Como uma empresa se levanta depois de uma calamidade
Em 2017, vi as nossas fábricas em cinzas. Enquanto houver pessoas há reconstrução mas o caminho é duro e esconde ilusões e armadilhas.
Há uma frase que muitos de nós ouviram em criança depois de um acidente. A voz tremida, mas firme, do pai ou da mãe a dizer: “Foi só um carro? Então ainda bem. É só chapa.” Em 2017, quando vi as nossas fábricas em cinzas, essa frase voltou-me à cabeça com outra gravidade. Não era um carro. Não era só chapa. Eram anos de trabalho, equipas inteiras, rotinas, identidade. Mas a essência da frase mantinha-se. Enquanto houver pessoas, há reconstrução. Tudo o resto é material. O choque não é o que se perdeu. É perceber que a vida continua mesmo quando tudo aquilo que a suportava desaparece.
A partir daí, a empresa entra num território estranho. O território onde os planos deixam de fazer sentido e a liderança deixa de ser discurso. Passa a ser presença. Estar quando não há respostas. Assumir decisões difíceis sem garantias. Dizer a verdade mesmo quando dói. Aprende-se rapidamente que a pressa é um erro caro e que “voltar ao normal” é uma ilusão perigosa. Reconstruir igual é preparar a próxima queda. Reconstruir melhor exige cabeça fria num momento emocionalmente quente.
Há um custo invisível que raramente aparece nos relatórios. Um ano de vida pode desaparecer. Um ano a refazer o que já existia, a recuperar fôlego, a aceitar que não se está a avançar, está-se a sobreviver. É aqui que muitas empresas falham. Não por falta de competência técnica, mas por esgotamento humano. A calamidade não destrói apenas estruturas. Testa paciência, caráter e cultura. Quem não cuida disso perde pessoas antes de perder edifícios.
A revolta é natural. Ignorá-la é deixá-la apodrecer. Orientá-la é transformá-la em foco, exigência e ambição coletiva. É nesse momento que se descobrem pessoas que nunca tinham aparecido, lideranças improváveis, uma força interna que estava adormecida pelo conforto.
O ponto de viragem surge quando se decide agir com método. Primeiro, estabilizar sem ilusões de crescimento rápido. Depois, reconstruir com critério, pensando no próximo impacto e não apenas no último. Comunicar sempre, mesmo quando não há boas notícias. E, sobretudo, canalizar a revolta. A revolta é natural. Ignorá-la é deixá-la apodrecer. Orientá-la é transformá-la em foco, exigência e ambição coletiva. É nesse momento que se descobrem pessoas que nunca tinham aparecido, lideranças improváveis, uma força interna que estava adormecida pelo conforto.
No fim, a frase volta a fazer sentido. Não no tom leve de quem minimiza a dor, mas na lucidez de quem percebe o essencial. Não foi só chapa. Nunca é. Mas enquanto as pessoas estão de pé, tudo o resto é reconstruível. Uma empresa não é definida pela calamidade que enfrenta. É definida pela resposta que constrói depois. E essa resposta, quando bem feita, transforma perda em identidade e fragilidade em força duradoura.
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