A ciência avança, a desigualdade de género persiste

  • Joana Ferreira da Silva e Tânia Catarina Medeiros
  • 14:00

É fundamental implementar estratégias institucionais que promovam a igualdade de género, incluindo processos seletivos transparentes e comités de avaliação diversos.

Recentemente, duas conferências internacionais focadas na engenharia do genoma humano juntaram cientistas de todo o mundo para discutir tecnologias de ponta que prometem curar uma vasta diversidade de doenças genéticas. Contudo, enquanto a ciência avança a passos largos, há realidades que teimam em não mudar: apenas 20% dos oradores são mulheres. Este número não é uma exceção, mas uma realidade persistente no mundo científico e académico.

O cenário atual revela uma disparidade que vai muito além da representação em conferências. Nas universidades e institutos de investigação, as mulheres enfrentam obstáculos consideráveis na progressão de carreira. Dados da Comissão Europeia mostram que, em 2025, as mulheres ocupavam cerca de 50% dos programas doutorais e uma média de 34% do staff académico. No entanto, apenas 20-30% das posições de diretores de laboratório são ocupadas por mulheres. O sexo feminino está também severamente sub-representado no número de publicações académicas (34%) e, de forma ainda mais marcante, no registo de patentes (9%).

Estas disparidades têm raízes profundas e complexas. O enviesamento inconsciente (em inglês, unconscious bias) influencia decisões de contratação e promoção, enquanto a cultura académica tradicional, historicamente moldada por homens, cria ambientes pouco acolhedores para mulheres cientistas. Além disso, a falta de modelos femininos em posições de liderança perpetua um ciclo que desmotiva as novas gerações.

A maternidade e responsabilidades familiares também impactam desproporcionalmente as carreiras femininas. Estudos revelam que, na primeira década após o nascimento de filhos, as mulheres publicam em média menos 17.6 artigos científicos – a métrica principal de produtividade académica – em comparação com os homens que também são pais. Esta diferença, além de afetar progressões na carreira, pode levar até cinco anos para ser atenuada, refletindo os desafios estruturais que continuam a dificultar a igualdade de oportunidades na ciência.

É fundamental implementar estratégias institucionais que promovam a igualdade de género, incluindo processos seletivos transparentes e comités de avaliação diversos. A adoção de políticas que apoiem a conciliação entre vida profissional e pessoal, tais como licenças parentais equitativas, modelos híbridos de trabalho, horários flexíveis e suporte para cuidado infantil são medidas cruciais. Finalmente, a consciencialização sobre enviesamentos inconscientes deve ser parte integral da formação de profissionais em posições de liderança.

Nos últimos anos, têm surgido iniciativas importantes com o propósito de impulsionar o desenvolvimento profissional das mulheres cientistas, incluindo programas de mentoria, workshops de progressão de carreira e plataformas que dão visibilidade a mulheres em posições de liderança. Há também uma maior abertura para que as conversas sobre igualdade de género aconteçam no lugar de trabalho e para a sensibilização dos nossos pares para estes temas. Com o apoio das organizações, o compromisso das instituições académicas e das empresas, a confiança dos nossos aliados e a ascensão de mais mulheres cientistas a posições de liderança, estamos a construir um futuro em que o talento científico não conhece género.

  • Joana Ferreira da Silva
  • Ph.D. – Investigadora em Harvard Medical School (Boston, EUA) e Massachusetts General Hospital (EUA) e Co-Leader Equipa Eventos na The Non-Conformist Scientist
  • Tânia Catarina Medeiros
  • Ph.D. – Investigadora no Max Planck Institute for Biology of Aging (Colonia, Alemanha) e Co-Leader Equipa Eventos na The Non-Conformist Scientist

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