente única em que o futuro vai depender da nossa capacidade de apoiar a economia”, frisa o líder da APB.

Manuel Ramos Soares, juiz

“Vivemos tempos de incerteza na economia, na vida concreta das pessoas e das empresas e sobretudo na capacidade de tomar decisões e projetar políticas”, salienta o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses. Para Manuel Ramos Soares, o setor da justiça foi “eficaz” na reação imediata à crise pandémica, mas está agora a ser “lento e amador nas respostas” pós pandemia.

“Apesar da inevitável redução da atividade dos tribunais, o sistema não colapsou, como se temia no início. O teletrabalho, a desmaterialização dos processos, as diligências à distância e a disponibilidade das pessoas, permitiram evitar uma paralisia transversal da justiça. Porém, neste momento, o ponto crítico, para o qual tarda uma resposta consistente do Governo e dos Conselhos Superiores das magistraturas, é saber como e quando podemos recuperar da crise. Já devia estar feito o levantamento exato dos processos que ficaram para trás, a sua priorização em função da urgência social e económica, a calendarização da recuperação e a alocação dos meios humanos e logísticos extraordinários para a correr mais rapidamente a esses casos, sem perder de vista, também, o previsível aumento de novos processos no último trimestre deste ano, pelo menos nos tribunais de comércio, trabalho, execuções, e administrativos”, defende o juiz.

Manual Ramos Soares identifica ainda “dois gravíssimos estrangulamentos” do sistema de justiça: a “longa lista de espera” nos tribunais administrativos e fiscais e a “impossibilidade do sistema julgar em prazo razoável a grande criminalidade económico-financeira que envolve pessoas poderosas”.

A propósito desse último ponto, o juiz salienta: “É urgente encontrar soluções de maior eficácia para as mega-investigações criminais, que se transformam depois em hiper-instruções e hiper-julgamentos. Sob todos os pontos de vista, é inaceitável que alguém demore dez, 15 20 anos a ser condenado ou absolvido”.

Paula Nunes da Silva, ambientalista

A presidente da Quercus considera que Portugal vive hoje um “momento único” e acredita que a pandemia de coronavírus poderá ser um “marco importante” no tratamento das questões ambientais. Por exemplo, o consumidor “já começa a pensar na sua conduta diária e no porquê da sociedade ser tão consumista”, detalha Paula Nunes da Silva.

Segundo a ambientalista, ainda assim, há vários problemas para resolver no que ao ambiente diz respeito: as constantes descargas nos cursos de águas, a necessidade de apostar mais nos veículos elétricos, a urgência de utilizar mais materiais sustentáveis na construção, a necessidade de basear a agricultura em circuitos curtos e na pequena distribuição, a urgência de se usarem as leis de ordenamento de território para prevenir os incêndios e a necessidade de se concretizar a transição energética.

De resto, a participação na União Europeia sempre garantiu a Portugal, diz a líder da Quercus, apoio nas questões da sustentabilidade. Sobre o futuro, Paula Nunes da Silva diz que a sensibilização e a educação ambiental são muito importantes e acredita que será mais forte a aposta, por exemplo, na economia circular.

Pedro Abrunhosa, músico

Para Pedro Abrunhosa, a cultura vive, neste momento, “uma situação de calamidade”. O músico salienta que este setor está “profundamente ligado ao turismo”, estando, por isso, a sofrer com enorme intensidade os efeitos da pandemia de coronavírus. Acresce que, vivendo a cultura de “reunir multidões e vender bilhetes”, encontra-se agora em paragem total.

“É muito importante que seja dada atenção a esta faceta da economia”, frisa Pedro Abrunhosa. O artista alerta que o Ministério da Cultura está suborçamentado, havendo “algum desfasamento” para com o Ministério da Economia e o Ministério das Finanças. “Há trabalhadores, dezenas de milhares, a viver situações de miséria“, denuncia.

Pedro Abrunhosa apela a que o Governo apoie a cultura, dedicando uma fatia “avantajada” da ajuda conseguida em Bruxelas ao setor, já que este é também “fundamental para a recuperação económica do turismo”, área de grande relevância para as contas do país. Sobre o futuro, o músico atira: “Eu vejo o futuro como o triunfo da razão”. E acrescenta: “A cultura impede o pensamento emocional e não científico, a negação das ciências e da história”.

Beatriz Tacão, estudante universitária

Beatriz Tacão sente receio quanto ao seu futuro. É recém-licenciada e está a caminho do mestrado; Nos dias que correm, a perspetiva de entrar no mercado de trabalho está envolta em incerteza, numa altura em que a pandemia já atirou milhares de trabalhadores para o desemprego.

Este verão, Beatriz Tacão vai fazer um estágio, que já tinha marcado antes do surto de Covid-19 e cujo cancelamento chegou mesmo a recear. Apesar da crise pandémica, o estágio vai mesmo acontecer e a estudante sente que as empresas estão “a tentar ao máximo para que as coisas sejam realizadas”. “Apesar de as coisas estarem complicadas, sinto que as empresas estão a tentar”, diz.

Isabel Alves, mãe

Isabel Alves é mãe de um jovem e está preocupada com o futuro profissional da filha. “Os jovens não têm o devido valor no mercado de trabalho”, diz. “E isso compromete o futuro do país”, acrescenta, referindo que muitos são os trabalhadores que continuam na dependência da geração anterior — “porque não conseguiriam sobreviver de outra forma” –, o que ameaça a própria maturação desses jovens.

Preferia que os jovens já estivessem a caminhar com a sua total independência, que não têm porque o mercado de trabalho não valoriza. Na minha geração, não era assim”, lembra Isabel Alves. “Preocupa-me o que é que será este país daqui a 30 anos, com jovens que perderam a motivação. Não consigo projetar este país, é uma geração que está a ser maltratada em todos os aspetos”, remata.

Ângela Dias da Silva, aposentada

Portugal vive “uma das épocas mais complicadas”, em termos sociais, considera Ângela Dias da Silva. A aposentada conta que as pessoas mais idosas estão a sofrer não só por serem mais atingidas pelo vírus, mas também por estarem a ser obrigadas a um confinamento que resulta em solidão. “As pessoas sentem-se muito sozinhas e essa é uma das questões muito importantes”.

Em termos económicos, Dias da Silva antecipa que as pessoas mais idosas terão de voltar a ser “o amparo dos filhos e netos”, tendo gastos que não previam ter, face à escalada do desemprego. “Neste momento, é mais a preocupação com os filhos e netos. Ainda não estamos na fase de pensarmos que a reformas poderão vir a ser cortadas”, afirma.

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