Capital de risco, em risco de diversidade?premium

Um trio feminino islandês levantou o maior fundo de capital de risco de sempre no país. A notícia vale por si, revela fossos e, sobretudo, faz pensar em empatia.

O título diz quase tudo. E é título, sobretudo, por ser raro: "Liderança 100% feminina levanta o maior fundo de sempre de capital de risco na Islândia, o Crowberry Capital".

Pois bem: um trio feminino levantou um dos maiores fundos liderados por mulheres na Europa, e o maior fundo de sempre de capital de risco na Islândia. As fundadoras do Crowberry Capital, Hekla Arnardottir, Helga Valfells e Jenny Ruth Hrafnsdottir, são notícia localmente, pelo valor do fundo (90 milhões de dólares para investir em rondas seed e early-stage, que pode ser alargado para mais 40 milhões) mas têm valor notícia por ser raro encontrar este tipo de histórias em todo o mundo. É que, se considerarmos o capital de risco pela maioria do género que o representa, ele seria quase 95% masculino, segundo dados de um relatório da Women in VC, a maior comunidade de investidoras do mundo, que refere que apenas 4,9% de todos os VC partners dos Estados Unidos são mulheres.

A equipa islandesa lançou o seu primeiro veículo de investimento, 40 milhões de dólares, em 2017 e, até agora, já investiu em 15 startups. A verdade é que parece que a raridade: tanto a existência de investidoras mulheres como a existência de startups fundadas por mulheres e, claro, de startups fundadas por mulheres com investimento. E os números podem estar profundamente ligados. É que se considerarmos a empatia um dos ingredientes fundamentais para o envolvimento entre fundadores e investidores, ela será tanto mais forte quanto maior pontos de ligação houver entre as partes.

Em 2020, apesar dos recordes de investimento em venture capital (só nos Estados Unidos, foram investidos 300 mil milhões de dólares), apenas 2,3% do investimento foi para startups lideradas por mulheres. A percentagem, mais baixa do que em 2019, contrapõe os resultados de um estudo divulgado há apenas três anos pela consultora BCG e pela incubadora norte-americana MassChallenge, que concluía que as startups lideradas por mulheres tinham duas vezes mais probabilidades de serem bem-sucedidas por comparação com as demais e geravam 10% mais dividendos, dois número que são relevantes na hora de investir em ideias ou negócios. Nos países nórdicos, em 2019, as startups fundadas por mulheres receberam apenas 1,3% do capital investido nesse ano. Um terço das empresas investidas pelo fundo de estreia do Crowberry têm mulheres como fundadoras. Dias antes, o maior fundo europeu fundado por mulheres, o francês Revaia, anunciava ter fechado um novo fundo de 250 milhões de euros.

A pergunta mais óbvia quando se olha para notícias destas é questionar a preocupação destas investidoras em fazerem crescer o seu portefólio com empresas com lideranças semelhantes, em termos de género. Só que não é esse o caso. Pelo menos, não apenas. "Não queremos criar uma liga feminina e uma liga masculina. Há muitos outros fundos que têm estado no ecossistema há já muito tempo. E queremos estar totalmente integradas nesse ecossistema", aponta Hrafnsdottir, no artigo publicado pela Sifted, sublinhando que, "por outro lado, há uma enorme oportunidade no mercado porque há muitos fundadores que não estão a conseguir ter investimento".

O fundo, que tem o compromisso de apoiar fundadores que, tradicionalmente não têm tido acesso a capital, não quer estar apenas ligado ao foco da diversidade. "Oxalá possamos acelerar a diversidade mas, no final do dia, o nosso objetivo é investir em ótimas empresas tecnológicas, e fazer dinheiro para os nossos LPs", assinala Valfells.

Se a diversidade é objetivo secundário em vez de principal, não importa. Porque, neste caso, o walk the talk está garantido: serão sempre "elas" a investir.

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