A inveja boa e a inveja dos grunhos

Se queremos mesmo ser o país moderno do hostel, do Web Summit e da startup, temos de deixar de ser o país da “inveja má” para passarmos a ser a terra da “inveja boa”.

Ao longo da minha vida profissional já tive várias oportunidades de avaliar trabalhos de publicidade. Ora como jurado, ora como mero espectador, quer on-line quer presencialmente, quer em Portugal quer um pouco por todo o mundo.

Lembro-me como se fosse hoje da primeira vez que fui ao festival de publicidade de Cannes. As conferências, as praias, os eventos paralelos ao festival e principalmente os trabalhos vencedores, muito dos quais vi pela primeira vez lá.

Recordo-me de fotografar com o telemóvel trabalho por trabalho e colecionar todas as revistas que eram oferecidas. Mas lembro-me ainda melhor do sentimento que me invadiu nesse momento. Mais do que admiração ou bajulação, era inveja. Inveja no seu estado mais puro.

Foram noites e noites a pensar: “mas como raio não me lembrei desta ideia?”. Ou por exemplo: “porra, isto era tão óbvio”. Ou ainda: “eu também trabalho um refrigerante, podia ter feito isto na boa”.

Mais do que arranjar desculpas para o que ainda não consegui, ou viver amarrado a feitos do passado, foi a inveja o que mais me fez crescer enquanto publicitário. Ainda hoje é o dia em que fico furioso comigo próprio quando vejo uma ideia fenomenal. Não por não reconhecer o mérito de quem a teve, mas porque gostava de a ter tido primeiro.

No dia em que deixar de sentir esta inveja saberei que mais nada tenho a acrescentar a esta indústria. Como se costuma dizer nas relações é o momento “em que a chama esmorece”.

Mas se a inveja é em muitos casos uma coisa boa, também consegue ser algo de realmente mau e perverso. Mas se esta é uma má notícia, a péssima notícia é que a “inveja má” é um dos traços mais distintivos do povo português.

Esta “inveja má” sempre existiu na nossa sociedade, mas sinto-a cada vez maior nas gerações mais novas como a minha. Nós, que devíamos ter a mente mais desempoeirada, somos por vezes do mais preconceituoso que existe.

Falo-vos por exemplo das atividades artísticas. Experimentem ir ao Cais do Sodré beber uma cerveja e topem bem as conversas da comunidade hipster à vossa volta. Este novo tipo de espécie consegue ser a conjugação perfeita entre a alcoviteira de aldeia que passa a vida a dizer mal dos outros, com o tipo da taberna de Alfama que opina sobre tudo e se sente o senhor da razão absoluta.

O hipster diz que a Joana Vasconcelos é uma parola com a mesma convicção que o taberneiro afirma que os filmes do Manoel de Oliveira são uma merda. Ambos têm em comum o facto de nunca terem ido a uma exposição da primeira, nem nunca terem visto um filme do segundo.

O hipster que em 2005 dizia que o Miguel Araújo era “uma grande cena” é o mesmo tipo que – agora que o mesmo Miguel Araújo enche coliseus e passa na Comercial – acha que o cantor deve ser despromovido de azeitona a azeiteiro.

O hipster que hoje rejubila com o Vhils é o mesmo hipster que amanhã o vai apelidar de “artista do regime” porque, afinal, toda a gente já o vai conhecer e porque picar tijolo “é uma coisa muito 2015”.

Este é o mesmo hipster que usa as redes sociais para criticar o valor das bolsas de investigação que o Estado lhe paga e que simultaneamente também faz uns posts a gozar com os “betos” que em vez de quererem ir trabalhar para o Estado preferem fazer algo pela vida e serem empreendedores.

Este tipo de gente é tão, mas tão, alternativa que no seu íntimo acha que só porque existem muitas pessoas a gostarem de uma coisa, essa coisa já não se torna digna de ser elogiada por eles. Porque “a cena” desta gente é ser alternativa.

A isto chama-se inveja. Até porque muita desta gente, ao contrário dos tipos com sucesso que tanto criticam, nunca fez algo na sua vida do qual se possa realmente orgulhar.

Se queremos mesmo ser o país moderno do hostel, do Web Summit e da startup, temos de deixar de ser o país da “inveja má” para passarmos a ser a terra da “inveja boa”. Isto não irá resolver todos os problemas do nosso país, mas fará seguramente com que sejamos um país com muito menos grunhos.

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António Costa

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