Depois do lugar à mesa…

  • Inês Palma Ramalho
  • 4 Maio 2022

As mulheres portuguesas parecem ter ganho um lugar à mesa dos “crescidos” mas, demasiadas vezes, não são parte do núcleo duro da decisão.

Nos últimos 30 anos as mulheres foram conquistando o seu lugar no mercado de trabalho. Paulatinamente, infiltraram-se em profissões tradicionalmente masculinas, como polícias e bombeiros, reforçando o facto óbvio que a força física não é o único atributo relevante para este tipo de carreiras. E se, nestas funções ainda não são a maioria, isso já sucedeu em diversas outras profissões outrora (quase) reservadas a homens. Segundo a Pordata, as mulheres hoje já representam a maioria dos médicos, dos advogados, dos magistrados, entre tantos outros exemplos.

Estas “vitórias laborais” (o parênteses justifica-se por que classificar como “vitória” o facto de as mulheres poderem ter acesso a mais profissões hoje do que antigamente não deixa de ter a sua graça) também são o resultado dos números da educação. Hoje sabe-se que as mulheres (ou, neste caso, as meninas), por comparação com os rapazes, são quem menos abandona a escola e quem frequentemente apresenta melhores resultados. E, seja porque amadurecem mais depressa na adolescência ou simplesmente porque (ainda) parecem ter muito a provar, a verdade é que elas se destacam cedo e mais depressa se focam em tarefas que exigem estudo e concentração, o que costuma resultar em melhores notas e, consequentemente, mais facilidade no acesso aos cursos superiores mais disputados ou a notas finais de curso mais apetecíveis na hora das entrevistas de emprego e dos procedimentos concursais.

Ora, tudo isto tem permitido que as mulheres reclamem o seu lugar à mesa. Isto e muito mais, na verdade. A diversidade parece ter, finalmente, ganho tração como tema de conversa e, mais importante, como agenda transversal a todas as forças políticas. Ora, por cá não se pode falar de diversidade, sem falar de empowerment feminino, porque Portugal está ainda demasiado longe de se poder proclamar como um campeão da paridade. Por isso é que, devagar, muito devagar, as mulheres portuguesas que querem ter carreiras profissionais de destaque vão aparecendo, cada vez mais, nos conselhos de administração, nas chefias e noutros lugares cimeiros do seu setor profissional.

Ainda assim, podemos dizer que estamos perante uma paridade relutante e envergonhada, construída por decreto e não por evolução cultural. As mulheres portuguesas parecem ter ganho um lugar à mesa dos “crescidos” mas, demasiadas vezes, não são parte do núcleo duro da decisão. Todas as mulheres se queixam (e conhecem outras tantas que se queixam também) de colegas, chefes ou até subordinados (todos homens, entenda-se) que as interrompem nas reuniões com observações desnecessárias, que tentam dominar discussões de projetos ou reuniões que não foram chamados a liderar ou que emitem comentários condescendentes ou paternalistas na primeira oportunidade que (acham que) se lhes apresenta. Isto é tão frequente, mas tão frequente, que quase aposto que as mulheres que possam ter chegado até este ponto do meu texto, já se lembraram, pelo menos, de uma ocasião em que isto lhes aconteceu no último ano. Ou de dez.

Esses momentos de mansplaining, manologuing ou manterrupting a que assistimos são o equivalente a parar o vento com as mãos, mas isso não significa que deixem de ocorrer frequentemente, de ser desagradáveis para todos e, sobretudo, de serem integralmente dispensáveis. As mulheres não querem substituir os homens, só querem poder “ir a jogo” em condições de igualdade.

Por isso, agora que temos um lugar à mesa… Que tal deixarem-nos falar?

  • Inês Palma Ramalho
  • Associada principal na Sérvulo & Associados

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