A transição solar: da saturação ao crescimento inteligente

O próximo Pacote das Redes europeu deve reconhecer que minimizar a exposição à rede pode contribuir para reduzir o OPEX e o CAPEX das redes e para a otimização do sistema elétrico.

Pela primeira vez em dez anos, o crescimento da energia solar na Europa abrandou, ainda que apenas de forma marginal. O abrandamento é um sinal de alerta: Mesmo quando o crescimento era forte, não era suficiente para cumprir as metas climáticas da UE.

A eliminação gradual de regimes de apoio, a maior exposição aos mercados grossistas de eletricidade — cada vez mais marcados por preços de mercado à vista nulos ou até negativos — e o aumento do curtailment (cortes na geração) e custos crescentes de gestão e balanço do sistema colocam em risco novos investimentos. Trata-se de um sintoma de um problema mais profundo: o esgotamento do primeiro modelo de expansão solar, que dependia fortemente de subsídios ou de rendas inframarginais para garantir retornos. Hoje, os preços captados pela energia solar estão a cair, por vezes abaixo do LCOE, colocando em risco tanto novos como existentes projetos solares. Sem adaptação, o investimento irá estagnar.

A expansão das renováveis, especialmente da solar, faz descer os preços grossistas através do efeito de ordem de mérito, o que, em si, é uma excelente notícia para a competitividade europeia. Mas quando a solar satura a oferta diurna, surgem preços grossistas negativos, corroendo a rentabilidade do fotovoltaico isolado. Este efeito é claramente visível nos mercados diários: após quase duplicarem em 2024, as horas com preços nulos ou negativos na UE estão novamente a aumentar. A energia solar precisa de se adaptar e de captar valor de novas formas. A boa notícia é que isso já está a acontecer. Não à velocidade desejada, é certo, mas claramente na direção certa.

A resposta mais imediata tem sido investir em flexibilidade através da hibridização. A combinação da solar com baterias e/ou eólica suaviza os perfis de geração, aumenta os preços médios captados e torna o ativo flexível. O vento atinge frequentemente o pico quando a solar não o faz, enquanto as baterias conseguem deslocar a produção excedente para horas de maior valor, evitando riscos acrescidos de congestionamento ou corte, e fornecendo serviços de flexibilidade e estabilidade à rede. Estas combinações restauram retornos estáveis, abrem novas fontes de receita e criam perfis semelhantes a carga de base, altamente atrativos para PPAs.

Do lado da procura, a eletrificação do transporte e do aquecimento e arrefecimento devem ser vistos como motores de procura que impulsionam e sustentam investimento adicional em solar. Veículos elétricos, bombas de calor, processos industriais eletrificados e novos consumidores, como os centros de dados, estão a criar novos segmentos de procura, muitas vezes em períodos que complementam a produção renovável.

Se a hibridização e a eletrificação são facilitadores-chave, minimizar a exposição à rede e adotar comportamentos mais amigos da rede podem ser estratégias verdadeiramente transformadoras – não só para a sustentabilidade económica individual dos projetos, mas também para o custo e a resiliência do sistema elétrico como um todo. As renováveis intermitentes e descentralizardas não estão condenadas a ser um custo para a rede, sobretudo se houver co-localizacao ou proximidade entre geração e consumo.

A Europa enfrenta necessidades de investimento recorde nas redes, com 67 mil milhões de euros por ano até 2050. Projetos que geram e consomem localmente, minimizando a exposição as redes, reduzem diretamente a necessidade de nova e dispendiosa capacidade de transporte e podem também reduzir custos de gestão e operação. Cada quilómetro de linha ou posto de transformação evitado reduz custos fixos que, de outra forma, seriam socializados por todos os consumidores. A proximidade entre geração e procura significa menos reforços de rede – traduzindo-se em menores aumentos nas tarifas de acesso para famílias e empresas. Minimizar a exposição à rede reduz a pressão em nós congestionados, melhorando a fiabilidade e a eficiência para todos os utilizadores do sistema. Ao descentralizar a oferta e aproveitar oportunidades para também descentralizar a procura, o sistema evita dependência excessiva de transporte a longa distância, reduz vulnerabilidades, aumenta a flexibilidade e melhora a competitividade global do sistema.

A Europa enfrenta necessidades de investimento recorde nas redes, com 67 mil milhões de euros por ano até 2050. Projetos que geram e consomem localmente, minimizando a exposição as redes, reduzem diretamente a necessidade de nova e dispendiosa capacidade de transporte e podem também reduzir custos de gestão e operação. Cada quilómetro de linha ou posto de transformação evitado reduz custos fixos que, de outra forma, seriam socializados por todos os consumidores. A proximidade entre geração e procura significa menos reforços de rede – traduzindo-se em menores aumentos nas tarifas de acesso para famílias e empresas.

Numa situação de procura estável, minimizar a utilização da rede pode transformar-se num jogo de soma nula: os custos não são evitados, apenas redistribuídos. Produtores e consumidores que minimizam a exposição reduzem os seus próprios encargos, mas os custos fixos de manutenção da rede recaem então sobre quem não o consegue fazer. No contexto atual de forte e acelerado crescimento da procura – impulsionado pela eletrificação, veículos elétricos, indústria e centros de dados — minimizar a exposição à rede permite redução de custos para o sistema como um todo. Em vez de transferir despesas para outros, a geração e o consumo locais mitigam a necessidade de novos e dispendiosos investimentos em redes de transporte e distribuição. Isto transforma a minimização da exposição à rede numa estratégia de soma positiva, reduzindo o CAPEX e OPEX do sistema e contendo o crescimento das tarifas para todos.

Por outras palavras, o que antes poderia ser criticado como transferência de custos pode ser uma forma de reduzir custos a nível sistémico — desbloqueando preços captados mais elevados para investidores e maior eficiência global do sistema, ao mesmo tempo que garante acessibilidade para todos os utilizadores da rede.

O caso português ilustra como isto pode funcionar na prática. O país permite ligações flexíveis à rede e oferece descontos ou isenções tarifárias para autoconsumo e comunidades de energia renovável. Estes incentivos regulatórios possibilitam PPAs locais, onde geração e consumo estão colocalizados ou ligados ao mesmo posto de transformação, assegurando que o valor é captado sem incorrer no custo total da utilização da rede.

Este enquadramento é particularmente poderoso quando associado a novas cargas de elevada procura, como os centros de dados, que estão a expandir-se em Portugal devido à sua conectividade e ao potencial de produção renovável. Ao colocalizar projetos solares ou eólicos – ou solares e eólicos com armazenamento – com estas cargas, ou ao estruturar “PPAs de proximidade” ao abrigo das regras de autoconsumo e comunidades de energia renovável, os promotores e os consumidores de eletricidade podem evitar parte das tarifas de rede; garantir preços captados mais elevados para os produtores e preços de eletricidade mais baixos e previsíveis para os consumidores; reduzir a exposição a congestionamentos, cortes e custos de equilíbrio do sistema.

Aqui, os centros de dados atuam como cargas âncora para projetos renováveis locais, desbloqueando valor privado e poupanças sistémicas ao reduzir a necessidade de expansão adicional da rede. O mesmo princípio pode ser aplicado a hubs de carregamento de veículos elétricos, parques industriais eletrificados e sistemas de aquecimento/arrefecimento urbano – em qualquer lugar onde a procura possa ser colocalizada ou próxima de ativos de geração renovável descentralizada.

A primeira vaga de crescimento da solar foi sobre escala — construir o máximo possível, o mais rapidamente possível. Esse modelo está agora a mostrar sinais de saturação. A nova fase será sobre crescimento inteligente: flexibilidade, híbridização, eletrificação e, acima de tudo, minimizar a exposição à rede e adotar comportamentos mais amigos da rede e do sistema elétrico — usando a rede como apoio e também fornecendo serviços de flexibilidade.

Um sistema elétrico cada vez mais dominado pela solar não pode depender apenas de modelos tradicionais, centralizados, de valorização e remuneração. Ao valorizar explicitamente a descentralização, a proximidade e a colocalização, juntamente com a integração de baterias e a eletrificação da procura, a Europa pode sustentar um crescimento robusto da solar, manter incentivos ao investimento e garantir um sistema elétrico resiliente e competitivo.

O potencial transformador da solar está longe de terminado. O que estamos a ver hoje não é um declínio, mas uma transição – uma mudança de um modelo para outro. Com as estratégias e prioridades certas, a desaceleração de 2024 pode revelar-se o início de uma fase mais inteligente, mais rentável e mais sustentável de crescimento da capacidade solar.

Para tornar esta transição sistémica, o próximo Pacote das Redes da Comissão Europeia deve reconhecer explicitamente que minimizar a exposição à rede pode contribuir para reduzir o OPEX e o CAPEX das redes e para a otimização do sistema elétrico, ao mesmo tempo que impulsiona o investimento em renováveis. Ao conceder descontos ou isenções nas tarifas de rede que reflitam os custos evitados em expansão, gestão de congestionamentos e equilíbrio, a Europa pode realmente aproveitar o seu potencial solar descentralizado. Reconhecer este princípio ao nível da UE assegura que a nova procura — centros de dados, veículos elétricos, indústria eletrificada — possa ser satisfeita de forma eficiente com renováveis. Isto transforma a minimização da exposição à rede de uma medida tática numa ferramenta estratégica para a eficiência sistémica, preços captados mais elevados, menores custos globais do sistema e uma implantação mais rápida das renováveis.

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