Evergrande: Porque é que esta gigante chinesa está a agitar as bolsas?premium

Gigante chinesa do imobiliário esteve a afundar quase 12%, arrastando consigo a maioria das bolsas mundiais. Afinal, o que faz e o que se passa com esta empresa?

Os ânimos estão um pouco mais calmos, mas os efeitos continuam a ser sentidos. Os últimos dias têm sido marcados por perdas acentuadas em todas as bolsas mundiais e a explicação está na China, mais concretamente no setor imobiliário. A gigante chinesa Evergrande chegou a perder quase 12% na última semana e tudo devido à crise de liquidez em que se vê envolvida, com os credores a reclamarem cerca de 260 mil milhões de euros. Esta quarta-feira já começou a recuperar, depois de anunciar ter chegado a um acordo. Entenda o que faz e o que se passa com esta empresa.

Desde o dia 13 de setembro, as ações da Evergrande têm desvalorizado mais de 7% em bolsa, tendo chegado a cair mais de 10% ontem, cotando nos 2,28 dólares. É o valor mais baixo de sempre desde que a empresa está cotada. Ontem recuperou, desvalorizando menos de 0,5%. Mas só na última semana, os títulos acumulam uma perda de 33%. Vale mais de 30 mil milhões de dólares.

Arrastados por estas quedas foram vários índices, desde a China aos Estados Unidos e até Portugal. Isto porque os investidores receiam que haja uma crise semelhante à do Lehman Brothers, em 2008. Mas, afinal, o que se passa com esta gigante do imobiliário com base em Shenzhen? E porque é que tem tanta influência nos mercados mundiais? Se a empresa colapsar, uma coisa é certa: os efeitos serão sentidos em toda a economia mundial.

Desempenho das ações da Evergrande nos últimos três meses.Fonte: Reuters

Comecemos pelo início. A Evergrande Real Estate, também conhecida como Heng da Group, é uma empresa do setor imobiliário, fundada em 1996 por Xu Jiayin, um dos homens mais ricos da China, com uma fortuna avaliada em cerca de 10,6 mil milhões de dólares, de acordo com a Forbes. Com mais de 1.300 projetos de construção, espalhados por mais de 280 cidades chinesas, é atualmente a segunda maior promotora imobiliária da China. Além disso, é também proprietária do Guangzhou Evergrande Football Club, o maior clube de futebol do país.

A justificação para este desempenho da empresa em bolsa são as elevadas dívidas que tem vindo a acumular. Os problemas começaram após vários anos de uma expansão desenfreada, diz o The Guardian (conteúdo em inglês), período durante o qual as dívidas se foram acumulando. Agora, são mais de 300 mil milhões de dólares (255,7 mil milhões de euros) para pagar aos credores. Há analistas que afirmam mesmo que a Evergrande, que beneficiou milhares de milhões com o boom imobiliário, é hoje a promotora imobiliária mais endividada do mundo.

Além disso, a empresa alega também que enfrenta os "obstáculos" criados pelo Governo chinês para dificultar os pedidos de empréstimos para certas empresas.

Tensões aumentaram com credores a reclamarem dívidas

No início do ano, com a situação financeira a começar a apertar realmente, a Evergrande recorreu aos próprios funcionários, afirmando que aqueles que quisessem continuar a receber os bónus, teriam de conceder à empresa um empréstimo de curto prazo, escreve o The New York Times (conteúdo em inglês). Houve quem pedisse a amigos e familiares para também emprestarem dinheiro à empresa, enquanto outros recorreram à banca.

Mas a "bomba" explodiu este mês, quando a Evergrande deixou repentinamente de reembolsar estes empréstimos, que previam altos juros. Então, na semana passada, após vários rumores de que a empresa poderia entrar em falência, as tensões começaram, com os credores a reclamarem as dívidas. Os escritórios da empresa em várias cidades chinesas foram invadidos por investidores e fornecedores em protesto, que exigiam o reembolso de empréstimos e produtos financeiros.

"Não nos resta muito tempo", diz Jin Cheng, em declarações ao New York Times. Este funcionário de 28 anos, da cidade de Hefei, diz ter aplicado 62 mil dólares (52,9 mil euros) na Evergrande Wealth, o braço de investimento da empresa, a pedido da própria administração. Jin Chend referiu ainda que os funcionários da Fangchebao, a plataforma online da Evergrande para vendas de imóveis e automóveis, foram informados de que cada departamento teria de investir mensalmente na Evergrande Wealth.

Perante estas revoltas, e com vários processos judiciais interpostos por credores, a empresa chegou até a oferecer alguns imóveis como forma de pagamento das dívidas, em vez de reembolsos em dinheiro. Mas os investidores recusaram.

Até hoje, a Evergrande não se tinha pronunciado oficialmente, mas recentemente já tinha alertado para a "tremenda" pressão financeira por que estava a passar, afirmando que já tinha contratado especialistas em reestruturação de empresas para ajudarem a determinar o seu futuro.

As esperanças estão também depositadas no Governo chinês, com os investidores à espera para saberem se Pequim vai intervir nesta situação. Mas, aqui, põe-se o dilema: se o Governo intervir, que mensagem será passada para outras empresas altamente endividadas? Se não intervir, as consequências podem espalhar-se para outros setores da economia.

À Lusa, o economista João Moreira Rato disse acreditar que o Estado chinês "estará pronto para lidar com o problema", rejeitando "grandes razões para alarmismos". "Acho que isto tem a ver com medidas que o Estado chinês tomou no verão, que visavam, de alguma forma, regulamentar o grau de alavancagem destas empresas imobiliárias, de alguma forma para proteger o retalho chinês e a população em geral destas tendências especulativas".

Primeiro acordo alcançado, mas risco de falência continua alto

Esta quarta-feira, a empresa anunciou ter chegado a um acordo com uma das suas filiais, Hengda Real Estate, para um plano de pagamento de juros sobre uma obrigação com vencimento em 2025. Segundo a Bloomberg, a imobiliária reembolsaria 232 milhões de yuan (30,5 milhões de euros) da dívida devida sobre a obrigação de 5,8%, que se destina ao mercado obrigacionista doméstico.

Mas os problemas estão longe de estarem resolvidos devido ao montante total da dívida. Isto porque cerca de 83,5 mil milhões de dólares (71,2 mil milhões de euros) em reembolsos são devidos hoje e a Evergrande ainda não anunciou como planeia cumpri-los.

Contudo, num esforço para tranquilizar os investidores, o Banco da China injetou 90 mil milhões de yuans (11,9 mil milhões de euros) no sistema bancário, dando aos mercados um sinal de confiança, enquanto se preparavam para aquela que deverá ser uma das maiores reestruturações de dívida da história da China, escreve a Reuters (conteúdo em inglês).

Esta notícia e ainda a promessa do presidente Hui Ka Yuan, de que a Evergrande "sairia do seu momento mais sombrio" animaram um pouco os investidores e isso refletiu-se nos mercados. As ações da empresa estão a cair apenas 0,44% para 2,27 dólares.

"Estes acontecimentos parecem sugerir que a empresa está a assumir o controlo da situação e a fazer os possíveis para encontrar uma solução com os credores", disse Dexter Tan, analista sénior da Bondsupermart.com, citado pela Reuters. "Não temos uma imagem mais clara de como a Evergrande vai liquidar estas dívidas. Não parece que seja em dinheiro", refere Chuanyo Zhou, analista de crédito da Lucror Analytics.

Ainda assim, um cenário de falência não está, de todo, posto de parte. Alguns analistas temem que se dê um colapso semelhante ao do Lehman Brothers, que provocou a crise financeira em 2008. Isto porque dos 305 mil milhões de dólares (260 mil milhões de euros) em dívidas pendentes, apenas cerca de 20 mil milhões de dólares (17 mil milhões de euros) são devidas no estrangeiro, de acordo com dados do Refinitiv. Com isto, o risco de falência continua alto, especialmente se os credores estiverem menos dispostos do que os da China a fechar negócios.

Além disso, estima-se que a Evergrande também deva dinheiro a cerca de 171 bancos chineses e 121 outras empresas financeiras. Portanto, se o incumprimento foi total, haverá consequências para o sistema bancário, podendo haver uma crise de crédito, o que seria uma má notícia para a China e para toda a economia mundial, diz o The Guardian.

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