A Geopolítica do ALM
Nuno Oliveira Matos debate novas formas de Asset Liability Management (ALM), oportunidades para afirmar seguradoras não apenas como gestoras de risco, mas como arquitetas do futuro económico europeu.
Durante décadas, fez aquilo que sabe fazer melhor. Gerir passivos de longo prazo com prudência, otimizar carteiras sob fortes exigências regulatórias e proteger níveis robustos de solvência. Esse mandato continua válido. O que mudou foi o contexto.
A Comissão Europeia tem sido clara ao apelar às empresas de seguros que assumam um papel mais ativo no financiamento das prioridades estratégicas europeias, da transição energética à defesa. Não se trata apenas de um convite político. É o reconhecimento de que o modelo económico europeu precisa de capital paciente e de longo prazo, precisamente o tipo de capital que as empresas de seguros gerem.
Em paralelo, a discussão sobre o Asset Liability Management (ALM) tem vindo a evoluir. O ALM tradicional centrou-se no equilíbrio técnico entre ativos e passivos, na gestão da duration, na minimização de mismatches e na otimização do capital económico. Essa abordagem continua essencial. Mas já não é suficiente.
A questão deixou de ser apenas como alinhar ativos e passivos. Passou a ser também que ativos fazem sentido num mundo em que a sustentabilidade económica da União Europeia depende de investimento estrutural em infraestruturas, energia, tecnologia e autonomia estratégica.
É neste ponto que o conceito de asset recycling oferece uma perspetiva particularmente estimulante. A lógica é simples. Monetizar ativos maduros, tipicamente infraestruturas já estabilizadas, e reinvestir os proveitos em novos projetos estratégicos. O objetivo é desbloquear capital imobilizado e direcioná-lo para áreas com maior impacto económico e social, sem agravar dívida pública nem carga fiscal.
Se transpusermos esta lógica para o universo segurador, a analogia torna-se evidente. Também as empresas de seguros têm capital alocado a ativos que cumprem uma função defensiva e prudencial, mas que podem não ser os mais produtivos do ponto de vista estratégico. A elevada exposição estrutural a dívida soberana de baixo rendimento é compreensível à luz das regras prudenciais e da gestão de liquidez. Ainda assim, importa questionar se essa alocação maximiza o potencial do setor no atual contexto europeu.
As infraestruturas de longo prazo oferecem fluxos de caixa previsíveis e durações compatíveis com muitos passivos do ramo vida. Projetos em energias renováveis, redes elétricas, armazenamento, mobilidade sustentável ou digitalização apresentam características que, se bem estruturadas, ajustam-se ao perfil de investidor institucional de longo prazo. Ao mesmo tempo, contribuem para reforçar a competitividade e a resiliência da economia real.
O desafio está menos na identificação das oportunidades e mais na forma como o setor encara o risco.
Durante anos, o foco incidiu sobretudo no impacto na solvência e na gestão do capital. Essa análise continua a ser indispensável. No entanto, existe também um risco estratégico associado à excessiva passividade. Num cenário de reconfiguração geopolítica e de transição energética acelerada, não participar ativamente na construção do futuro económico europeu pode significar perder relevância sistémica.
Naturalmente, qualquer reforço de exposição a ativos reais exige governance robusto, capacidade técnica interna e critérios rigorosos de seleção e acompanhamento. O investimento estratégico não pode ser confundido com complacência ou com relaxamento prudencial. Pelo contrário, exige ainda mais disciplina.
Para mercados como o português, esta discussão assume particular relevância. Portugal enfrenta necessidades significativas de investimento em energia, água, mobilidade e digitalização, num contexto de restrições orçamentais persistentes. As empresas de seguros nacionais, pela natureza dos seus passivos e pelo horizonte temporal com que trabalham, estão bem posicionadas para serem parte da solução. Não como substitutas do Estado, mas como parceiras estruturais na mobilização de poupança de longo prazo para projetos com impacto duradouro.
O verdadeiro teste do ALM contemporâneo não é apenas a capacidade de resistir a choques de mercado ou de cumprir rácios de solvência. É também a capacidade de alinhar a gestão do balanço com a transformação estrutural da economia. A estabilidade financeira do setor e a robustez da base económica europeia estão interligadas.
A prudência continuará a ser central no setor segurador. Mas prudência não deve significar imobilismo. Num momento em que a União Europeia redefine prioridades e procura fontes de financiamento sustentáveis, as empresas de seguros têm a oportunidade de afirmar o seu papel não apenas como gestoras de risco, mas como arquitetas do futuro económico europeu.
Porque, no fim, quem financia o futuro, molda-o. E quem se limita a financiá-lo marginalmente, arrisca-se a ser moldado por ele.
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