“Fundadoras” são capital de riscopremium

Os 12 maiores fundos de capital de risco europeus investiram apenas 13% do capital total dos últimos cinco anos em startups fundadas por mulheres. Capital de risco, um mundo de homens?

Apenas 13% dos investimentos feitos por fundos de capital de risco na Europa, desde 2017, foram para startups fundadas por mulheres. A pouco mais de uma semana do regresso do Web Summit, em formato presencial, a Lisboa, numa altura em que as startups preparam o seu melhor pitch para não deixarem passar a oportunidade de estarem no mesmo espaço que centenas de investidores de todo o mundo, a Sifted divulga uma análise sobre os fundos de capital de risco que, nos últimos anos, investiram em mulheres e em projetos liderados por mulheres.

Os dados da publicação do portefólio do Financial Times expõem ainda mais aquilo que já se sabia e, também por isso, aquilo para que vale sempre a pena olhar outra vez e tentar perceber: como noutras esferas dos negócios e do mundo, as mulheres estão em clara desvantagem quando se trata, até, de analisar as hipóteses de as suas startups e negócios serem investidos por fundos de capital de risco. E isso tem, naturalmente, impacto, na forma como conduzem os seus negócios, falham, voltam a tentar, e na forma como, numa fase inicial, olham para a oportunidade de começarem algo novo, um ato tão "inacessível" ou "difícil de enquadrar". Simplificando: arriscar, para as mulheres, é mais difícil. Também no empreendedorismo.

E, ainda que alguns anúncios recentes deem conta de que há mais mulheres, pelo menos a um nível mediático, e mais fundos a falar sobre a importância de apoiarem fundadoras e as suas empresas, afinal os investidores estão mesmo a colocar o dinheiro onde têm a boca?

A Sifted explica que, analisando os dados de investimento dos 12 maiores fundos de capital de risco da Europa (escolhidos a partir do 2021 European Capital Report) dos últimos cinco anos e referentes ao número de cofundadoras mulheres que estes fundos financiaram entre 2017 e 2021, do total de cerca de 190 mil milhões de euros de investimento, 187,1 mil milhões foram para startups apenas com homens como fundadores e que, do total, apenas 2,5 mil milhões foram para startups com uma ou mais mulheres na equipa de fundadores.

Esta discrepância pode encontrar alguma justificação na fonte: ou seja, pelo facto de, no ecossistema empreendedor europeu, haver muito menos fundadoras mulheres do que fundadores homens (segundo dados do Startup Heatmap, revelados no final do ano passado, apenas 15,5% dos empreendedores na Europa são mulheres); ou também por, no Velho Continente, o número de investidoras mulheres ser muito inferior ao dos homens (de acordo com um estudo do Babson College, citado pela European Women in VC, na última década a percentagem de mulheres partners categorizadas como decisoras em fundos de capital de risco desceu de 10% para 6%).

O fundo que mais investiu em mulheres na Europa, nos últimos cinco anos, é o BGF (Business Growth Fund, inicialmente) que, em 265 investimentos, viu potencial e colocou financiamento em 24 startups cofundadas por mulheres. No extremo oposto da análise está o Earlybird que, desde 2017, investiu apenas num projeto com uma mulher cofundadora e que, por coincidência, não tem qualquer mulher como investidora num fundo onde investem 15 homens, segundo o site oficial.

O investimento em capital de risco tem crescido, nos últimos anos. Em 2021 e, de acordo com dados do Crunchbase, as startups europeias registaram financiamentos em capital de risco de valores inéditos: 59 mil milhões no primeiro semestre de 2021, o que reflete mais 18,5 mil milhões do que na primeira metade de 2020 e, mais 24,5 mil milhões do que na segunda metade desse ano. Rondas de milhões, em startups em toda a Europa, Portugal incluído, são anunciadas quase todas as semanas, convertendo negócios de rápido crescimento em animais mágicos como unicórnios -- empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares -- a cada poucos dias. Recordes que continuam a expor a ausência de mulheres no ecossistema, na dinâmica empreendedora de todos os dias e na forma como, no final, os negócios são conduzidos. Que continuam a demonstrar que investir em mulheres é, para os investidores, o "maior risco de todos": porque nos recusamos a olhar para as fundadoras de ponto de vista da essencial, o da diversidade necessária para equilibrar o mundo.

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