Diversidade cognitiva: certeza e interrogações

  • João Paulo Feijoo
  • 28 Janeiro 2020

A diversidade deve estender-se a dimensões cognitivas: interesses e preferências, traços personalísticos, matrizes culturais, formas de perceber a realidade e de valorizar atitudes perante o risco.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 podiam ter sido evitados. A CIA dispunha de informação mais do que suficiente para detetar a sua preparação e fazê-la abortar. Contudo, a forte homogeneidade dos seus analistas – praticamente todos homens, brancos, de classe média-alta e recrutados nas melhores universidades – deixou-os cegos em relação aos indícios e impediu-os de os relacionar numa ameaça coerente.

Para mitigar os riscos desta homogeneidade excessiva precisamos de um muito maior grau de diversidade nas organizações. A diversidade “demográfica” – de género, de idade, de etnia ou país de origem, de orientação sexual – é um imperativo moral contra a discriminação mas não chega, só por si, para evitar a identidade de perspetivas e formas de pensamento. É preciso que a diversidade se estenda a estas e outras dimensões cognitivas: interesses e preferências, traços personalísticos, matrizes culturais, formas de perceber a realidade e de valorizar essas perceções, atitudes perante o risco, etc.. Só este grau de diversidade é capaz de gerar visões e abordagens distintas, produzir ideias inovadoras, tomar melhores decisões e resolver eficazmente os problemas crescentemente complexos e desconhecidos que enfrentamos.

A médio e longo prazo a diversidade cognitiva é também – por analogia com a biodiversidade dos ecossistemas – capital de evolução e seguro de vida contra choque disruptivos, pois aumenta a probabilidade de algumas das suas dimensões serem positivamente selecionadas de forma a assegurar a continuidade das organizações.

Não é fácil consegui-lo. Uma cultura organizacional forte que “filtra” (no recrutamento ou por retenção seletiva) uma força de trabalho alinhada pelos mesmos valores e pelas mesmas convicções pode ser um obstáculo. É fundamental examinar que valores e convicções são esses: o culto da conformidade? O sentimento de arrogante superioridade de quem chegou a “número um” da sua indústria? Ou a promoção da curiosidade, da tolerância, da procura das diferenças enriquecedoras?

A diversidade cognitiva é algo cuja superfície mal começámos a arranhar, e põe-nos questões que apenas julgamos entrever. Será possível haver diversidade em excesso? E nesse caso, qual será o seu ponto ótimo? Poderá a inteligência artificial contribuir para a diversidade cognitiva? (muitíssimo, a julgar pelos progressos dos campeões de Go depois de confrontados com as surpreendentes jogadas dos supercomputadores que os bateram).

Mas estes são temas para outra oportunidade.

*João Paulo Feijoo é consultor e coordenador da área de Capital Humano da Autónoma Academy e membro da direção da APG

  • João Paulo Feijoo

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