A sinédoque de Elisabeth Holmespremium

Apontada como a versão feminina de Steve Jobs, a estudante de Stanford prometeu aos investidores e ao mercado uma revolução. O julgamento começou esta semana. Que legado deixa Holmes?

Era apontada como a versão feminina de Steve Jobs: a brilhante estudante que tinha desistido do curso em Stanford e aplicado o dinheiro de um fundo deixado pelos pais para fundar um unicórnio em Silicon Valley. Elisabeth Holmes tinha, em conjunto com a equipa de Theranos, criado uma tecnologia que prometia revolucionar a indústria médica. O produto da startup ambicionava fazer testes de sangue rápidos e fáceis como nenhum outro.

O percurso foi tão convincente, e a empreendedora tão entusiasta ou envolvente no storytelling que convenceu, ao longo dos anos, investidores experientes como Larry Ellisson e Tim Draper a investir na sua Theranos. A máquina de testes de sangue, que aceleraria e simplificaria o processo como nenhuma outra criação até à data, era encarada no mercado como uma revolução autêntica. A empresa chegou a uma avaliação de nove mil milhões de dólares (sim, quase um decacórnio, se está a fazer contas), colocando Holmes numa "avaliação" estimada de 4,7 mil milhões. Só que a promessa nunca se cumpriu porque... o produto não funcionava.

A história pode ser tão simplificada assim: durante anos, Elisabeth Holmes e o sócio e diretor de operações, Ramesh Balwani, venderam ao mercado de investidores, ao ecossistema empreendedor de Silicon Valley, à indústria médica e aos seus próprios colaboradores uma ideia que nunca chegou a ser real. Os testes que a Theranos fazia eram, afinal, feitos com recurso a tecnologia da concorrência, e os resultados pouco precisos começaram a levantar problemas aos doentes que a eles recorriam.

A questão da autenticidade da tecnologia da Theranos foi levantada, pela primeira vez, em 2015: na altura, o jornalista John Carreyrou escreveu as primeiras notícias sobre o tema no The Wall Street Journal, depois de receber uma dica de um ex-trabalhador da Theranos e ter começado a fazer perguntas à empresa. Nessa altura, tanto o jornalista como o jornal foram ameaçados com ações judiciais, enquanto as suspeitas sobre Holmes e sobre a tecnologia eram disseminadas, mediatizadas, investigadas. O que se seguiu foi um sem número de interpretações da história, que culminou num processo judicial, na detenção de Holmes e do seu sócio, e na dissolução da empresa em 2018. Ah, e claro, tudo termina no julgamento de Elisabeth Holmes, a responder por dez crimes de fraude eletrónica e duas acusações de conspiração para cometer fraude eletrónica, e que arrisca uma condenação de 20 anos de prisão. Ou será que não?

Um artigo publicado recentemente no jornal americano The New York Times dá conta de que muitas empreendedoras mulheres referem ser "constantemente comparadas a Holmes, a fundadora de Theranos", e que isso as faz viver viver "na sombra" dela, na sua prática empresarial do dia-a-dia. Que marcas deixará a história da Theranos num ecossistema já avesso a investir em mulheres? É que, apesar de 2020 ter sido um ano recorde de investimento em venture capital (só nos EUA foram 300 mil milhões de dólares), apenas 2,3% do montante financiado foi alocado a startups lideradas por mulheres, número mais baixo do que o de 2019.

Ensinam-nos desde pequeninos que generalizações são perigosas e que, por isso devemos evitá-las: não devemos tomar nunca o todo pela parte, sob pena de perdermos uma parte considerável da história. Certo? A história da Theranos - e de Holmes - é referida como a maior fraude corporativa desde a Enron mas é, também, um sinal da bolha e do frenesim, tantas vezes descontrolados, nas promessas de corrida ao ouro de Silicon Valley. O que a história de Elisabeth Holmes nos ensina, também, é que o erro de um não é o erro de todos. Que a sinédoque de Elisabeth Holmes seja tão inexistente quanto a tecnologia da Theranos, e que o mercado de Venture Capital seja maduro o suficiente para não considerar que, por uma, pagam todas.

Sobre a história de Theranos tenho ainda duas sugestões: o livro "Bad Blood - Secrets and Lies in a Silicon Valley Startup", escrito pelo jornalista do The Wall Street Journal John Carreyrou, que conta detalhadamente a história de ascensão e queda de Elisabeth Holmes. E o podcast "The Drop Out", uma incrível produção, que faz o mesmo de uma forma brilhante.

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