O ziguezague de Merkel e outros sinais de alarme da 3ª vaga europeia

Como quase sempre acontece na União Europeia, na cimeira desta semana a preocupação de manter as aparências tentou diluir as divergências entre os 27. É o Novo Normal desta semana.

Como quase sempre acontece na União Europeia, na cimeira desta semana a preocupação de manter as aparências tentou diluir as divergências entre os 27. Mas são muitas, são sérias, e podem ter consequências. A coesão que foi posta à prova no debate sobre uma resposta económica robusta à pandemia (e resistiu a essa provação, a não ser que o Tribunal Constitucional alemão deite agora tudo a perder), está a esfarelar-se com o teste de stress da campanha europeia de vacinação.

A UE está confrontada com a terceira vaga da covid-19 numa altura em que devia estar muito mais adiantada na vacinação, pelo menos entre os grupos demográficos prioritários.

Da cimeira europeia saíram três garantias:

  1. Será cumprido o objetivo de inocular 70% da população adulta da UE até ao verão – não é claro como, tendo em conta o histórico de incumprimentos na entrega de vacinas, em particular por parte da AstraZeneca (AZ).
  2. “Intensificar ainda mais os esforços para acelerar a produção, entrega e disponibilização de vacinas” – também não se percebe na prática o que isto significa no imediato. A UE está a identificar as capacidades de produção instaladas dentro do bloco económico, que possam contribuir para esse esforço. Ontem, o Comissário Europeu do Mercado Interno, Thierry Breton, esteve em Lisboa com António Costa e Siza Vieira, que identificaram 11 empresas nacionais com capacidade para entrar na cadeia de produção europeia de vacinas.
  3. Para garantir que os contratos serão cumpridos, a UE vai manter a obrigatoriedade das “autorizações de exportação” sempre que qualquer farmacêutica queira vender para fora da União produzidas no território dos 27. “Recorrendo a todos os instrumentos, incluindo a proibição de exportações, caso venha a ser necessário, mas salvaguardando as cadeias de fornecimento, indispensáveis para assegurar o funcionamento da indústria, quer na Europa, quer fora”, nas palavras de António Costa.

O discurso feito com pinças do PM português, que assegura a presidência rotativa do Conselho da UE, é o melhor sintoma do terreno minado em que estão os 27. E denota o grande ponto de discórdia da reunião de quinta-feira.

Não há acordo sobre quão dura deve ser a atitude da UE em relação às exportações de vacinas produzidas nas fábricas situadas nos 27. O principal alvo de uma proibição seria o Reino Unido, que não só não cumpre a regra de reciprocidade de exportações que Bruxelas quer impor, como tem sido um dos grandes beneficiários das exportações europeias. Segundo dados revelados por Ursula von der Leyen, a UE exportou desde dezembro 77 milhões de doses (quase tantas como as que distribuiu pelos Estados-membros: 88 milhões), das quais 21 milhões foram para as Ilhas Britânicas. No sentido contrário, nem uma dose chegou, apesar de duas das principais fábricas da AZ estarem no Reino Unido.

A declaração cautelosa de António Costa reflete as preocupações dos que temem que uma guerra das vacinas acabe por prejudicar a própria União. Não apenas no plano dos princípios (a UE sempre se apresentou como território do livre comércio, contra os protecionismos), mas mesmo no combate à covid, pois a produção de vacinas depende de importação de componentes de várias origens. No limite, uma guerra comercial pode impedir a UE de continuar a ser um dos grandes produtores mundiais de vacinas (segundo este artigo no New York Times, a União importa componentes de 83 países para fazer vacinas).

Apesar disso, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês fez ontem um ataque a toda a linha contra o Reino Unido. Jean-Yves Le Drian, muito próximo de Macron, criticou a abordagem britânica de distribuir a primeira dose ao máximo possível de pessoas, sem acautelar a segunda dose, e deixou uma ameaça implícita de bloquear o reforço de vacinação: “O Reino Unido está a acelerar na primeira dose, sabendo que terá problemas com a segunda. A Europa não tem de pagar por esta política.”

Entre duros e brandos, a Comissão Europeia terá de tomar uma decisão sobre o que fazer com os milhões de vacinas produzidos numa fábrica da AstraZeneca na Holanda que só agora foi certificada pela Agência Europeia do Medicamento. Os ingleses garantem que contratualmente essas doses são suas… e os holandeses preferem não bloquear essa exportação… mas neste momento a decisão já não está nas suas mãos. Um divisão desse stock seria a saída salomónica para o impasse.

Também houve uma espécie de revolta liderada pelo austríaco Sebastian Kurz (falo disso mais abaixo), mas as suas ameaças caíram em saco roto. Na semana passada, o chanceler viajou de Viena para Berlim, mas Angela Merkel não teve tempo para o receber. Percebe-se: Merkel tem mais com que se preocupar. O aparente desnorte da Alemanha é, talvez, o sintoma mais notório do impacto da terceira vaga da pandemia, que agora chegou ao centro e leste da Europa. Desta vez, a onda não veio de leste para oeste, mas começou em Portugal – e aquilo que vivemos por cá em janeiro e fevereiro está a repetir-se de Berlim a Varsóvia, de Budapeste a Paris. Os hospitais, avisam as autoridades alemãs, estão “no limite”.

O estranho caso da reviravolta em Berlim é apenas um de cinco sintomas políticos desta terceira vaga na UE a que convém estar atento:

1. Nem os alemães sabem o que fazer

Se é daqueles (nos quais me incluo) que se habituaram a olhar para a Alemanha como uma bússola do que deve fazer um governo perante esta pandemia, esta semana foi difícil de digerir. Em rigor, as últimas semanas não têm sido espetaculares no país de Angela Merkel. Mas nada faria antever o que se passou agora, com a chanceler a anunciar um rigoroso plano de confinamento para a Páscoa, para tentar travar o crescimento da pandemia (bem visível no gráfico abaixo), e a recuar radicalmente um dia depois.

Antes de olharmos para a reviravolta de Merkel, convém dar atenção aos argumentos que invocou ao anunciar ao país um plano rigoroso de confinamento durante cinco dias.

“A situação é grave. O número de casos aumenta de maneira exponencial e as camas nos cuidados intensivos estão novamente cheias”, avisou Merkel, dizendo que a Alemanha enfrenta “essencialmente uma nova pandemia”, com um “novo vírus”, “muito mais letal, claramente mais infeccioso e com maior período de contágio”. A chanceler não poupou nos adjetivos ao descrever o “aumento excecional” de novos casos, “provocado pela variante” inglesa do coronavírus.

Merkel é uma cientista (é licenciada em física e doutorada em química quântica), o que a tem ajudado a compreender e a explicar aos eleitores os desafios de enfrentar esta pandemia. As palavras que usou para descrever a atual situação na Alemanha denotam um grau de preocupação com a variante inglesa – que se está a tornar dominante em todo o território europeu – bastante maior do que tem sido admitido por outros responsáveis políticos. Merkel não adoçou a pílula. Nem o tem feito nos últimos meses.

Nos bastidores diplomáticos europeus tem sido bem notada a gravidade que Berlim atribui a esta variante e ao seu impacto em novas vagas. A preocupação de Merkel não tem só a ver com o facto desta estirpe ser mais contagiosa, mais agressiva e mais letal – tem sobretudo a ver com as dúvidas sobre a eficácia das atuais vacinas no combate às variantes consideradas preocupantes (escrevi sobre isso aqui).

Internamente, Merkel tem insistido em manter limitações à atividade, que nalguns casos se prolongam desde o Natal, para desespero dos governos estaduais, que insistem desde fevereiro num desconfinamento mais célere. Dando razão às preocupações da chefe do Governo, ontem, Lothar Wieler, o líder do principal instituto alemão para doenças infecciosas, avisou que esta vaga será pior do que as duas anteriores.

Foi depois de 12 horas de reunião entre a chefe do Governo e os líderes estaduais que Merkel anunciou mais rigor nas restrições ao comércio, atividades sociais e deslocações até à Páscoa. A decisão durou 24 horas, e a sua reversão deixou para segundo plano o alerta da chanceler sobre a gravidade do predomínio europeu da variante inglesa (lá voltaremos).

Porque é que Merkel recuou? Há várias explicações. A oficial é que do ponto de vista logístico seria difícil implementar em tão poucos dias algumas das medidas anunciadas. Havia demasiadas dúvidas sobre a operacionalização do novo lockdown, e também se falou na falta de debate público sobre o plano. Os patrões estavam furiosos com a suspensão da atividade comercial; a Igreja não gostou de ter de celebrar a Páscoa online; o turismo não se conformava por perder o balão de oxigénio das mini-férias pascais, ao mesmo tempo que alguns milhares de alemães já tinham escapado para Maiorca, que por estes dias se transformou numa espécie de Alemanha-à-beira-mar.

Com uma opinião pública cansada de restrições, nem os governantes estaduais do partido de Merkel foram capazes de defender, nos seus territórios, as medidas impostas por Berlim. Um deles, o ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália, Armin Laschet, é o novo líder da CDU, o partido que Merkel dirigiu entre 2000 e 2018.

O facto de não ser recandidata à chefia do Governo, nas eleições previstas para setembro, dá a Merkel uma enorme liberdade. Mas não assim tanta que possa fechar os olhos às sondagens, que colocam o seu partido numa má posição, ao fim de 16 anos de governação. A sondagem mais recente, publicada ontem, coloca Os Verdes em primeiro lugar nas intenções de voto, à frente da CDU.

É só uma sondagem, mas coincide com a tendência. A sondagem que o Politico Europe faz agregando todos os estudos de intenção de voto publicados na Alemanha mostra bem a queda acentuada da CDU desde o início do ano, que agravou uma tendência de plano inclinado que se prolonga desde o verão. Antes disso, a boa resposta das autoridades ao primeiro impacto da covid até reavivou o apoio à CDU, que andava frouxo antes da pandemia. A poll of polls do Politico ainda não coloca o partido de Merkel ao nível de Os Verdes, como estavam no verão de 2019… mas pode ser uma questão de tempo.

Apesar da forma frontal como Merkel assumiu o “erro” e retrocedeu nos planos para um confinamento rigoroso, e do alívio do seu partido (sobretudo de Laschet), o zigue-zague não ajudou à confiança na líder do Governo. Por outro lado, o desempenho da chanceler não é o único fator a puxar para baixo as intenções de voto na CDU.

Os problemas com a vacinação (e a ligação umbilical de Merkel à sua ex-ministra Von der Leyen) são um fator de impopularidade importante. O ministro da saúde é outro. Até ao Natal, Jens Spahn era uma estrela cintilante no firmamento da CDU. O jovem ministro da saúde (tem 40 anos, tomou posse com 37) começou por ser olhado com desconfiança, mas o acerto com que liderou a resposta à pandemia no início da era-covid tornou-o o segundo membro mais popular do Governo, logo a seguir a Merkel. Hoje, 60% dos alemães dão-lhe nota negativa (segundo uma sondagem do Der Spiegel), apesar de levantar a voz para criticar a AstraZeneca e o Reino Unido, e de ter sido o primeiro a admitir a compra de vacinas russas mesmo sem o aval da EMA.

O facto de o seu marido estar ligado a uma empresa que vendeu 570 mil máscaras ao Ministério da Saúde caiu muito mal na opinião pública. O pormenor de Spahn ter participado num jantar de angariação de fundos no outono, ao mesmo tempo que recomendava aos alemães que evitassem convívios, também não ajudou. A compra de uma casa milionária em Berlim levantou suspeitas. E a decisão de suspender a vacina da AZ sem evidências científicas afundou ainda mais a sua reputação.

Como se tudo isto não bastasse, um deputado da CDU e outro do partido irmão bávaro CSU, foram envolvidos num escândalo de corrupção relacionado com a venda de máscaras aos Governo. O parlamentar da CDU demitiu-se. O escândalo teve impacto nas eleições realizadas este mês em dois estados.

O atual rumo dos acontecimentos na Alemanha é ainda mais difícil de entender se tivermos em conta que, entre março e dezembro, o país teve um desempenho considerado exemplar. Acertou em quase toda a linha: nas medidas de prevenção, na capacidade de testagem e rastreio, na política de contenção de novos contágios, nomeadamente nos lares de idosos. Este texto do site Our World in Data conta essa história de sucesso… que entretanto acabou.

2. Os bons alunos da primeira vaga desapareceram

Não foi só o “exemplo” alemão que não resistiu às várias vagas do SARS-Cov2. Ao fim de quase um ano, poucos países da União podem gabar-se de ter uma folha limpa em relação ao impacto da pandemia. Metade dos países da UE já lideraram o ranking de maior incidência de novos casos (foi o caso de Portugal, durante três semanas, entre janeiro e fevereiro), e bastantes mais já estiveram no top 5 nalgum momento da pandemia. O mais parecido com uma folha limpa é o caso da Finlândia, que esteve quase sempre no fundo do ranking de incidência dos 27, o que continua a acontecer agora, mesmo com o país a passar os 130 novos casos por milhão de habitantes na média móvel a 7 dias (dados do site Our World in Data). Outros países, como o Chipre (e, de certa forma, a Grécia), têm conseguido manter-se longe dos lugares do topo, apesar de não estarem com um desempenho assim tão brilhante neste momento.

Mas, em regra, quase todos os países tiveram o seu momento negro – e os que foram apontados como bons alunos da primeira vaga acabaram, quase todos, por sucumbir na segunda, ou vão a caminho disso na atual onda da pandemia. Nesta turma, quase não há alunos exemplares.

Portugal é um desses casos de “milagre” no primeiro impacto, mas que não se prolongou no tempo. Mas está longe de ser caso único. Vários países do Leste, que nos primeiros meses da pandemia eram invejados, deixaram de o ser. A República Checa é o exemplo mais evidente disso, tendo liderado os piores indicadores tanto na segunda como na terceira vaga. Mas há mais: Hungria, Eslováquia, Lituânia, Letónia, Eslovénia, Polónia: todos estão a braços com o impacto da atual onda de contágios, catapultada pela variante inglesa.

Os polacos, que há poucas semanas eram elogiados pelo CEO do grupo Jerónimo Martins por terem sido “muito melhores” do que Portugal no controlo do vírus, reportaram ontem 35 mil novos casos, no que foi o terceiro dia consecutivo a bater recordes de incidência. “O Governo polaco teve sempre uma grande preocupação de não fechar a economia, e de proteger a economia e o emprego”, louvou Pedro Soares dos Santos. Agora, o governo de Varsóvia ordenou o encerramento de grandes espaços comerciais, cabeleireiros, ginásios e outras lojas, bem como hotéis e centros culturais e desportivos. Creches e ensino pré-escolar também foram fechados, e está limitado o acesso a serviços religiosos. O governo admite que as restrições podem aumentar nas próximas semanas se o atual ritmo de crescimento da pandemia não for travado. “Estamos a atravessar o momento mais difícil da pandemia”, admitiu o primeiro-ministro, que é acusado pelos críticos de ter agido tarde demais.

A República Checa é um caso ainda mais dramático. Já liderou o ranking negro da incidência na UE por quatro vezes desde outubro. Neste momento é, segundo os cálculos do Financial Times com a Universidade Johns Hopkins, o país do mundo que, cumulativamente, regista a mais alta taxa de mortalidade per capita devido à covid: 231 mortos por cada 100 mil habitantes.

Em vários países vizinhos repete-se o padrão: um primeiro semestre de pandemia bem sucedido, e depois a história oposta. Voltando aos dados do FT com a Universidade Johns Hopkins, a Hungria, a Eslovénia, e a Bulgária estão atualmente no top 10 dos países mais atingidos do mundo (a Bósnia Herzegovina, que não é membro da UE, também). A Eslováquia e a Polónia estão no top 25. Ninguém apostaria nisso há seis meses.

No caso da República Checa, um dos motivos do bom comportamento inicial poderá ter sido causa do descalabro que se seguiu: o sistema rastreio de contactos deu boa conta do recado enquanto os números estavam controlados – mas quando fugiram de controlo, o mesmo sistema colapsou.

Outras razões poderão justificar os dados destes países do Leste da Europa:

  • Na primeira vaga, os governos foram rápidos a reagir e a decretar medidas de confinamento (tal como Portugal). Porém, ao terem escapado ao pior, ficou a sensação de que seria possível controlar a pandemia com medidas mais brandas.
  • A estrutura económica destes países depende muito de empregos que não podem ser exercidos à distância; depois da paragem no primeiro confinamento, esses trabalhadores continuaram a deslocar-se para o local de trabalho. Por outro lado, os agregados familiares no leste europeu reúnem, por regra, várias gerações sob o mesmo teto: avós, pais e netos. Por esta razão, muitos idosos acabaram por ser infetados pelos familiares.

3. O maior problema é mesmo a variante inglesa

Na Polónia há um fenómeno parecido com o que se verificou em Portugal: muitos cidadãos emigrados no Reino Unido voltaram ao seu país para passar o Natal. Tal como cá, as fronteiras estavam abertas aos emigrantes, que não estavam sujeitos a controlo sanitário. “Temíamos que, se nada fosse feito, estaríamos a abrir a porta à nova variante – e foi isso que aconteceu”, resume Maria Ganczak, epidemiologista da Universidade de Zielona Gora.

Talvez as medidas tomadas até ao outono pudessem ter sido suficientes para impedir o pior cenário… se não fosse a variante inglesa. Um estudo feito na República Checa (e referido aqui) demonstra que “o comportamento das pessoas durante a atual vaga é comparável com a forma como as pessoas se comportaram durante a segunda vaga, no outono”. O trabalho, levado a cabo pela PAQ Research, sediada em Praga, monitorizou vários indicadores, como o número de contactos pessoais e a prevalência do trabalho em casa, num grupo de 2500 checos. Apesar do comportamento não ter mudado, o vírus propagou-se bastante mais, houve muitos mais internados e bastante mais mortos. A explicação? “Desta vez… não chegou, porque a variante inglesa é mais contagiosa.

Em Portugal, o alívio das restrições no Natal ajudou a variante inglesa a entrar e disseminar-se, e a vaga de frio terá sido o terceiro fator que acelerou o pico verificado de janeiro a fevereiro. Na Polónia, outro fator que contribuiu para que a prevalência da variante inglesa disparasse a partir de fevereiro foi a decisão, tomada nesse mês, de aliviar restrições à circulação para atividades relacionadas com a neve, como hotéis e estâncias de esqui.

“Não foram decisões baseadas na situação epidemiológica. Foi mais um gesto populista para satisfazer as pessoas que queriam ir de férias (…) . Sabemos que as pessoas estão devastadas do ponto de vista físico e psicológico pelos confinamentos. Mas as estratégias devem basear-se na ciência e não nas emoções”, comentou a mesma epidemiologista, entrevistada pelo FT. Já ouvimos por cá algo parecido, certo?

4. A covid tem costas largas

No início deste texto, quando referi as questões em que não houve acordo na cimeira europeia desta semana, não aprofundei a quezília sobre a distribuição de dez milhões de doses extra que a Pfizer disponibilizou à União. Sebastian Kurz, o chanceler austríaco, foi o porta-voz de um conjunto de países que exigem ser beneficiados no rateio dessas doses. O argumento de Áustria, República Checa e Croácia, entre outros, é que concentraram as suas encomendas na vacina da AZ e, por isso, têm recebido menos fármacos do que outros países europeus. Mas, com a terceira vaga a atingir todo o centro e leste europeu, ninguém mostrou abertura para rever as regras de distribuição das poucas vacinas que existem.

Kurz chegou a ameaçar vetar qualquer acordo de distribuição, mas o assunto foi remetido para uma comissão técnica. O facto de a Áustria ter índices de vacinação acima da média europeia não ajudou a sua causa. Ter atacado há dias o programa europeu de vacinação – e a presidente da Comissão Europeia (uma protegida de Angela Merkel) – também tornou Kurz pouco popular em Berlim e noutras capitais. Kurz tem surpreendido outros líderes de Governo. Umas vezes alinha com os frugais contra maiores apoios financeiros a países mais atingidos pela pandemia, outras vezes faz-se porta-voz de países… muito atingidos pela pandemia.

Não tem lógica? Tem. Mas é uma lógica interna. Kurz é daqueles políticos com o instinto sempre alinhado com os humores do eleitorado. Por outro lado, como qualquer político austríaco, olha para as sondagens. Não são boas. Em abril passado, a coligação do OVP, o partido conservador de Kruz, com Os Verdes, somava 62% das intenções de voto; atualmente valem 45% (mais uma vez, uso o agregador de sondagens do Politico). Os sociais-democratas estavam então a 26 pontos percentuais do OVP; neste momento estão a 13 pp.

A queda da coligação liderada por Kurz tem a ver com erros que lhe são imputados na gestão da pandemia, mas não é essa a principal razão. O seu governo está envolvido num escândalo de corrupção, que já motivou buscas em casa do ministro das finanças, Gernot Blümel, um dos principais aliados do primeiro-ministro. Em causa está um complexo esquema de corrupção a favor da empresa austríaca de jogos de azar online Novomatic, que Blümel terá favorecido no passado. O processo tem centenas de suspeitos, o nome do ministro das finanças é citado 23 vezes, e o do primeiro-ministro… 42.

A súbita necessidade de fazer voz grossa na Europa seguiu-se a um início de ano politicamente desastroso para Kurz. Começou com a demissão do ministro do trabalho, apanhado num escândalo de plágio. Depois, os serviços secretos identificaram falhas das autoridades austríacas que permitiram um ataque terrorista em novembro passado no centro de Viena, do qual resultaram quatro mortos. E os dados mais recentes indicam que a Áustria é dos países da UE mais atingidos pela pandemia no plano económico. O “caso dos casinos” apareceu no pior timing possível. Com uma agravante: o anterior governo liderado por Kurz também caiu por causa de um caso de corrupção (nesse caso, do ex-parceiro do coligação), o que torna difícil manter a narrativa de que o jovem chanceler é o rosto de uma nova política desligada dos velhos interesses. Como mandam as regras da velha política, para desviar as atenções, Kurz apontou a um adversário externo.

5. A vacinação lenta não ajuda… e a Sputnik também não

O lento desenvolvimento da vacinação não ajuda, as dúvidas sobre as vacinas – empoladas pelos problemas com a AstraZeneca – ainda ajudam menos. Se ao menos a UE já tivesse autorizado a vacina russa…

A Hungria, que já está a administrar a Sputnik V (e também a vacina chinesa Sinopharm), está com níveis de vacinação bem acima dos parceiros europeus – diz o Centro Europeu de Controlo de Doenças que 21% da população já recebeu a primeira dose, quase o dobro da média europeia. Apesar disso, a Hungria foi o país da UE que mais viu crescer no último mês o número de novos casos.

Na Eslováquia, o problema da vacina russa é outro: é político. A coligação formada há um ano por quatro forças partiu-se após o anúncio, feito pelo primeiro-ministro, da compra de 2 milhões de vacinas a Moscovo. Dois dos parceiros da coligação começaram por exigir a demissão do ministro da saúde, mas o conflito escalou, culminando na exigência da demissão do primeiro-ministro. A coligação, liderada por um partido populista e anti-sistema, também inclui dois partidos à direita, que não gostaram de saber da decisão de comprar a Sputnik V, que ainda não tem aval da autoridade europeia do medicamento. Para agravar o quadro, o anúncio da encomenda não foi previamente concertado com os parceiros de Governo. O país está agora num impasse político, que se soma à escalada da pandemia.

A propósito de vacinas: há em Portugal um patusco debate sobre se os farmacêuticos podem participar do esforço nacional de inoculação em massa, tendo em conta o número limitado de enfermeiros de que o país dispõe (as autarquias já andam à caça do enfermeiro, para poderem por a funcionar os 150 postos de vacinação que serão criados fora dos centros de saúde). Um debate curioso, tendo em conta que há 4 mil farmacêuticos que há anos administram vacinas em Portugal, apesar da oposição da Ordem dos Enfermeiros a esta “ingerência” nas suas funções. Debate ainda mais curioso se tivermos em conta que no Reino Unido, cuja campanha de vacinação tem sido tão elogiada, não só os farmacêuticos foram incluídos no sistema, como até veterinários.

Será uma excentricidade inglesa? Parece que não: as autoridades francesas decidiram esta semana que, quando as vacinas começarem a chegar em grandes quantidades, serão administradas por enfermeiros e farmacêuticos, mas também por veterinários, e dentistas, e estudantes de medicina, e técnicos de laboratório, e “outros profissionais de saúde”. Com esta decisão, aumenta em 250 mil o número de pessoas que poderá administrar vacinas aos franceses.

Nota do autor: um colunista deste jornal referiu-se ao Novo Normal da semana passada como um texto de ficção e insinuou que pode ter sido “encomendado” (com aspas). Não identificou por quem, o que é pena, pois teria dado substância à baixeza. Mas talvez a “encomenda” tenha partido dos mesmos que “encomendaram” notícias do Financial Times, do Wall Street Journal, do New York Times ou de outros grandes media internacionais, nas quais baseei o relato que aqui fiz – notícias que não foram desmentidas (bastava seguir os links para perceber a origem das informações). Tudo pode não ter passado de um problema básico de compreensão de língua portuguesa. Em todo o caso, agradeço ao ECO por revelar ao mundo colunistas que de outra forma desconheceríamos, e por lhes dar uma liberdade de expressão que nem eles acreditam que exista em Portugal, país que retratam como vivendo sob socialismo soviético. Depois de ler esta prosa – um esforçado exercício para limpar a imagem da AstraZeneca – não posso senão concordar com o autor: “Como todas as ficções que são exageradas, uma visão demasiado sectária acaba por perder credibilidade.”

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