Governação Sistémica: Redefinir Riscos Estruturais

  • Helena Chaves Anjos
  • 7 Janeiro 2026

Helena Chaves Anjos explica que, perante riscos mais convergentes, a conjugação da inovação técnica, colaboração intersectorial e modelização avançada permite criar um sistema financeiro mais robusto.

Num contexto de rápidos avanços da inteligência artificial, agravamento das catástrofes naturais, tensões geopolíticas persistentes e pressões demográficas, os riscos emergentes tornam-se cada vez mais convergentes. Esta redefinição de riscos estruturais obriga o setor segurador a repensar produtos, processos e modelos operacionais, evidenciando o desafio central, estrutural e sistémico.

Riscos Convergentes

A maior frequência, intensidade e convergência destes riscos expõem as limitações dos modelos tradicionais de avaliação, muitas vezes incapazes de captar a complexidade e a interdependência dos sistemas económicos, sociais e ambientais. Estes choques manifestam-se nos seguros através de riscos físicos imediatos — como incêndios ou inundações, em Portugal — mas também por meio de riscos de transição, financeiros e não financeiros, de longo prazo, decorrentes de alterações estruturais, cuja avaliação isolada e gestão segmentada se têm revelado insuficientes, comprometendo a solvência e a sustentabilidade das carteiras de seguros de Vida e Não-vida.

Um cenário que evidencia a necessidade urgente de uma governação integrada, capaz de antecipar choques, promover resiliência partilhada e alinhar decisões estratégicas, regulatórias e de investimento com os desafios de longo prazo do setor segurador. Um recente relatório sobre Sustainability Leadership, do Cambridge Institute, sublinha precisamente a necessidade de uma governação sistémica coordenada, propondo recomendações críticas para as instituições financeiras, como seguradoras, bancos, investidores e reguladores. Este estudo salienta a urgência de abordagens de prevenção e adaptação, capazes de reforçar a resiliência partilhada do setor segurador, do sistema financeiro e da sociedade em geral.

Governação Sistémica

O impacto destas tendências é particularmente relevante no contexto de sustentabilidade e longevidade. Desastres naturais, alterações climáticas e choques estruturais afetam a condição de saúde, a expectativa de vida e a própria solvência das seguradoras. Nesse sentido, torna-se imperativo desenvolver soluções ágeis e produtos flexíveis, suportados por estratégias de investimento de longo prazo e mecanismos integrados que considerem simultaneamente riscos financeiros, demográficos e ambientais. As seguradoras, pela sua capacidade de avaliar riscos e mobilizar capital, ocupam uma posição singular ao funcionar como sistemas de alerta precoce, podendo transformar a antecipação em resiliência social e financeira.

O redesenho da governação de riscos sistémicos passa pela integração de técnicas avançadas e modelos dinâmicos de gestão de riscos que reflitam os desafios de longo prazo. As orientações sobre governação de riscos sistémicos permitem redesenhar um roteiro robusto para que seguradoras e instituições financeiras incorporem pensamento sistémico na gestão de risco, nos investimentos e na supervisão prudencial. Na
prática, a governação sistémica envolve etapas estratégicas de reforço da abordagem de longo prazo:

  • Mapear interdependências críticas entre setores e geografias, identificando vulnerabilidades e oportunidades de diversificação de risco, incluindo exposições nacionais e internacionais que podem amplificar choques estruturais de longo prazo;
  • Desenvolver cenários dinâmicos, considerando interações climáticas, demográficas, tecnológicas e regulatórias, permitindo antecipar impactos sistémicos e preparar respostas institucionais adequadas;
  • Definir limites de tolerância ao risco, reconhecendo vulnerabilidades ingovernáveis não são apenas físicas, mas sociais e económicas, que afetam as comunidades e sistemas financeiros de forma distinta;
  • Fomentar colaboração intersectorial, através de parcerias público-privadas que integrem seguros, crédito e investimentos em resiliência climática e financeira, reduzindo vulnerabilidades sistémicas e promovendo estabilidade financeira;
  • Monitorizar e adaptar riscos continuamente, utilizando dados em tempo real para ajustar políticas, produtos e decisões de investimento, permitindo ciclos contínuos de aprendizagem, adaptação e resiliência em todo o sistema.

Orientação e supervisão estratégica

A transição climática associada à transição demográfica introduzem riscos sistémicos prolongados, afetando padrões de produção, financiamento e poupança, com impacto na economia e na evolução dos seguros Vida e Não-vida, com necessidade crescente de capital de longo prazo. Cenários demográficos com envelhecimento acelerado e queda da população em idade ativa pressionam a regulação, especialmente para pequenas e médias seguradoras expostas a concentrações locais de risco.

Os choques externos, de acordo com modelos de análise integrado, transmitem-se através de múltiplos canais, com impacto na liquidez, capital e risco prudencial, especialmente nos seguros Vida e Saúde. Alterações nas preferências dos consumidores por instrumentos de baixo risco reduzem spreads e aumentam a concentração em dívida soberana, enquanto a urbanização intensifica riscos imobiliários e de colateralização.

A longevidade prolongada aumenta os requisitos de capital, pressiona a liquidez dos produtos flexíveis e aumenta a sinistralidade e dependência em Saúde, agravando os riscos prudenciais de crédito, mercado, subscrição e operacional. Neste contexto, a governação e supervisão devem incorporar cenários climáticos e demográficos integrados como drivers estratégicos na avaliação de risco, gestão de ativos-passivos e testes de resiliência. O desenvolvimento de um pensamento sistémico permite antecipar, mitigar e adaptar a gestão aos choques externos, transformando a resiliência numa competência estratégica e estrutural. Produtos e instrumentos inovadores, como seguros paramétricos ou “resilience bonds”, funcionam como mecanismos de transferência de risco e catalisadores de adaptação económica, financeira e social. A integração de modelização avançada, testes intersectoriais e dados partilhados permite uma visão holística, alinhando decisões de investimento, subscrição e regulação com objetivos de resiliência sistémica.

Este enquadramento reforça a capacidade do setor segurador antecipar choques e converter riscos estruturais em oportunidades estratégicas de inovação, estabilidade e sustentabilidade. O modelo conceptual, de suporte à operacionalização destas etapas, disponível sob consulta, possibilita uma análise aprofundada para instituições interessadas em reforçar a governação e supervisão de riscos de longo prazo.

Conclusão integrada

A governação de riscos de longo prazo exige hoje uma abordagem intersectorial estruturada e institucional integrada, capaz de responder a choques sistémicos cada vez mais complexos e interdependentes. Neste contexto, as recomendações em análise identificam os desafios críticos que importa atender de forma integrada:

  1. Expandir a inovação financeira: Diversificar instrumentos tradicionais, como seguros paramétricos e veículos de capital híbridos, integrando seguradoras, bancos, investidores e capital social para reforçar resiliência e liquidez pós-catástrofe.
  2. Apoiar a gestão de risco integrada: Operar em plataformas integradas de dados e modelos, permitindo análises sistémicas e alertas precoces dos impactos intersectoriais.
  3. Melhorar a modelização avançada e integrada: Combinar dados económicos, climáticos e demográficos em tempo real, aplicando métodos inovadores para identificar feedbacks, pontos cegos e novos riscos emergentes.
  4. Expandir incentivos intersectoriais: Alinhar políticas de mercado e regulatórias para recompensar decisões de prevenção, antecipação e redução ativa de risco.
  5. Incorporar pensamento sistémico na governação de riscos: Institucionalizar práticas de supervisão e gestão de risco com foco na resiliência social, incorporando cenários demográficos e climáticos nas decisões estratégicas.

Estas medidas não constituem apenas recomendações técnicas, mas uma convocatória para o setor segurador e o sistema financeiro adotarem uma visão integrada. Ao transformar a resiliência num princípio estrutural, as instituições financeiras, em particular as seguradoras, podem desempenhar um papel central na antecipação de riscos sistémicos, protegendo não só os seus clientes e acionistas, mas também a sociedade
e a estabilidade financeira global.

Perante riscos emergentes cada vez mais convergentes, a conjugação da inovação técnica, colaboração intersectorial e modelização avançada pode permitir criar um sistema financeiro mais robusto, capaz de enfrentar os desafios de longevidade, as alterações climáticas e os potenciais novos choques estruturais. Este é o caminho para uma economia mais sustentável, resiliente e preparada para o futuro — que não reage apenas aos eventos, mas que redesenha a governação e supervisão de riscos de longo prazo forma sistémica, estratégica e responsável.

  • Helena Chaves Anjos
  • Economista e Mestre em Finanças. Especialista em gestão de risco nos seguros

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