No barco, em casa ou numa vila com outros nómadas. “Podemos trabalhar remotamente, e funciona”premium

Trabalhar, ser produtivo e estabelecer uma relação com as pessoas não depende de escritórios físicos. O escritório pode ser virtual, em alto mar ou levado às costas numa mochila pelo mundo.

A Atlantic Nova Iorque quer ter um barco atracado em pleno Atlântico a servir de âncora para os criativos espalhados pelo mundo da agência de publicidade. A WEBrand usa o Slack como “escritório virtual”. A Digital Nomad Village recebe nómadas digitais de todo o mundo que trabalham enquanto viajam.

Empresas distintas mas com pontos comuns: o trabalho remoto, a flexibilidade e a vontade de fazer com que estes modelos de trabalho vinguem e permaneçam no mercado, mesmo depois da pandemia, crise sanitária que acelerou a transformação do mundo do trabalho tal como o conhecíamos.

“Foi a pandemia que nos ajudou a criar a empresa. Talvez por isso começámos a Atlantic tão facilmente, sem escritório físico, sem tantos custos associados...”, diz João Coutinho, cofundador da agência Atlantic Nova Iorque. “A única coisa boa da pandemia foi provar que podemos trabalhar remotamente, e funciona”, acrescenta. Criada no ano passado, em plena pandemia, a Atlantic Nova Iorque trabalha de forma totalmente remota desde o primeiro dia, com profissionais em todas as partes do mundo. Ter um escritório tem algumas vantagens, admitem os responsáveis da agência criativa.

Desde logo a possibilidade de oferecer aos colaboradores que prefiram trabalhar no local de trabalho um sítio com as condições necessárias para que exerçam as suas funções. Poder escolher é, para a empresa recém-criada, a verdadeira flexibilidade. Mas alugar um escritório por largos meses ou anos não está nos planos da empresa fundada por João Coutinho e Marco Pupo. Em vez disso, estão à procura de um barco. Não para velejar, mas para ser o escritório da Atlantic (fazendo jus ao seu nome), pelo menos durante os meses do verão. “Queremos ter um lugar onde nos possamos encontrar quando quisermos e onde possamos receber os clientes. Agora estamos à procura de um barco para o verão, no inverno pensamos noutro escritório”, diz João Coutinho, em conversa com a Pessoas.

Queremos ter um lugar onde nos possamos encontrar quando quisermos e onde possamos receber os clientes. Agora estamos à procura de um barco para o verão, no inverno pensamos noutro escritório.

João Coutinho

Cofundador da agência Atlantic Nova Iorque

Tornar o local de trabalho ambulante, inesperado e original é, também, uma forma de garantir o ambiente de criatividade na empresa. Para Marco Pupo, cofundador da Atlantic, encontrar as soluções de que a agência precisa, e à sua medida, é o mais importante. “Ainda não chegámos a grandes conclusões quanto ao nosso futuro modelo de escritório. Agora é hora de experimentar, e é o que estamos a fazer. A última coisa que queremos é voltar aos modelos que tínhamos antes da pandemia”, considera o criativo durante vários anos ligado a grandes networks de grupos de comunicação como a Ogilvy & Mather de São Paulo ou a Grey de Nova Iorque.

Fim do teletrabalho? Vários profissionais preferiam demitir-se

Para o nómada digital Gonçalo Hall, o trabalho remoto era já uma realidade muito antes da Covid-19 levar os trabalhadores em massa a recolher a casa. A diferença é que, se antes o seu modo de trabalho era ainda, sobretudo em Portugal, um pouco invulgar, agora começa a ganhar mais adeptos. E veio para ficar. Mesmo as empresas tradicionais terão de se adaptar a esta nova realidade, considera o digital nomadism consultant da Startup Madeira. Uma visão que está a ganhar força na Madeira onde através da Digital Nomads Madeira - uma parceria entre a Startup Madeira e o Governo regional - está a nascer na Ponta do Sol, a primeira vila do mundo para acolher empreendedores digitais, oferecendo as condições necessárias para atrair nómadas digitais da aldeia global para trabalharem e conhecerem o arquipélago.

“As empresas tradicionais têm de se adaptar, não porque é uma tendência, mas por uma questão de sobrevivência. Quando a maioria dos melhores profissionais do mercado quer a flexibilidade no trabalho e admite que não irá hesitar em trocar de emprego para ter acesso à possibilidade de trabalho remoto, podemos concluir que quem não oferecer esta flexibilidade irá perder os melhores recursos humanos para empresas que o fazem. Com uma agravante: muitas dessas empresas contratam a nível mundial e, por isso, poderão oferecer salários mais elevados”, justifica o nómada digital.

Estudos recentes corroboram esta visão de Gonçalo Hall sobre o futuro do trabalho. Muitos profissionais, pelo menos nos Estados Unidos, admitem demitir-se caso não lhes seja dada a possibilidade de trabalhar remotamente. Um inquérito, realizado em maio junto a mil adultos americanos, mostrou que 39% consideraram demitir-se caso os seus empregadores não fossem flexíveis em relação ao trabalho à distância. E entre os millennials (nascidos entre 1980 e 1994) e a geração Z (1995-2010), a percentagem aumenta para 49%, de acordo com os dados da Morning Consult, citados pela agência Bloomberg.

E na Madeira essa reação adversa dos colaboradores ao regresso ao escritório está a dar sinais. O projeto na Ponta do Sol - estendido por mais três anos, até 2024, e alargado a outros concelhos da ilha da Madeira e Porto Santo - recebeu cerca de mil nómadas digitais em maio, entre os quais 50% empregados, 30% empreendedores e 20% freelancers. Muitos dos profissionais na ilha “já estão a fazer entrevistas com outras empresas após o anúncio do seu empregador que têm de regressar à base no outono”, adianta Gonçalo Hall.

Quando a maioria dos melhores profissionais do mercado quer a flexibilidade no trabalho e admite que não irá hesitar em trocar de emprego para ter acesso à possibilidade de trabalho remoto, podemos concluir que quem não oferecer esta flexibilidade irá perder os melhores recursos humanos para empresas que o fazem.

Gonçalo Hall

Digital nomadism consultant da Startup Madeira

“As empresas tradicionais, e não só, têm de educar os seus gestores e colaboradores para esta nova forma de trabalhar. Mas, antes, precisam de ajustar os seus processos a um modelo híbrido, que é muito mais desafiante de gerir por abarcar duas experiências, dois tipos de benefícios, de contratos e por aí fora”, reforça o digital nomadism consultant da Startup Madeira.

100% remoto. As regras de ouro para que o modelo funcione

Para a WEBrand, o teletrabalho está no seu ADN. A agência de marketing digital nasceu totalmente remota, ainda antes da pandemia, e até agora, a distância física nunca foi um problema, considera o fundador Henrique Paranhos. O Slack é o ponto de encontro de toda a equipa: “É o nosso escritório virtual, onde nos encontramos todos os dias para comunicar e trabalhar em equipa. É uma parte fundamental da nossa comunicação interna e de organização enquanto agência.”

Através desta plataforma, a equipa tenta “replicar” toda a experiência social, humana e de convívio que teria num escritório físico. “Todos os dias nos cumprimentamos, despedimos, partilhamos piadas, curiosidades, aprendizagens...”, refere o fundador da WEBrand.

Quando é preciso reunir, debater temas em grupo ou trocar ideias – o que tem sido apontado por alguns especialistas e líderes como o novo trabalho a realizar no escritório – o recurso utilizado pela empresa são as videochamadas. “Já estamos tão habituados a brainstormings e momentos de criatividade coletivos por vídeo que isto já nem é tema para nós. A criatividade não depende de um lugar ou da presença física”, afirma Henrique Paranhos. “Reunir sempre que possível e comunicar muito” são regras de ouro para que o trabalho remoto funcione, defende o fundador da agência de marketing. “O trabalho de cada um só é solitário se o colaborador assim o quiser, pois cada um gere a forma como prefere trabalhar. O segredo, que descobrimos pela nossa própria experiência de três anos de trabalho remoto, é a gestão de expectativas. Saber gerir as expectativas de todos os envolvidos no nosso trabalho diário: colegas, clientes, equipa, chefia”, remata.

O trabalho de cada um só é solitário se o colaborador assim o quiser, pois cada um gere a forma como prefere trabalhar. O segredo, que descobrimos pela nossa própria experiência de três anos de trabalho remoto, é a gestão de expectativas.

Henrique Paranhos

Fundador da WEBrand

Para a Atlantic, trabalhar à distância também não tem sido um problema. E só há uma regra: “Queremos que as pessoas trabalhem de onde quiserem, seja de casa, do campo, da praia. A única coisa que pedimos é que trabalhem no fuso horário de Nova Iorque”, diz João Coutinho, justificando que tal medida serve para facilitar a comunicação entre as equipas e garantir que todas estão disponíveis num certo período de tempo. Já a chave para o sucesso, o criativo acredita que está no recrutamento. Seguindo o lema “máxima liberdade, máxima responsabilidade”, a empresa vai contratando conforme os projetos que têm em mãos, e vai a todas as partes do globo. “A escolha das pessoas é crucial. Gostamos de saber com quem estamos a trabalhar, por isso, privilegiamos pessoas com quem já tenhamos trabalhado ou pessoas de quem tenhamos referências muito boas”, conta João Coutinho. Para o cofundador Marco Pupo, é isso que define a qualidade do trabalho. “Se confia na pessoa, não é preciso sequer controlar. As pessoas são super responsáveis, apenas precisam de alguma direção para o trabalho em si.”

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