Até onde chega o PSD?

Infelizmente, Rui Rio deu mais uma machadada na sua credibilidade como líder de princípios políticos sólidos e coerentes.

Uma crítica habitual que se aponta ao PSD é a indefinição ideológica e a incapacidade de gerar estabilidade de lideranças, ao contrário do que sucede noutros partidos. No entanto, vejo essa constante agitação e transversalidade social como uma das suas grandes riquezas. Tem capacidade de abarcar uma grande amplitude de classes sociais e de ideologias, da social democracia ao liberalismo. Mas, como em tudo, há limites. E o limite está, obviamente, no Chega! e no que este partido pretende representar no cenário político português.

Há no espectro da direita quem relativize isso e um dos grandes argumentos que se vai ouvindo é o de que se o PS se aliou à extrema esquerda não há nenhum motivo para nos chocarmos com acordos de poder entre o PSD e o Chega!. Bem sei que vivemos tempos de relativização moral, mas este tipo de argumento faz-me lembrar aquelas crianças que se portaram mal na escola e que a primeira coisa que dizem para se defenderem é que os colegas de turma também fizeram asneiras…Como se um mal justificasse outro. O facto do PS ter quebrado décadas de consenso em torno do princípio de quem deve formar governo é o partido mais votado, não significa que a partir daí essa deva ser a regra por mais errada que esteja e, muito menos, a qualquer preço.

Tenho notado também alguma dificuldade em explicar a vários pessoas do meu quadrante político aquilo que me parece evidente: apesar de tudo, na atualidade, há diferenças substanciais entre o PCP e o BE e esta “nova” direita que se tem reforçado no mundo e que, felizmente, poderá sofrer um abalo com a queda de Trump. Ao contrário da esquerda que, apesar de não gostar do capitalismo e da economia de mercado, foi aprendendo a conviver com a democracia e com as instituições, esta direita fez o caminho inverso e radicalizou-se. Retomou o culto da personalidade em torno de líderes únicos e demagogos, assenta a sua estratégia de afirmação política na estigmatização de etnias, no desprezo pela diversidade, na desconsideração das minorias, na desvalorização da ciência, na promoção da desinformação, no histerismo justiceiro e securitário e no discurso totalmente anti instituições. Isto não é ser liberal nem conservador. É mero populismo.

Esta “nova” direita de estilo fanfarrão não pode confundir-se ou ser misturada com a verdadeira direita democrática que é, na sua essência, absolutamente defensora da liberdade, da tolerância e dos princípios fundamentais do Estado de Direito Democrático. Esta é, e sempre foi, a matriz do PSD e dá vontade de rir (ou de chorar…) vermos André Ventura a autoassumir-se como herdeiro político de Sá Carneiro. Em coerência com a sua história, isto deveria bastar para o PSD não se misturar.

Não devemos ignorar estes partidos ou silenciar-lhes a voz, mas também não devemos legitimá-los com pactos de governabilidade. Pelo contrário, é imperioso combate-los politicamente e reforçar tudo o que nos distancia deles. Para que nunca haja confusão de direitas. Até porque essa confusão só ajuda a esquerda a unir-se e a manter-se no poder.

Para além de totalmente errada do ponto de vista dos princípios, esta tolerância do PSD em relação ao Chega! Transmite a mensagem que o voto neste partido passou a ser um voto útil no arco da governação. Ou seja, em vez do PSD posicionar-se como único partido com capacidade para destronar o PS procurando absorver uma votação expressiva do centro moderado à direita mais liberal assume-se, prematuramente, derrotado e incapaz de o ser sem o apoio de um partido com pouco mais de um ano de existência e do qual quase nada se sabe para além da figura do seu líder. Esta estratégia não só promove a união da geringonça, como afasta uma série de eleitores do chamado “centro” (decisivos em qualquer eleição) que, obviamente, não estão dispostos a alinhar neste caminho perigoso.

Com este pequeno exemplo insular, Rui Rio tinha a oportunidade de demonstrar que é o que sempre gostou de dizer que é: um líder firme, convicto e de valores intransigentes. Tinha oportunidade de reforçar-se com um estilo diferente de António Costa, que não cede nos seus princípios em prol do poder fácil e imediato. Com isso valorizar-se-ia como uma alternativa sólida e convicta ao atual Governo que, mais tarde ou mais cedo, acabará por cair. Convencido na ilusão de que irá “amestrar” o Chega!, Rio parece esquecer-se que tem neste parceiro político um líder que revela politicamente características de “oportunista esperto” e que muito dificilmente será um parceiro de confiança em prol do interesse do país.

Infelizmente, Rui Rio deu mais uma machadada na sua credibilidade como líder de princípios políticos sólidos e coerentes.

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