Beyond 2017: Revolução digital em contagem decrescente

  • Jorge Nunes
  • 30 Novembro 2017

Acredito que a forma como a eletricidade é gerada e consumida está a alterar-se irreversivelmente para um modelo mais distribuído. O futuro do nosso sistema é descentralizado.

Agora está claro que a forma como a eletricidade é produzida e consumida está a mudar de forma rápida e irreversível para um modelo distribuído. As energias renováveis ​​estão a ser introduzidas na rede mais rapidamente que em qualquer momento anterior. Os painéis solares estão a crescer em popularidade à medida que os custos continuam a cair e a energia fornecida pela rede continua a aumentar. Contadores inteligentes estão a ser implementados dando uma visão única sobre o comportamento do consumidor. Os consumidores estão a ligar dispositivos que permitem um maior controlo do consumo de energia em casa e estão também a produzir energia para si e para rede — tornando-se “prosumidores” (produtores e consumidores).

Este novo paradigma requer um nível significativo de digitalização para funcionar de forma eficiente e eficaz. A “Internet das Coisas” (IoT), a proliferação de sensores, recursos energéticos distribuídos (DERs), gerarão grandes quantidades de dados não estruturados. Tecnologias como a inteligência artificial (AI) atuarão como “cérebro” da gestão ativa da futura rede digital.

Por um lado, o modelo distribuído cria oportunidades em toda a cadeia de valor para consumidores, comercializadores, distribuidores e também novos operadores, mas por outro lado gera alguns riscos:

  • A necessidade de um aumento da flexibilidade do sistema (reforço da rede, interconexões, armazenamento, respostas do lado da procura e fontes de fornecimento flexíveis).
  • Alterações regulatórias e tarifárias que têm impacto na recuperação de custos dos ativos.
  • Redução das receitas à medida que os consumidores de energia deixam de consumir ou consumem fora da rede.
  • Aumento do escrutínio regulatório à medida que o custo de operação da rede é distribuído numa base menor, provocando tarifas mais altas.
  • Perigos de interrupção do negócio por ataques cibernéticos.

A única dimensão que muitas vezes falta ao avaliar o impacto da disrupção impulsionada pela tecnologia é o tempo. Quão rápido irá ocorrer a mudança? Ou, mais precisamente, o que acontecerá, quando e em que ordem? Existe algum ponto de inflexão crítico que possa sinalizar irrevogavelmente uma mudança na dinâmica do mercado? Os operadores têm tempo suficiente para se preparar? Que tecnologias coexistirão?

Para já identifico três pontos de inflexão:

  1. 1º ponto de inflexão — paridade de custo da rede — este é o ponto em que o custo da eletricidade gerada e armazenada localmente é igual ao preço de venda da eletricidade fornecida pela rede.
  2. 2º ponto de inflexão — paridade dos veículos elétricos — marca o tempo em que o preço e o desempenho dos veículos elétricos atingem a paridade com os veículos de combustão. Mais importante ainda, este é o momento em que o armazenamento “atrás do contador” ficará disponível para a maioria dos consumidores
  3. 3º ponto de inflexão — paridade da rede — isso marca o ponto em que o custo puro do transporte de eletricidade excede o custo de gerá-lo e armazená-lo localmente.

O momento destes pontos de inflexão é crítico e as implicações dos mesmos podem ser vastas. Essas implicações exigirão que consumidores, empresas de energia, reguladores e governos façam escolhas que moldarão o futuro cenário energético.

Fundamentalmente, acredito que a forma como a eletricidade é gerada e consumida está a alterar-se irreversivelmente para um modelo mais distribuído. O futuro do nosso sistema é descarbonizado, descentralizado, digitalizado e democratizado. E essa mudança está a ocorrer mais depressa do que pensamos.

Jorge Nunes é partner da EY Portugal

  • Jorge Nunes
  • Partner da EY Portugal

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