Anarquia Tory

O labirinto político estabelecido no Parlamento aponta para a evidência de uma crise profunda na consciência e no espírito de uma nação estabelecida e com responsabilidades históricas.

A política britânica está transformada num musical sem música e sem senso. O Parlamento recusa por duas vezes o acordo com a Europa. O Parlamento recusa a saída da Europa sem acordo. O Parlamento elimina a possibilidade de um segundo Referendo. O Parlamento aprova uma extensão do Artigo 50 – uma extensão que poderá ser de três meses ou de dois anos. Por iniciativa do Governo, o Parlamento deverá votar uma terceira vez o acordo reprovado esmagadoramente em duas ocasiões distintas. Entretanto, Ministros votam contra Moções do Governo e a oposição Labour é um spinoff dos anos 70 sem o exotismo das sandálias com meias. O falhanço do Governo
reflecte o declínio de uma elite e a degradação de um sistema político. A Grã-Bretanha dissolve-se entre três nostalgias políticas – a âncora na União Europeia, a ilha offshore da Europa e a Nova Jerusalém Socialista.

A política britânica parece um cavalo numa pantomina, dois homens desarticulados em que as duas partes do animal correm em direcções distintas. A referência da estabilidade, do equilíbrio, da convergência inteligente entre o tempo e a mudança no tempo desaparece no nevoeiro do Canal da Mancha, deixando a Europa isolada e a Grã-Bretanha à deriva. Neste extraordinário tempo, a política britânica revela uma dimensão quase sempre oculta, subtil na sua invisibilidade, mas marca de um certo carácter da nação – o Parlamento como sublimação da política da plebe. Existe um módico amável e gentil que projecta a agressividade de um nativismo político no ambiente inóspito, ruidoso e fatal do Parlamento. A lógica de um Parlamento que se enfrenta face na face, olhos nos olhos, arrasta uma lógica cruel em que as opiniões se enfrentam num teste típico de uma experiência Darwinista. Quando o Brexit rasga os
laços que ligam os rochedos brancos de Dover à Europa, as ondas de choque atravessam o floor do Parlamento como o prenúncio de um abismo político iminente.

Em complemento à política da plebe torna-se igualmente perceptível uma certa concepção lúdica da política. O Parlamento é o playground onde as questões políticas são tratadas como um jogo fútil entre crianças, mas um jogo solene, impregnado de
etiqueta, regras e procedimentos que sublimam a anarquia livre e rude de um grupo de jovens no caos típico do Wall Game de Eton. Na lógica do Continente este comportamento político causa perplexidade, choque, incompreensão, pois é o postulado evidente de uma atitude diletante e irresponsável relativamente a matérias políticas de enorme importância com graves e imprevisíveis consequências.

Com o Brexit, a política britânica revela com estranheza alguns constituintes primordiais que a civilização política britânica parecia ter absorvido na sofisticação empírica dos arranjos políticos. Mas não. No Parlamento, a distância, a frieza, o bom senso, dão lugar a uma reserva política instrumental, cínica e cativa de uma posição política específica. A incapacidade para a construção de consensos explode numa profusão de posições políticas impulsionada pela mais pura hipocrisia. O decorum político degenera em snobismo e a persistência política numa infusão em que o orgulho se mistura com a hostilidade e a insolência. O caos do Brexit resulta da confluência de todas as virtudes civis transformadas pela incerteza de uma posição inflexível sem conteúdo político concreto – cada força política tem uma leitura idealizada do horizonte estratégico da saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Em consequência desta dissonância, o Parlamento está transformado no espelho do impasse da nação.

Mas há uma série de questões que voam nos debates do Parlamento e ecoam com estrondo nas cidades e nos campos da Grã-Bretanha. Que identidade perdida persegue o povo da Grã-Bretanha? Que nação pretende a Grã-Bretanha ser, recuperar ou construir? Que lugar no Mundo procura a grande Nação Britânica? É o Brexit a expressão de uma escolha consciente e orgânica de um povo ou o efeito reflexo de uma decisão política contingente e precipitada? O labirinto político estabelecido no Parlamento aponta para a evidência de uma crise profunda na consciência e no espírito de uma nação estabelecida e com responsabilidades históricas.

No entanto, e seja qual for o elenco de respostas, a Grã-Bretanha enfrenta a idade das humilhações. Passado o ponto de não retorno, a decisão política do Parlamento reveste-se da urgência associada aos grandes momentos da História. Neste particular, o génio político britânico sempre soube transformar o caos em expressões de triunfo do espírito da nação. Agora que não há tempo, só resta aguardar que esta geração política entenda as circunstâncias do tempo.

(O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico)

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