O potencial da Biodiversidade na Economia Verde em Portugal

Mais de 50% do PIB mundial é dependente da natureza e dos seus serviços. E em Portugal?

“A diversidade biológica, ou biodiversidade, é a variedade de vida na Terra. Compreende a variabilidade dentro das espécies, entre as espécies e dos ecossistemas. Também se refere às relações complexas entre os seres vivos e entre os seres vivos e seu ambiente. A biodiversidade e seus componentes fornecem uma série de bens e serviços que sustentam nossas vidas, nosso estilo de vida e o ambiente em que vivemos. Esses bens e serviços incluem alimentos, medicamentos, água e ar limpos e outros recursos naturais que sustentam uma ampla gama de atividades humanas e industriais, da silvicultura à mineração e produtos farmacêuticos” (1).

Tendo em conta esta definição, facilmente conseguimos reconhecer que a biodiversidade deveria ser uma componente central do modelo económico, e deveria ter um papel fundamental nos processos de decisão empresarial. Esta relevância é hoje reconhecida por várias organizações empresariais, nomeadamente o World Economic Forum (WEF).

Em janeiro de 2020, o WEF publicou um relatório onde afirma que o setor empresarial é mais dependente da biodiversidade do que inicialmente pensado. Foram feitas análises a cerca de 163 setores e às suas cadeias de valor e, concluiu-se que mais de metade do PIB mundial é moderadamente ou altamente dependente da natureza e dos seus serviços. Uma vez que a biodiversidade mundial está ameaçada e a diminuir a uma taxa sem precedentes, então tal significa de cerca de 44 biliões de dólares estão em risco.

Em termos gerais, as maiores economias do mundo são aquelas que demonstram maiores valores absolutos de PIB em setores altamente dependentes da natureza:

  • Para a China, uma das economias emergentes, estima-se que 2,7 biliões de dólares sejam provenientes de setores altamente dependentes da natureza;
  • Para a União Europeia, estima-se que 2,4 biliões de dólares sejam provenientes de setores como a agricultura, a construção e a produção alimentar, setores que dependem profundamente da natureza;
  • Para os Estados Unidos, o valor equivalente é de 2,1 biliões de dólares anuais. Neste país a percentagem total de setores de atividade económica considerados altamente dependentes da natureza, perfazem cerca de 10% do total do PIB.
  • A Índia, tem um terço do seu PIB altamente dependente da natureza; a Indonésia tem 32%, e o continente Africano, tem em média 23% do seu PIB desentende da biodiversidade.

Em termos monetários, 15% do total do valor acrescentado bruto mundial advém de setores económicos altamente dependentes da natureza, enquanto 37% advém de setores moderadamente dependentes da natureza, o que representa 13 biliões de dólares e 31 biliões de dólares respetivamente.

Percentagem do VAB direto e na cadeia de fornecimento com dependência na natureza por indústria

Fonte: WEF, 2020. Nature Risk Rising: Why the Crisis Engulfing Nature Matters for Business and the Economy

Setores como a construção, a agricultura e a produção de alimentos e bebidas são considerados setores altamente dependentes da natureza. O volume de vendas destes setores depende da extração de recursos que são produzidos nas florestas e oceanos, e dependem de serviços de ecossistemas como a polinização, a provisão de água doce, a manutenção de solos de qualidade, e tantos outros. Sem estes serviços e recursos da natureza, estes setores poderão deixar de conseguir vender da forma como estão habituados, e os impactes financeiros poderão ser elevados.

Quando analisados os setores económicos, é facilmente percetível que os setores que mais dependem da natureza são os setores primários, como a agricultura, o setor florestal, pescas e produção alimentar. Enquanto os setores que mais afastados estão da natureza são os setores dos serviços, como a comunicação, os seguros e o setor financeiro. No entanto, e de acordo com o WEF, a dependência da natureza tem de ser analisada através da cadeia de valor, o que significa que até o setor mais “longínquo da natureza” depende de certa forma da mesma.

Por exemplo, as seis indústrias: como produtos químicos e materiais; aviação, viagens e turismo; imobiliária; mineração e metais; cadeia de abastecimento e transporte; retalho e bens de consumo, representam menos de 15% do valor acrescentado bruto, têm ainda outras dependências “escondidas” através das suas cadeias de abastecimento.

São várias as organizações que têm vindo a emitir avisos sobre o problema que a degradação da biodiversidade vai ter na economia.

A publicação recente das Nações Unidas Global Biodiversity Outlook 5, concluiu que os habitats naturais continuaram a desaparecer, que muitas espécies continuam ameaçadas de extinção devido às atividades humanas, e que cerca de 500 mil milhões de dólares em subsídios prejudiciais à natureza ainda não foram eliminados.

A Suiss Re publicou também recentemente um estudo sobre as economias do G20, que reforça o WEF, voltando a referir que 55% do PIB mundial depende da biodiversidade e dos serviços dos ecossistemas. Afirma também que 20% dos países estão em risco dos seus ecossistemas colapsarem.

O que se passa em Portugal?

O WEF diz-nos que os setores como a construção, a agricultura e a produção de alimentos e bebidas são considerados setores altamente dependente da natureza. Se considerarmos o setor do Turismo, como um setor que é altamente dependente da natureza, então, facilmente se compreende que a biodiversidade e os serviços dos ecossistemas constituem pilares fundamentais para o VAB Português.

Tendo em conta que “Portugal é reconhecidamente um país rico em património natural, detentor de espécies de flora e de fauna associadas a uma grande variedade de ecossistemas, habitats e paisagens, e integra uma diversidade e riqueza muito relevantes deste património no continente europeu, nos territórios insulares macaronésios, nos ambientes costeiros e litorais e nas profundidades oceânicas do nordeste Atlântico” (2), será que o PIB de Portugal depende em mais de 50% da biodiversidade?

Muito possivelmente, sim, mas faria sentido realizar-se uma análise que agregue economistas, gestores e biólogos, na identificação da efetiva percentagem da economia Portuguesa que está dependente da natureza. Talvez só assim, os temas da biodiversidade (que são diferentes mas complementares aos da bioeconomia) poderão fazer parte integrante da recuperação da economia nacional.

É neste contexto que ISEG lança esta quarta-feira o curso online gratuito sobre “Serviços dos Ecossistemas Empresas e Finanças” com o apoio do Fundo Ambiental. Este curso pretende precisamente abordar todos estes temas, integrando a natureza.

(1) Business and the 2010 biodiversity challenge: introduction to the convention on biological diversity. A background paper for the Business and the 2010 Biodiversity Challenge Meeting London, 20-21 January 2005

(2) Resolução do Conselho de Ministros n.º 55/2018, A Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade para 2030 (ENCNB 2030), https://dre.pt/application/conteudo/115226936

Nota da autora: Muito do texto deste artigo tem por base o documento “Serviços dos Ecossistemas, Empresas e Finanças – Manual”, do curso online dedicado ao tema dinamizado pelo ISEG e com o apoio do Fundo Ambiental.

  • Economista especializada em sustainable and climate finance

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