Sociedades Ibéricas: mercado português projeta faturação globalpremium

Garrigues, Gómez-Acebo & Pombo e Uría Menéndez-Proença de Carvalho são três firmas espanholas que se encontram a operar em Portugal. A Advocatus foi saber como estão a correr os negócios.

O mercado da advocacia tem vindo a crescer nos últimos 20 anos. Existem cada vez mais escritórios, desde grandes a pequenas boutiques, e cada vez mais outros países apostam em Portugal para abrir uma filial da sua firma.

A Advocatus foi conhecer três sociedades do país vizinho, Espanha, a operar em Portugal, Garrigues, Gómez-Acebo & Pombo e Uría Menéndez–Proença de Carvalho, e tentar perceber os seus objetivos, como está a correr o negócio em Portugal e se pensam numa expansão.

“O espírito ibérico é absolutamente estratégico para o nosso escritório. O nosso objetivo é continuar a oferecer aos nossos clientes uma assessoria jurídica da mais alta qualidade, tanto nos investimentos locais ou ibéricos, como em transações internacionais”, notam Bernardo Ayala e Antonio Villacampa Serrano, sócios diretores da Uría Menéndez–Proença de Carvalho.

Antonio Villacampa Serrano (à esquerda) e Bernardo Ayala (à direita), sócios da Uría Menéndez-Proença de Carvalho

Com objetivos diferentes, a Garrigues encontra-se focada em três pontos. A firma espanhola quer ser o “escritório português de referência” para as empresas e investidores espanhóis, portugueses e para os internacionais que queiram investir no país. “Os objetivos intermédios são dois: o de ter nas nossas equipas os advogados mais talentosos, polivalentes e criativos do mercado e o de conseguirmos prestar aos clientes um serviço com o nível máximo de excelência”, assegura João Miranda de Sousa, sócio responsável pelo escritório em Portugal da Garrigues.

Já a Gómez-Acebo & Pombo admite que a estratégia da firma é, como em qualquer outro mercado em que atuam, estarem “perto dos clientes ajudando no desenvolvimento do seu negócio”. “Vemo-nos como um parceiro do cliente e uma peça no desenvolvimento da sua estratégia. Gostamos também de pensar que contribuímos para a formação de uma comunidade jurídica sólida, ajudamos no desenvolvimento do país e, sempre que nos é possível, apoiamos os mais desfavorecidos no acesso ao direito”, conta Mafalda Barreto, managing partner da firma.

Com um número já bastante elevado de sociedades espanholas a investir em Portugal, à Advocatus, a Garrigues, a Uría e a Gómez-Acebo & Pombo admitem que as grandes firmas já se encontram no mercado português.

“No futuro poderemos possivelmente assistir ao estabelecimento de alguma sociedade de tamanho médio ou pequeno, embora não consideremos que a probabilidade seja demasiado elevada”, referem os sócios da Uría.

Para João Miranda de Sousa, as grandes sociedades de advogados de matriz portuguesas são “players extraordinários recheados de excelentes advogados”. “Existe seguramente espaço para a entrada de novos players de matriz espanhola, mas só triunfarão se acrescentarem valor, e se possuírem singularidade e capacidade de diferenciação”, nota.

Existe seguramente espaço para a entrada de novos players de matriz espanhola, mas só triunfarão se acrescentarem valor, e se possuírem singularidade e capacidade de diferenciação.

João Miranda de Sousa

Sócio da Garrigues

A managing partner da Gómez-Acebo & Pombo considera o país um mercado “natural” para os escritórios espanhóis, admitindo eventuais entradas no futuro de novas firmas. “Acredito que a multiculturalidade é uma mais-valia”, reforça Mafalda Barreto.

Para as três sociedades espanholas a presença em Portugal enriquece o setor da advocacia, pois a concorrência é sempre enriquecedora e vantajosa para os clientes. “Obrigam os players a esmerarem-se e a superarem-se na busca da excelência profissional e na prestação do melhor serviço ao cliente. As barreiras de entrada e o protecionismo estão, aliás, nas antípodas do modelo económico que os portugueses escolheram para Portugal quando decidiram aderir à União Europeia”, explica João Miranda de Sousa, da Garrigues.

João Miranda de Sousa, sócio da GarriguesD.R.

Mas para os sócios da Uría, Bernardo Ayala e Antonio Villacampa Serrano, é necessário “avaliar se o mercado português tem dimensão para absorver a chegada de mais sociedades”.

À Advocatus, os três escritórios apontaram a proximidade geográfica como o principal fator que torna Portugal um país atrativo de negócio.

“A ‘iberização’ das multinacionais é também, sem dúvida, um fator relevante, na atração de negócio, uma vez que as direções jurídicas e financeiras privilegiam a possibilidade de ter também uma abordagem integrada e alinhada do negócio por um escritório único, reduzindo a disrupção na gestão dos assuntos jurídicos”, assegura Mafalda Barreto. Outros dos fatores apontados pela managing partner da Gómez-Acebo & Pombo é a possibilidade de existirem equipas multijurisdicionais que partilhem a mesma cultura de trabalho.

Mafalda Barreto, managing partner da Gómez-Acebo & PomboPaula Nunes / ECO

Já para os sócios da Uría, Portugal é um país atrativo para as sociedades de advogados espanholas também devido ao “aproveitamento de sinergias e vantagens competitivas de mercados com tecidos empresariais semelhantes, estes fatores combinados justificam o interesse do escritório em Portugal”.

“Faturação da Garrigues Portugal representou 4% da faturação total do grupo”

A sociedade liderada por João Miranda de Sousa iniciou atividade em Portugal há 15 anos. Atualmente conta com 122 profissionais, entre os quais 13 sócios, distribuídos pelos dois escritórios abertos no país, Lisboa e Porto.

“O arranque fez-se através da incorporação na Garrigues da firma Leónidas Matos & Associados que tinha sido criada em 2001 por iniciativa da Andersen Portugal, entidade irmã da que na altura tinha uma aliança com a Garrigues em Espanha. A equipa ‘fundacional’ da Garrigues Portugal estava composta por cerca de 30 advogados, dos quais dois eram sócios”, explica o sócio responsável pelo escritório da Garrigues no país.

O advogado confidenciou à Advocatus que o escritório português da sociedade espanhola é o maior dos escritórios da Garrigues que operam fora de Espanha, quer em número de advogados, quer no valor de faturação e volume de negócio.

“A Garrigues Portugal cresceu exponencialmente ao longo dos seus 15 anos de existência tendo quase quintuplicado a sua a faturação anual. Nos últimos cinco anos a faturação da Garrigues Portugal representou, em média, 4% da faturação total do Grupo Garrigues”, nota João Miranda de Sousa.

Nos últimos cinco anos a faturação da Garrigues Portugal representou, em média, 4% da faturação total do Grupo Garrigues.

João Miranda de Sousa

Sócio responsável pelos escritórios da Garrigues Portugal

Apesar do crescimento, o sócio garante que não pensam alargar a oferta a outras cidades portuguesas, apesar de terem clientes espalhados por Portugal. “Consideramos que atenta a dimensão do território português e a concentração dos centros de decisão empresariais nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, os dois escritórios que temos dão-nos a proximidade física e simbólica que precisamos de ter em relação ao universo potencial dos nossos clientes”, acrescenta.

Gómez-Acebo & Pombo mantém aposta apenas em Lisboa

A Gómez-Acebo & Pombo fixou-se no território português em 2010, “apesar da situação económica à data, entendemos que seria uma decisão estrategicamente acertada, o que se veio a confirmar”, conta Mafalda Barreto.

A managing partner refere que o escritório de Lisboa tem vindo a “crescer significativamente” ao longo dos anos, o que permitiu a afirmação como “uma marca ibérica e oferecer um serviço integrado” aos clientes.

A firma espanhola explicou à Advocatus que pretende continuar apenas com um escritório no país. “Estamos, desde o início, apenas em Lisboa. Apesar de a possibilidade de abertura de um escritório no Porto ter sido inicialmente considerada acabámos por concluir que não encaixava nos nossos planos imediatos, nomeadamente pelas especificidades do mercado jurídico local”, explica Mafalda Barreto.

Apesar de a possibilidade de abertura de um escritório no Porto ter sido inicialmente considerada acabámos por concluir que não encaixava nos nossos planos imediatos, nomeadamente pelas especificidades do mercado jurídico local.

Mafalda Barreto

Managing partner da Gómez-Acebo & Pombo

“O escritório de Lisboa teve um crescimento significativo ao longo dos anos, representando atualmente cerca de 10% da faturação da Gómez-Acebo & Pombo. Contribui também, de uma forma significativa, para a nossa estratégica ibérica, permitindo aos nossos clientes com interesses em Espanha e Portugal ter um interlocutor comum na assessoria jurídica”, assegura a managing partner.

Uría: o primeiro escritório de advogados estrangeiro autorizado pela OA

Também a Uría Menéndez – Proença de Carvalho possui em atividade apenas um escritório em Portugal, em Lisboa. Em território português desde 2001, a sociedade “tornou-se o primeiro escritório de advogados estrangeiro autorizado pela Ordem dos Advogados portugueses a abrir um escritório e a prestar serviços jurídicos em Portugal, onde opera desde 2010 como Uría Menéndez – Proença de Carvalho”, explicam Bernardo Ayala e Antonio Villacampa Serrano.

Uría Menéndez – Proença de Carvalho

Os sócios são claros sobre a questão da expansão da firma para outras cidades portuguesas: não está nos planos.

“Não equacionamos a expansão para outras cidades portuguesas por uma questão de eficiência organizativa e cobertura racional do mercado português cuja dimensão geográfica nos permite fazer tudo a partir de Lisboa”, notam.

Não equacionamos a expansão para outras cidades portuguesas por uma questão de eficiência organizativa e cobertura racional do mercado português cuja dimensão geográfica nos permite fazer tudo a partir de Lisboa.

Bernardo Ayala e Antonio Villacampa Serrano

Sócios da Uría Menéndez-Proença de Carvalho

Quase vinte anos depois da abertura em Portugal, os sócios asseguram que o escritório representa um papel importante no volume de negócios e na faturação. “A Uría Menéndez conta com 120 advogados e 19 sócios no seu escritório de Lisboa e a sua faturação representou 15% do valor total da receita anual em 2019”, referem.

Intercâmbio de advogados entre os países vizinhos, e não só

Apesar das centenas de quilómetros que separam os escritórios entre Portugal e Espanha, as três firmas costumam integrar vários advogados espanhóis em Portugal.

“Sim, integramos nas nossas fileiras em Portugal alguns advogados espanhóis, como é o exemplo do Antonio Villacampa, sócio diretor, que está no escritório de Lisboa há dezoito anos e da Belén García Martínez no escritório há um ano. Adicionalmente, devido à nossa forte política de secondment entre escritórios da Uría Menéndez, contamos ainda este ano no primeiro e segundo semestre com duas advogadas do nosso escritório de Barcelona”, refere o escritório da Uría.

Apesar de no passado já terem integrado profissionais dos escritórios da Garrigues de Espanha em Portugal, João Miranda de Sousa explicou que de momento não integram nenhum advogado do país vizinho. “Atualmente a equipa de advogados da Garrigues Portugal está exclusivamente composta por advogados portugueses, ou melhor, por advogados inscritos na Ordem dos Advogados e plenamente habilitados a exercer advocacia no nosso país”, nota.

Atualmente a equipa de advogados da Garrigues Portugal está exclusivamente composta por advogados portugueses.

Bernardo Ayala e Antonio Villacampa Serrano

Sócios da Uría Menéndez-Proença de Carvalho

Na sociedade liderada por Mafalda Barreto, até 2017, a equipa portuguesa foi chefiada por sócios espanhóis. “Em 2018 entendeu-se que o escritório de Lisboa teria já atingido a maturidade necessária para dispensar uma direção local espanhola e optou-se por ter um sócio português a gerir o escritório. Abracei este desafio, sem hesitar, por acreditar no projeto e me identificar totalmente com os valores do escritório”, explica a managing partner.

Mas será que a sinergia entre os dois países também consiste na transferência de advogados portugueses nos escritórios espanhóis?

Algumas das equipas da Garrigues em Espanha integram ou integraram advogados portugueses. Eu sou um deles. Obtive há muitos anos o reconhecimento oficial em Espanha da licenciatura em direito que obtive na Universidade Católica Portuguesa e graças a isso inscrevi-me no Colegio de Abogados, correspondente. Sou aquilo que que os anglo-saxónicos chamam um dual qualified lawyer. Graças a esta dupla qualificação profissional, exerço, sem quaisquer restrições ou limitações, a atividade de abogado em Espanha e a atividade de advogado em Portugal”, assegura João Miranda de Sousa.

O sócio responsável pela Garrigues em Portugal deixou um desejo para o futuro: que os “menus” educativos das universidades portuguesas incluíssem programas combinados de dupla licenciatura em direito espanhol e português. “Tenho tentado mobilizar vontades para que isso aconteça e continuarei a empenhar-me para que este meu sonho se possa tornar realidade”, reforça.

Na Uría Menéndez-Proença de Carvalho o intercâmbio de advogados com os diversos escritórios da firma e com a rede de escritórios dos seus “best friends” é uma política da sociedade, através de secondments. “Podemos afirmar que nos últimos dois anos conseguimos, apenas entre os escritórios ibéricos da Uría Menéndez, destacar em secondment uma média de seis advogados por ano e prevemos em 2020 manter esse número”, asseguram os sócios da Uría.

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