O legado de luz e sombras de Angela Merkelpremium

Foi um farol de estabilidade e coesão para Alemanha e o euro, mas a falta de uma visão estratégica para o país e a UE contribuíram para o seu atraso. Deixa um vazio. O tempo dirá se também saudades.

Angela Merkel vai, muito provavelmente, ultrapassar os 16 anos e 26 dias de Helmut Kholl e tornar-se a chefe de Governo que mais tempo liderou a Alemanha desde os tempos de Otto von Bismark. No dia 22 de novembro vai completar 16 anos como chanceler e a generalidade dos analistas políticos prevê que permaneça no Reichstag por mais alguns meses, até que dos resultados das eleições deste domingo saia um acordo de coligação. Há uma geração inteira de alemães que nunca conheceu outra cara à frente do país. Que legado lhes deixa?

Uma economia mais pujante, que se tornou o grande motor da União Europeia (UE). É uma das marcas apontadas pelos especialistas ouvidos pelo ECO. "Quando Angela Merkel se tornou chanceler em 2005, a Alemanha tinha cinco milhões de desempregados, uma dívida pública crescente e crescimento lento. Nos 16 anos seguintes, o crescimento económico da Alemanha foi muito melhor e o desemprego hoje é de apenas 2,5 milhões", destaca Clemens Fuest, presidente do Ifo Institute.

"A Alemanha apresentou taxas de crescimento muito baixas após a reunificação. Na primeira década do século XXI, foi a par da Itália e de Portugal, o país com pior desempenho económico. Depois da crise financeira, iniciou-se um período de maior crescimento e a última década foi bastante pujante", afirma Fernando Alexandre, professor de economia da Universidade do Minho, assinalando que Gerhard Shroeder, o chanceler que a antecedeu, do Partido Social-Democrata (SPD), "implementou uma série de políticas liberalizantes que deram os seus frutos".

Foi, no entanto, com Merkel que o país se afirmou "como potência industrial e grande nação exportadora da Europa", realça. "Foi o país dentro da EU que mais beneficiou com a adesão da China à Organização Mundial do Comércio e ao contrário dos EUA ganhou claramente com essa relação", aponta Fernando Alexandre. "A nova “Rota da Seda” da China termina na cidade alemã de Duisburg. Há comboios rápidos de mercadorias que ligam a cidade à China, devido à importância das relações comercias entre os dois países. Essa relação foi muito impulsionada por Angela Merkel, que visitou Pequim quase todos os anos. Isso foi muito importante para a indústria alemã".

Para o professor de economia da Universidade do Minho, o principal legado económico da chanceler é, no entanto, "a forma como Angela Merkel geriu as crises graves que aconteceram durante os últimos 16 anos, quer internamente quer na União Europeia".

Ela conduziu a Alemanha através de duas grandes crises económicas, a crise financeira e a crise da covid-19, e em ambos os casos o país saiu-se relativamente bem.

Clemens Fuest

Presidente do Ifo Institut

Um facto destacado também por Clemens Fuest. "Ela conduziu a Alemanha através de duas grandes crises económicas, a crise financeira e a crise da Covid-19, e em ambos os casos o país saiu-se relativamente bem. A sua política orçamental levou à redução da dívida e dos défices públicos e contribuiu para a resiliência do país em ambas as crises", destaca o presidente do Ifo Institut, o think-tank de economia sedeado em Munique, apontando a importância das reformas tributárias e do mercado de trabalho, iniciadas pelo governo anterior e continuadas por Merkel durante os primeiros anos como chefe de governo.

Mónica Dias, professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, afirma que "os alemães gostam muito de Angela Merkel, até lhe chamam Mutti (mãezinha), porque ela representa estabilidade, pragmatismo e rigor". Mas contrapõe que "essas virtudes da estabilidade e do pragmatismo também se transformaram em vícios. Angela Merkel não introduziu garra e uma nova visão para a Alemanha", aponta. E dá como exemplo a transformação digital, onde "a Alemanha está muito atrasada, mais até que Portugal. O país ficou para trás". Vê a mesma reação tardia no tema das alterações climáticas e da transição energética, muito popular entre os jovens e que Os Verdes têm capitalizado melhor. E lembra que tem sido criticada pelo aumento da desigualdade e a pobreza infantil que ainda persiste no país.

Clemens Fuest, economista alemão e presidente do Ifo InstitutEPA/FELIPE TRUEBA 18 Fevereiro 2019

"Angela Merkel carecia de visão estratégica: subestimou o poder do cargo para formar a opinião pública e usar a chancelaria para mudar os termos do debate", acrescenta Rafael Loss, coordenador de projetos de dados pan-europeus do European Council on Foreign Relations.

"Depois de 2010, as reformas económicas para aumentar a produtividade e competitividade na Alemanha desaceleraram e o governo concentrou-se cada vez mais na expansão do estado social. Uma política energética mal orientada, uma burocracia crescente e a falta de digitalização no setor público são um fardo para o futuro", afirma Clemens Fuest, apontando um "legado com luz e sombras". O presidente do Ifo Institut dá como exemplo "o fim da energia nuclear na Alemanha, apesar do facto de ela ajudar na redução das emissões de CO2". Uma decisão, tomada após o rebentamento da central japonesa de Fukushima, em 2011, que para Mónica Dias fica como uma das mais emblemáticas da sua governação. O país deverá desligar a última central no final de 2022.

A força do "wir schaffen das"

Johannes Greubel, analista político do European Policy Centre, prefere salientar a capacidade para "mudar de rumo ou ir contra as posições do seu partido, se perceber que o público deseja ver mudanças numa determinada área". Dá como exemplo a decisão sobre a energia nuclear, mas também a reação à crise dos refugiados de 2015. Para Johannes Greubel estas opções contra as linhas do partido são "um aspeto importante da liderança de Merkel e também da sua popularidade".

A Alemanha é um país forte, já conseguimos tanta coisa -- conseguimos fazer isto!

Angela Merkel

Chanceler alemã

Mónica Dias também destaca a crise dos refugiados como um marco. "Não foi fácil. Houve muita oposição na Alemanha e ela recebeu muitas críticas hostis nas redes sociais". Para a história ficaram as declarações após a visita a um centro de migrantes em Dresden, no dia 31 de agosto de 2015, após ouvir vaias e insultos de habitantes locais: "A Alemanha é um país forte, já conseguimos tanta coisa -- conseguimos fazer isto!" A expressão final, wir schaffen das, seria repetida várias vezes pela chanceler, para exasperação de muitos democratas-cristãos.

"A integração de um milhão de refugiados corre bem. É por isso que a AfD [Alternativa para a Alemanha, um partido de extrema-direita que cresceu com a entrada dos migrantes] perdeu apoio: não tinha programa além de ser anti-imigração", defende a professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, que considera que a chanceler puxou o seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU), para o centro.

"Poucos esperavam que ela chegasse à chancelaria, e menos ainda que ela ganhasse a reeleição três vezes e depois deixasse o palco político no momento que ela própria escolheu.”

Rafael Loss

Coordenador de projetos de dados pan-europeus do European Council on Foreign Relations

O acolhimento dos migrantes abalou a popularidade de Angela Merkel, mas ela acabaria por a recuperar com a pandemia. Para Rafael Loss, coordenador de projetos de dados pan-europeus do European Council on Foreign Relations, "Angela Merkel foi extraordinariamente bem-sucedida, uma estratega brilhante". E destaca o percurso improvável de uma rapariga simples, filha de um pastor luterano, que cresceu e estudou na Alemanha de Leste, e viria a tornar-se na primeira mulher a liderar os destinos da Alemanha. "Poucos esperavam que ela chegasse à chancelaria, e menos ainda que ela ganhasse a reeleição três vezes e depois deixasse o palco político no momento que ela própria escolheu", sublinha.

Angela Merkel, na primeira vez que tomou posse, a 22 de novembro de 2005EPA/Peer Grimm

"É uma pessoa simples, com uma vida normalíssima, sem luxos. Tem o guarda-roupa todo igual, apenas com cores diferentes", aponta Mónica Dias, que realça ainda a sua ética de trabalho protestante. "É divertida e muito terra-a-terra", acrescenta.

"A maioria dos alemães lembrar-se-á dela pelo seu estilo de liderança cauteloso, mediador e racional, em vincado contraste com os pomposos competidores masculinos que ela superou ao longo dos anos. Merkel tem um sentido aguçado do sentimento popular, indo tão longe quanto os eleitores alemães permitiam, raramente correndo riscos", considera Rafael Loss.

A coesão do euro, a maior vitória

As mesmas luzes e sombras podem ser encontradas na forma como a chanceler liderou os destinos da União Europeia. "Durante os seus 16 anos no poder, Merkel posicionou a Alemanha como o centro de gravidade incontestado da UE. Mas, por mais que isso tivesse a ver com sua habilidade em mediar conflitos entre as coligações beligerantes da UE e manter todos os 27 de acordo na maior parte do tempo, também resultou de os seus congéneres em França, Itália e Espanha terem enfrentado problemas internos", considera o coordenador do European Council on Foreign Relations (ECFR), sedeado em Londres. Desde que assumiu os destinos da Alemanha em 2005, Angela Merkel trabalhou com quatro presidentes franceses e oito italianos.

A ação política de Angela Merkel foi fundamental para salvar o euro durante a crise da dívida. A de Mario Draghi enquanto presidente do BCE também, mas não poderia ter feito o que fez sem o apoio da chanceler alemã.

Fernando Alexandre

Professor de economia da Universidade do Minho

Todos assinalam o seu contributo para a coesão no espaço da moeda única. "A ação política de Angela Merkel foi fundamental para salvar o euro durante a crise da dívida. A de Mario Draghi enquanto presidente do BCE também, mas não poderia ter feito o que fez sem o apoio da chanceler alemã. Sem Angela Merkel também não teríamos a emissão conjunta de dívida que viabiliza o Plano de Recuperação e Resiliência", destaca Fernando Alexandre.

"Também a nível europeu, a sua liderança pragmática e calma foi um trunfo importante para a UE em tempos de turbulência. Ela deu um contributo significativo na resolução dessas crises graças às suas capacidades como negociadora, prestígio internacional e longa experiência como chefe de governo", assinala Johannes Greubel, analista político do European Policy Centre.

Johannes Greubel, analista político do European Policy Centre.

"Angela Merkel nunca foi entusiasta de uma maior integração política, mas fez muito para manter a Europa unida e, em particular, a zona euro", concorda Clemens Fuest. "Por exemplo, quando a Grécia estava prestes a deixar o euro, comprometeu-se a impedir a saída do país", acrescenta. "Angela Merkel soube mudar de opinião em relação à crise da dívida, contra Wolfgang Shaeuble, então ministro das Finanças. Viu que a Europa tinha de avançar coesa e em conjunto e no último minuto aceita o resgate da Grécia", assinala, por seu turno, a professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica.

Um posicionamento que beneficiaria também Portugal. "A ação de Merkel na crise do euro também contribuiu para que o país continue a ter acesso a taxas de juro muito baixas, mantendo-o solvente apesar dos elevados níveis de endividamento. O investimento alemão é também muito importante para Portugal e há várias empresas entre os principais exportadores nacionais", assinala o professor de economia da Universidade do Minho.

Merkel tem muito respeito por Portugal, até pela forma como o país superou a crise financeira, diferente dos gregos e até dos espanhóis. Isso para os alemães foi importantíssimo.

Mónica Dias

Professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica

"Merkel tem muito respeito por Portugal, até pela forma como o país superou a crise financeira, diferente dos gregos e até dos espanhóis. Isso para os alemães foi importantíssimo", refere Mónica Dias. E lembra que foi a Alemanha que enviou médicos para Portugal no período mais difícil da Covid-19.

Apesar das medidas de austeridade impostas pela Alemanha, 52% dos portugueses votariam em Angela Merkel para Presidente da União Europeia, se o cargo existisse, segundo um estudo do European Council on Foreign Relations. A chanceler foi também capaz de mudar a perceção que os europeus têm da Alemanha. A mesma sondagem conclui que os cidadãos da UE veem o país como confiável e europeísta e capaz de liderar o bloco. Os Estados vizinhos têm menor receio de um domínio germânico.

Falta de visão, também na Europa

Para a professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, onde sobra solidez e coesão falta visão. "Quem sabe o nome do ministro dos Negócios Estrangeiros alemão [Heiko Maas]? Ninguém o conhece. É uma anti-visionária. Seguiu uma política de negociação, de pequenos passos, muito gradualismo. Não soube dar um novo elã à Europa", vinca.

Uma opinião partilhada por Johannes Greubel: "o que certamente pode ser criticado sobre a liderança de Merkel na Europa é a falta de visão estratégica para o futuro". "Perante o aumento da concorrência geopolítica, a relutância alemã prejudicou a capacidade da UE de desenvolver uma política externa mais ambiciosa e coerente que vá além da mera promoção de interesses económicos", considera Rafael Loss.

O presidente do Ifo Institut lembra o fracasso em manter o Reino Unido na União Europeia, com a vitória do Brexit no referendo de 2016, talvez a maior derrota de Merkel no plano europeu, uma vez que tirou força ao bloco, no plano económico e político.

Depois de Merkel, o vazio.

Apesar das críticas, a saída da chanceler será sentida. "Deixará um vazio na mudança política europeia. Embora Emmanuel Macron possa querer preencher esse vazio, estará preocupado com sua própria reeleição em abril de 2022", afirma Rafael Loss. No já referido estudo do European Council on Foreign Relations sobre em quem votaria para Presidente da UE, o francês foi o preferido de apenas 14% dos inquiridos, contra 41% da chanceler alemã. A segunda é popular em praticamente toda a Europa, o primeiro não.

"Os primeiros-ministros italiano e espanhol também demonstraram grande habilidade recentemente na gestão de relações diversas com os parceiros da UE, apesar das tradicionais divisões políticas. Em vez de um líder assumir o manto de Merkel, provavelmente veremos um novo concerto, incluindo os líderes da Espanha, Itália, França, Holanda - e, claro, o próximo chanceler alemão", acrescenta Rafael Loss.

Os seus 16 anos de experiência, os contactos diplomáticos a nível europeu e suas capacidades de negociação serão muito difíceis de preencher por outros líderes atuais.

Johannes Greubel

Analista político do European Policy Centre

Johannes Greubel, têm uma perspetiva semelhante. "A sua ausência será sentida no curto prazo. Os seus 16 anos de experiência, os contactos diplomáticos a nível europeu e suas capacidades de negociação serão muito difíceis de preencher por outros líderes atuais. Mas existem vários atores que podem preencher esse papel ao longo do tempo, seja isolada ou coletivamente, como o sucessor de Merkel. Além disso, Macron terá interesse em se retratar como um grande jogador a nível europeu após a saída de Merkel".

"A Alemanha e a Europa enfrentam desafios internos e externos importantes nos próximos anos", aponta Clemens Fuest. "Devido às alterações demográficas, a força de trabalho começará a diminuir, o que criará ventos contrários para o crescimento económico. Muitos países, especialmente no sul da Europa, emergiram enfraquecidos da recessão de Covid, com níveis muito elevados de dívida pública. A maioria dos países da UE tem grandes estados sociais que só podem ser mantidos se o crescimento económico continuar", acrescenta.

Angela Merkel deixa o plenário durante uma sessão do Bundestag, em Berlim, a 7 de setembro de 2021EPA/CLEMENS BILAN

O presidente do Ifo Institut lembra que "a Europa está atrasada em competitividade e digitalização" realçando a importância de o fundo de recuperação da UE ser complementado por reformas adequadas nos Estados-membros. A que acresce a necessidade de "externamente, a Europa precisar de defender os seus interesses perante as crescentes tensões geopolíticas entre os outros blocos dominantes, os EUA e a China".

"No esforço de enfrentar esses desafios, políticos inteligentes e honestos como Angela Merkel farão falta", concede Clemens Fuest.

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