A Santa Casa e a “raspadinha” Montepio

Não é fácil à Santa Casa explicar um fenómeno como este negócio que se prepara para fazer com o Montepio. Porque há coisas que não se explicam e os fretes são uma delas.

Desde que se começou a falar dessa hipótese, sempre tive dúvidas sobre a bondade da entrada da Santa Casa da Misericórdia no capital do banco Montepio Geral. E essas reservas eram de dois tipos: o primeiro, mais filosófico, tem a ver com a missão da Santa Casa e a discussão sobre se deve ou não participar em operações de capitalização de bancos; o segundo tipo de dúvidas, mais racional, diz respeito aos termos concretos do negócio e podia ser colocado independentemente das entidades protagonistas.

Na sexta-feira ao fim do dia, depois de assistir a uma entrevista de 15 minutos ao Provedor da Santa Casa à SIC Notícias, considerei-me plenamente esclarecido e com as dúvidas dissipadas: aquilo é mesmo um mau negócio, sem pés nem cabeça e com números que não batem certo.

Não ponho em causa as capacidades de Edmundo Martinho porque admito sem reservas que fosse quem fosse a estar no seu lugar seria também incapaz de explicar aquilo que não tem explicação.

A entrevista, conduzida por Teresa Dimas, tocou nos pontos essenciais e reforçou-os quando necessário. Tenho pena de não a encontrar na íntegra online para poder partilhar o link, porque daria um bom objecto de estudo.

Vamos por partes.

Primeiro, a questão dos montantes envolvidos. Edmundo Martinho revelou que a SCML assumirá uma posição “muito próxima de 1% do capital da Caixa Económica Montepio Geral (MG)” por um montante que está entre os 18 a 20 milhões de euros.

Portanto, daqui resulta para o Montepio Geral um valor entre 1.800 a 2.000 milhões de euros.

Como referência, o BPI está neste momento com um valor em bolsa próximo dos 1.600 milhões de euros.

Pergunta: “Como é que o Montepio vale mais do que o BPI?”

Resposta: “Eu isso não lhe sei responder”.

Portanto, o comprador não sabe porque vai pagar o valor que lhe estão a pedir, mas tenta explicar: “O valor de que estamos a falar é um valor que corresponde aquilo que são os dados consolidados nas contas e auditados pela auditora que tem a responsabilidade de auditar as contas da Caixa Económica [Montepio Geral]. É disso que estamos a falar. São valores que são acompanhados pelo supervisor e que são públicos, são conhecidos, e são valores que correspondem aquilo que é a capacidade financeira da Caixa Económica”.

Ter as contas auditadas ainda é um argumento que se possa apresentar? Sem querer comparar a solidez financeira ou meter tudo no mesmo saco, o que é que o BPN, o BES, o Banif, o Lehamn Brothers, o Northern Rock ou o Royal Bank of Scotland tiveram em comum? Três coisas. Primeiro, todos eles tinham contas auditadas por entidades independentes; segundo, todos eles eram supervisionados pelos respectivos reguladores nacionais; terceiro, todos eles faliram ou foram resgatados pelos Estados.

Se estes casos extremos aconteceram, muito menos podemos fazer um negócio apenas com base na simples leitura dos balanços e demonstrações de resultados.

De facto, o valor dos capitais próprios do Montepio Geral incluído nas contas de Setembro de 2017 (as últimas que encontrei online) é de 1.760 milhões de euros. Mas daí a assumir-se que o valor da instituição é igual aos seus capitais próprios, vai um enorme passo (só como referência, o BPI, que é valorizado todos os dias em mercado por quem compra e vende as suas acções, tem neste momento o valor atribuído de 1.600 milhões e capitais próprios que eram, no final do primeiro semestre do ano passado, de 2.600 milhões de euros).

Aliás, o próprio provedor da SCML, mais à frente, haveria de o admitir. Quando lhe é perguntado pelo estudo que a Santa Casa fez para avaliar a operação, responde que sobre o valor que lá é indicado: “com o conjunto do good will que temos, alguma coisa à volta de 1.600, 1.700 milhões de euros”.

Ah, o “good will”. O bom e velho “good will”. O “good will” — a melhor tradução é mesmo “boa vontade” — é usado, em muitos negócios, como aquela parcela altamente subjectiva que faz as contas baterem certo entre o valor que estamos a pedir e a avaliação a que se chegou da forma mais objectiva possível. As avaliações médias indicam 100 e nós queremos vender por 140? Simples: o “good will” é de 40.

O “good will” está para muitos negócios empresariais como o “valor sentimental” está para os negócios pessoais: “o meu Fiat 127 de 40 anos pode valer apenas 300 euros, mas para mim vale 10 mil euros porque foi com ele que conheci a mãe dos meus filhos”. É um sentimento bonito, de facto, mas não tem valor para mais ninguém.

De qualquer modo, já estamos com uma avaliação do MG que vai dos 1.600 aos 2.000 milhões de euros, um intervalo de 25%. E, afinal, as contas auditadas valem o que valem como valores de referência para a transacção de um banco. Valem muito pouco e são apenas um dado entre muitos.

Se o racional dos números tem todas estas fragilidades à vista desarmada, as motivações que levam a SCML a entrar no capital do Montepio não são mais sólidas.

O próprio Edmundo Martinho reconhece que “não é isto que salva um banco” e tem toda a razão. Se o Montepio precisasse de ser salvo com injecções de capital, não era a entrada em 1% do capital do banco que resolveria o problema, mesmo que essa entrada fosse feita a um preço que está muito inflaccionado, como é o caso.

Se esta operação fosse assumida como um resgate financeiro do Montepio, pelo menos haveria um propósito. Polémico, discutível, mas um propósito. A SCML era a entidade sacrificada para salvar o banco, tal como nos últimos anos foi o dinheiro dos contribuintes a fazê-lo.

Mas não. “É para nós uma questão de investimento financeiro, não é uma intervenção de especulação financeira. A SCML não está disponível para se envolver neste projecto numa perspectiva em que compra hoje para vender amanhã, para obter mais-valias – obviamente que isso nos interessa a prazo”.

Entende-se que a SCML queira retirar dali mais-valias, mas não no curto prazo, o que faz sentido. E, como fazem tantas entidades do chamado terceiro sector, a boa gestão dos seus activos garante recursos para continuarem a cumprir a sua missão social. É isso que fazem também, por exemplo, muitas fundações.

Mas o que pergunto é se nessa lógica de gestão dinâmica mas prudente, à espera de uma rentabilidade sem exposição a demasiado risco, o melhor que a SCML consegue é colocar cerca de 3% dos seus activos numa operação como esta.

Qualquer aluno de primeiro ano de um curso de gestão, perante este dossier, faria o trabalho de casa sobre esta compra: que rentabilidade espera dali obter? em que prazo? com base em que avaliações? como espera, daqui a uns anos, vender uma posição com pouca liquidez, já que a entidade não está cotada em mercado? se está a comprar tão caro para o valor real da posição como espera fazer um bom negócio? que outras alternativas foram estudadas para o investimento de 20 milhões para se concluir de entre todas esta é a melhor?

E se mais não houvesse, o “teste do algodão” surge quando se pergunta se o tal estudo vai ser divulgado: “isso é uma questão que estamos para estudar, porque este estudo foi pedido como mais um indicador de avaliação da situação que nos permite tomar uma opção e uma decisão”.

Ou seja, um estudo que contraria ou lança dúvidas sobre o que está a ser feito pode ficar na gaveta, mas vão-se invocando dados públicos — as contas oficiais do Montepio — para tentar caucionar a falta de racionalidade da operação. Pode servir para muita gente, num assunto que é técnico e se presta a muitos jogos de números, de conceitos e de palavras. Mas, por favor, não façamos de toda a gente ignorante.

Como disse, não é fácil à liderança da SCML explicar o fenómeno que este negócio é. Se o negócio é muito arriscado, a prudência não está na redução do investimento de 200 milhões para “apenas” 20 milhões. Se o risco é grande e a SCML não é especuladora, prudente seria afastar-se deste dossiê que, como reconhece, não vai salvar o banco.

Sem ponta por onde se lhe pegue, há neste negócio um frete que alguém está a fazer a alguém. E isso não se explica, de facto. Mas podemos sempre chamar-lhe “good will”, claro.

* O autor escreve segundo as normas do antigo acordo ortográfico.

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