Como uma empresa se levanta depois de uma calamidade

  • João Figueiredo
  • 17:42

Em 2017, vi as nossas fábricas em cinzas. Enquanto houver pessoas há reconstrução mas o caminho é duro e esconde ilusões e armadilhas.

Há uma frase que muitos de nós ouviram em criança depois de um acidente. A voz tremida, mas firme, do pai ou da mãe a dizer: “Foi só um carro? Então ainda bem. É só chapa.” Em 2017, quando vi as nossas fábricas em cinzas, essa frase voltou-me à cabeça com outra gravidade. Não era um carro. Não era só chapa. Eram anos de trabalho, equipas inteiras, rotinas, identidade. Mas a essência da frase mantinha-se. Enquanto houver pessoas, há reconstrução. Tudo o resto é material. O choque não é o que se perdeu. É perceber que a vida continua mesmo quando tudo aquilo que a suportava desaparece.

A partir daí, a empresa entra num território estranho. O território onde os planos deixam de fazer sentido e a liderança deixa de ser discurso. Passa a ser presença. Estar quando não há respostas. Assumir decisões difíceis sem garantias. Dizer a verdade mesmo quando dói. Aprende-se rapidamente que a pressa é um erro caro e que “voltar ao normal” é uma ilusão perigosa. Reconstruir igual é preparar a próxima queda. Reconstruir melhor exige cabeça fria num momento emocionalmente quente.

Há um custo invisível que raramente aparece nos relatórios. Um ano de vida pode desaparecer. Um ano a refazer o que já existia, a recuperar fôlego, a aceitar que não se está a avançar, está-se a sobreviver. É aqui que muitas empresas falham. Não por falta de competência técnica, mas por esgotamento humano. A calamidade não destrói apenas estruturas. Testa paciência, caráter e cultura. Quem não cuida disso perde pessoas antes de perder edifícios.

A revolta é natural. Ignorá-la é deixá-la apodrecer. Orientá-la é transformá-la em foco, exigência e ambição coletiva. É nesse momento que se descobrem pessoas que nunca tinham aparecido, lideranças improváveis, uma força interna que estava adormecida pelo conforto.

O ponto de viragem surge quando se decide agir com método. Primeiro, estabilizar sem ilusões de crescimento rápido. Depois, reconstruir com critério, pensando no próximo impacto e não apenas no último. Comunicar sempre, mesmo quando não há boas notícias. E, sobretudo, canalizar a revolta. A revolta é natural. Ignorá-la é deixá-la apodrecer. Orientá-la é transformá-la em foco, exigência e ambição coletiva. É nesse momento que se descobrem pessoas que nunca tinham aparecido, lideranças improváveis, uma força interna que estava adormecida pelo conforto.

No fim, a frase volta a fazer sentido. Não no tom leve de quem minimiza a dor, mas na lucidez de quem percebe o essencial. Não foi só chapa. Nunca é. Mas enquanto as pessoas estão de pé, tudo o resto é reconstruível. Uma empresa não é definida pela calamidade que enfrenta. É definida pela resposta que constrói depois. E essa resposta, quando bem feita, transforma perda em identidade e fragilidade em força duradoura.

  • João Figueiredo
  • CEO - CarmoWood|Form

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Como uma empresa se levanta depois de uma calamidade

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião