Estamos sob vigilância

Foi exposta na imprensa uma base de dados gigante com a localização exata de 12 milhões de telemóveis ao longo de vários meses. O caso gera muitas dúvidas e uma única certeza: estamos a ser vigiados.

Edward Snowden denunciou as práticas condenáveis de vigilância em massa dos cidadãos pelas autoridades dos EUA. Mas novas informações mostram que empresas privadas estão a fazer o mesmo e sem qualquer tipo de escrutínio. Pior: sem qualquer mecanismo legal que as impeça.

Esta sexta-feira, o The New York Times serviu finalmente uma investigação que estava a cozinhar há meses. Dois jornalistas obtiveram uma mega base de dados com 50 mil milhões de entradas, referentes às localizações do GPS de 12 milhões de telemóveis de cidadãos norte-americanos. É a maior e mais sensível fuga de informação deste género alguma vez exposta na imprensa.

Basta citar algumas linhas para mostrar a dimensão do que está em causa: “Uma pesquisa mostrou mais de uma dezena de pessoas a visitarem a Mansão da Playboy, algumas durante a noite. Com pouco esforço, localizámos visitantes às propriedades de Johnny Depp, Tiger Woods e Arnold Schwarzenegger”, escrevem Stuart A. Thompson e Charlie Warzel.

E arriscam mesmo dizer: “Se visse os dados todos, provavelmente nunca voltaria a usar o seu telemóvel da mesma forma.”

Ler este trabalho é acordar para a distopia tecnológica em que vivemos. É concluir que a privacidade é um mito. Uma desilusão, mesmo para quem já apregoa que a privacidade tornou-se num luxo, apenas ao alcance das carteiras de alguns: os dados obtidos pelo jornal abrangem indivíduos de todos os estratos sociais, desde os mais pobres aos multimilionários. Desde o mais comum dos cidadãos anónimos a um alto responsável do Departamento de Justiça dos EUA, que o The New York Times conseguiu identificar.

A base de dados não veio de uma operadora de telecomunicações nem de uma agência governamental. Os jornalistas não revelam a fonte, mas apontam tratar-se de uma empresa cujo negócio é a venda deste tipo de informação.

Estes dados pessoais, explicam, são recolhidos pelos nossos telemóveis, por aplicações como a da meteorologia. É um mercado a funcionar em tempo real: em alguns casos, a nossa localização é recolhida, armazenada e vendida a terceiros em milésimos de segundo.

Muito mais havia a dizer. Mas a conclusão é sempre a mesma: vivemos com pequenos espiões nos nossos bolsos. À noite, pomo-los nas nossas mesas de cabeceira. E dificilmente vai ser diferente, por mais medidas de segurança que tomemos.

Resta-nos considerar que estamos a ser vigiados a todo o momento, a todo o instante. E que nem o maior dos paranóicos irá conseguir escapar.

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António Costa

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