Eles viajam pelo mundo, com o trabalho atráspremium

Montam o escritório em qualquer parte do mundo, bastando-lhes um portátil e uma boa ligação à internet. Viajam enquanto trabalham, não estão presos a um lugar, horário ou, muitas vezes, empregador.

Um contrato sem termo, uma boa remuneração, perspetivas de progressão de carreira e um aumento salarial à espreita. “Estás bem, estás mesmo como queres”, diziam os amigos de Tadeu Marques, engenheiro informático. E até estava. “Ganhava razoavelmente bem, tinha um contrato sólido e estavam até a pensar aumentar-me”, recorda. Não chegou para mantê-lo na empresa onde trabalhava, nem mesmo em Portugal. “Ao fim de seis meses, comecei a sentir-me enclausurado.”

A inquietude gera mudança e o passo seguinte para uma nova realidade, que ainda lhe era desconhecida, surgiu naturalmente. “Enquanto engenheiros informáticos, há muitas coisas que não sabemos e temos de procurar resposta através de pesquisas na internet e um dos sites que costumo usar com alguma frequência tem uma parte dedicada a propostas de trabalho. Comecei a explorar e vi que havia muitas ofertas remotas. Falei com os meus amigos que me disseram que estava maluco: ‘Isso é para pessoal que é mesmo muito bom, que sabe muito mais do que os outros, só assim conseguem trabalhos remotos.’ Na altura, apesar de considerar que eles eram muito melhores do que eu, houve qualquer coisa que não me fez sentido, pareceu-me que estavam ali certas crenças limitadoras.” Graças a essa intuição, Tadeu Marques hoje viaja de norte a sul de Portugal, já esteve na Madeira, está agora na Polónia, e já tem os olhos postos na Alemanha.

Sem uma casa fixa, mas com vários pousos pelo mundo. Sem horários certos, mas com tempo para tudo. Sem um escritório, mas com um portátil que permite montar o espaço de trabalho em qualquer lugar. Já nos anos 90 do século passado se falava em nomadismo digital, mas o desenvolvimento tecnológico recente, a crescente digitalização da economia e a transformação do trabalho à distância em algo mais mainstream tem dado outro ânimo a este modo de trabalho, que é mais um estilo de vida que não conhece amarras geográficas. Viajar enquanto se trabalha é a ideia-chave. E o trabalho remoto e a flexibilidade são conceitos fundamentais para tornar o sonho realidade.

Comecei a perceber que uma das coisas que me cansava era ir para a empresa. E, ao mesmo tempo, percebi que era mais produtivo quando estava a trabalhar remotamente. Fiz mesmo uma medição, através do Clockify (...) Percebi que andava a ir para o escritório para ‘encher chouriços’.

Tadeu Marques

No caso de Tadeu Marques, tornar-se nómada digital não foi, contudo, uma decisão do dia para a noite. Aconteceu naturalmente e com várias etapas pelo caminho. Voltando à altura em que se deparou com a possibilidade de trabalhar remotamente, o engenheiro informático começou a procurar oportunidades no mercado, até que recebeu uma proposta no LinkedIn de uma startup portuguesa. “Iam pagar-me menos, mas a proposta incluía a possibilidade de trabalhar remote”, conta. “Na altura pensei: ‘Se estiver lá seis meses, já posso colocar isso no currículo.’ É que, na época, as ofertas que ia vendo exigiam quase sempre experiência prévia a trabalhar remotamente”, esclarece.

Assim fez. Começou o novo trabalho, que, embora das 9H00 às 17H00, permitia-lhe desempenhar funções em modo remoto, como tanto desejava. Desejava... Mas acabava por passar grande parte do tempo no escritório. Ainda não tinha mudado o chip. Aliás, foi preciso ver dados concretos para isso acontecer. “Comecei a perceber que uma das coisas que me cansava era ir para a empresa. E, ao mesmo tempo, percebi que era mais produtivo quando estava a trabalhar remotamente. Fiz mesmo uma medição, através do Clockify. Sempre que estava a fazer uma determinada tarefa media as minhas horas. Ao fim de dois meses a fazer a mesma coisa, comecei a ter métricas suficientes para perceber como funciono. Percebi que andava a ir para o escritório para ‘encher chouriços’.”

Se, da primeira vez, a mudança de emprego baseou-se na vontade de ter a possibilidade de trabalhar remotamente, desta vez, o engenheiro estava disposto a abraçar o trabalho 100% remoto, aproximando-se cada vez mais do que viria a encontrar: o nomadismo digital. “Muita gente — e percebo — acredita que não é capaz, não sabe como fazê-lo ou, como o meu amigo me tinha dito, acredita que é só para os melhores. Mas, naquela altura, já sabia que era possível e que conseguia chegar lá.”

Em dezembro de 2019 despediu-se, passou ainda por uma outra companhia, onde podia trabalhar remotamente a partir do Porto, mas faltava-lhe algo. “Estava à vontade com viajar entre Lisboa e Porto, mas se eu quisesse ir para fora continuava bastante limitado. Percebi que para poder viajar e juntar algum dinheiro, algo que também é importante para mim, precisava de ganhar mais”, explica. Mais uma vez, não desistiu. Procurou e, de novo, um contacto através do LinkedIn chegou no momento certo. Um trabalho 100% remoto que lhe dava finalmente a possibilidade de viajar enquanto trabalhava, não fosse a pandemia estragar-lhe os planos. Embora para a grande maioria dos trabalhadores a Covid-19 tenha aberto portas a uma maior flexibilidade, para quem já trabalhava remotamente e, sobretudo, para os nómadas digitais, foi totalmente o oposto. “Era o contrário de remoto. Não tinha liberdade nenhuma, era obrigado a ficar em casa.”

Tadeu Marques, 31 anos, é engenheiro informático e nómada digital. Trabalha para uma empresa sediada no Reino Unido.

Assim que a pandemia deu sinais de tréguas e o processo de vacinação acelerou, Tadeu Marques decidiu que era altura de acertar no alvo. Marcou estadia de um mês e comprou os voos para a Madeira. O erro? Ter comprado logo o voo de volta. “A experiência que tive na Madeira foi mesmo life changing. Quando estava naquela empresa, eu era o único que me sentia isolado. No momento em que cheguei à Madeira, senti que estava a trabalhar e de férias também. É uma coisa incrível. A pior coisa que fiz foi ter comprado logo o bilhete de volta. Foi aí que percebi o que é ser nómada digital. Quando uma pessoa vai de férias uma ou duas semanas não tem tempo para se embrenhar naquele sítio e na sua cultura. Só na terceira semana é que eu comecei realmente a envolver-me e na quarta tinha o voo de volta. Adiei o voo duas vezes, até não dar mais”, conta. Lição aprendida, desta vez, para a Polónia, o nómada de 31 anos comprou apenas bilhete de ida. E ainda bem porque a ideia era ficar um mês e já lá vão dois.

Portugal, no mapa dos nómadas digitais

O Digital Nomads Madeira, um projeto de parceria entre o governo regional da Madeira e da Startup Madeira, nasceu na Ponta do Sol, no Funchal, com o objetivo de criar condições para atrair nómadas digitais de todo o mundo para o arquipélago, colmatando a quebra no turismo que a pandemia provocou e potenciando as vantagens da ilha. “O projeto foi um enorme sucesso, tivemos mais de 8.000 inscritos e mais de 3.000 pessoas na Madeira durante o projeto piloto, de fevereiro a junho, superando todas as expectativas”, adianta Gonçalo Hall, digital nomadism consultant da Startup Madeira. Mas, mais do que os números, o feedback foi muito positivo. “Quase toda a gente que esteve na Ponta do Sol quer voltar, estendeu a sua estadia por mais de um mês e encontrou uma comunidade forte, com mais de sete eventos por dia, fez amizades e divertiu-se. Neste momento, vários grupos que se conheceram na Madeira estão a viajar juntos na Grécia, Polónia e Espanha”, descreve o líder do projeto.

O objetivo, agora, é replicar o “enorme sucesso” da Ponta do Sol, que já tornou possível um “sonho antigo”: a abertura de um novo hub em Porto Santo. “A comunidade para nómadas digitais do Porto Santo vai incluir um espaço de cowork gratuito e eventos diários com um preço super especial no hotel Vila Baleira de 650/mês num single ou 800/mês se forem duas pessoas, num dos melhores hotéis de Porto Santo”, revela o consultor, o único português que consta da lista de “Remote Influencers of 2021”, publicada pela Remote.

Também os Açores e Cabo Verde estão a trabalhar com Gonçalo Hall para começarem projetos com o mesmo objetivo, juntando se à lista de regiões que já se deram conta que podem beneficiar com o acolhimento de nómadas digitais. Falta ainda encontrar formas de atraí-los. Na Grécia, por exemplo, foi aprovado um novo incentivo fiscal para estes profissionais, na Estónia foi criado um programa especial de autorizações de residência até um ano e na Alemanha vistos especiais.

Em Portugal, o assunto tem estado a ser discutido no âmbito do Livro Verde sobre o Futuro do Trabalho. O documento, que deverá servir de base às políticas públicas do futuro, deixa claro que o nomadismo digital pode realmente contribuir para dinamizar as economias, sobretudo porque estão em causa, normalmente, profissionais qualificados em áreas emergentes com independência financeira. E, embora ainda haja muitos desafios por resolver, nomeadamente no que diz respeito à regulação das relações laborais ou aos impostos, Portugal tem recebido cada vez mais trabalhadores remotos, tendo até sido eleito, pelo relatório “Expat Insider 2021”, que analisa as preferências dos profissionais que vivem num país estrangeiro, o quinto país de uma lista de 59 destinos. É, aliás, o único país europeu no Top 10 desse ranking.

Gergana Yordanova, 35 anos, contribui para colocar Portugal no mapa dos nómadas digitais. Nasceu e foi criada na capital da Bulgária, Sófia, e, tal como Tadeu Marques, foi preciso um emprego estável, no seu caso na IBM, para perceber que era tempo de dar uma volta de 180 graus à sua vida. Recuperou um sonho antigo: ser a sua própria chefe. “Em 2017 deixei o meu trabalho, decidi que era tempo de trabalhar para mim mesma. Hoje sou empreendedora digital, tenho um negócio próprio relacionado com aluguer de casas de férias na Grécia”, conta em conversa com a Pessoas. Há um mês em São Miguel, nos Açores, Gergana Yordanova confessa que está a gostar tanto que tenciona ficar, pelo menos, por mais um mês. Mas, recuando ao momento em que deu o salto para o nomadismo digital, a profissional recorda que começou a ser nómada digital dentro do seu próprio país.

Gergana Yordanova, 35 anos, deixou o trabalho na IBM para abrir o seu próprio negócio. É empreendedora e nómada digital.

“Nos primeiro anos — 2017, 2018 e metade de 2019 —, estava a trabalhar na Bulgária a partir de casa, por isso não me considerava nómada digital. Em 2019 comecei a explorar como poderia desempenhar as minhas funções a partir de diferentes localizações e comecei a trabalhar apenas com o meu laptop a partir de cidades diferentes. Procura novos sítios na Bulgária que tivessem boa internet e guesthouses”, diz. Desde aí, percorreu o seu país de norte a sul, passou pela Grécia e, agora, a paragem é em Portugal. Depois de 240 quilómetros do Caminho de Santiago de Compostela, a empreendedora decidiu “montar escritório” em terras lusas. “Tudo começou com o Caminho Português, que fiz em setembro deste ano. Não sei bem como, mas, durante o caminho, descobri este living coworking em São Miguel, onde estou agora, e decidi ficar um mês a trabalhar a partir daqui. O clima é super bom, ainda por cima, nesta altura, já está a começar o inverno na Bulgária.”

Comunidade, onde está a inspiração

Além da meteorologia, Gergana Yordanova sentiu-se atraída pelas pessoas — “amorosas” —, pela natureza e, claro, pela boa conexão de internet. “Também é muito importante para mim escolher países que façam parte da União Europeia porque preciso de ter chamadas gratuitas ou muito baratas”, salienta. Em Portugal, a empreendedora digital tem viajado sobretudo sozinha, mas também é costume viajar com amigos. Além disso, considera que encontrar e inserir-se em comunidades de nómadas digitais é fundamental para combater algum “isolamento” e para “sentir-se inspirada”.

Tudo começou com o Caminho Português, que fiz em setembro deste ano. Não sei bem como, mas, durante o caminho, descobri este living coworking em São Miguel, onde estou agora, e decidi ficar um mês a trabalhar a partir daqui. O clima é super bom, ainda por cima, nesta altura, já está a começar o inverno na Bulgária.

Gergana Yordanova

Inspirada foi precisamente como Raquel Silvestre se sentiu ao participar na Remote Tour Portugal, uma iniciativa da Remote Portugal, que reuniu dez pessoas que, trabalhando à distância, tiveram a possibilidade de viajar de norte a sul do país, durante um mês. “Foi uma coisa super espontânea que descobri à última hora, através de uma recomendação no Instagram. E acabou por ser um fator muito importante, que mudou bastante a minha vida”, conta a gestora de projetos. “Durante o dia cada um de nós trabalhava nas suas coisas e depois havia atividades fora do horário de trabalho”, conta. “Foi aí que começou a surgir o bichinho.”

A Remote Tour Portugal é uma experiência de trabalho remoto que assenta em três pilares: viajar, trabalhar e comunidade.

Depois de um trabalho na Bélgica, que lhe limitava as vindas a Portugal, Raquel Silvestre começou a pensar que poderia procurar uma oportunidade que lhe permitisse seguir o estilo de vida que tinha experimentado naquele mês. E encontrou, novamente, numa empresa belga. Agora, reparte o seu tempo entre a Bélgica e Portugal e, quando está em terras nacionais, percorre o país quase de lés a lés.

“Era um fator que perguntava sempre em qualquer entrevista. Queria poder ir a Portugal sem ter de tirar dias de férias, como acontecia antes”, recorda. Felizmente disseram que sim — “senão talvez tivesse continuado à procura” — e a gestora de projetos embarcou numa novo desafio profissional, em maio. “A minha residência fiscal é ainda na Bélgica, mas quando estou em Portugal aproveito para conhecer e trabalhar em várias cidades. Estou em Coimbra, onde tenho família, Figueira da Foz, onde tenho casa de férias, estive em Peniche com a Remote Portugal num encontro, em Lisboa... Acabo por ir a mais sítios.” E o “bichinho”, como lhe chamou, já a faz ter vontade de outros voos. “Estou a planear no início do ano ir a Bansko (Bulgária), para a estação de esqui.”

Se me tirassem isso [possibilidade de trabalhar remotamente], acho que até mudava de empresa, provavelmente até me despedia.

Raquel Silvestre

Raquel Silvestre, tal como Tadeu Marques, é uma trabalhadora por conta de outrém, algo que não é assim tão comum entre os nómadas digitais, habitualmente trabalhadores independentes ou freelancers, tendo até vários clientes, e utilizando o regime de recibos verdes como forma de pagamento. Mas enquanto o engenheiro informático tem um trabalho 100% remoto, Raquel confessa que ainda não deu o salto final, uma vez que tem de ir de tanto em tanto à empresa, na Bélgica. Espera ansiosa pelas novas regras da organização, assim que a pandemia der tréguas, e admite que já não podia viver sem a flexibilidade que tem neste momento. “Se me tirassem isso, acho que até mudava de empresa, provavelmente até me despedia. Mas ainda está por decidir.”

Olhando para Portugal, e ainda que considere que começam a haver cada vez mais oportunidades, a gestora de projetos de 27 anos considera que “ainda há um grande caminho a percorrer”. Recorda que quando procurou trabalho remoto encontrava sobretudo oportunidades nos EUA, a nacionalidade de metade dos nómadas digitais, seguindo-se o Reino Unido (14%) e a Rússia (5%), segundo os dados do “The 2021 State of Digital Nomads”. Por outro lado, Raquel Silvestre conta que encontrava vagas remotas mas só por causa da pandemia. “Podia ser bom, mas era enganador”, afirma.

Raquel Silvestre reparte o seu tempo entre a Bélgica e Portugal e, quando está em terras nacionais, percorre o país quase de lés a lés.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos