Habitação e Defesa são as prioridades para 2026
Que país queremos ser em 2043, quando celebrarmos 900 anos do tratado de Zamora e do nascimento de Portugal?
Os portugueses terminam 2025 com um sabor agridoce: crescimento económico acima da media europeia e maior consumo das famílias (que sentiram o alívio de descida dos juros do BCE), por um lado, e uma preocupação acrescida com o acesso à habitação, cujos preços não param de aumentar, por outro lado.
A habitação cara é um problema social grave que urge resolver, com a intervenção possível de um governo que, obviamente, acredita no mercado, mas que entenderá que existe um risco real de explosão social a prazo. Ora, o arrefecimento da bolha imobiliária só acontecerá com maior oferta, sobretudo para o mercado nacional. E quem conseguir resolver ou atenuar essa dor de cabeça das famílias e das empresas portuguesas, recolherá o reconhecimento de boa parte da população.
Essa intervenção pode fazer-se através de mais licenciamentos e nova construção (o que demora até haver casas prontas) e de alterações no modelo vigente de arrendamento que terá de ser facilitado rapidamente para as jovens famílias lusitanas. Não se trata apenas de uma questão de justiça social; é uma questão de fundo na retenção e captação de talento jovem e na necessária e desejada mobilidade dos trabalhadores nas cidades em todo o território nacional.
Os jovens recém-licenciados ou em situação de primeiro emprego continuam a ser aliciados por melhores ofertas de salário em vários destinos europeus e só ficarão em Portugal se conseguirem ter casa e um ordenado melhor.
E as empresas conseguirão pagar melhor, se houver maior produtividade e trabalhadores mais motivados, mas, para isso acontecer, tem de haver trabalhadores que consigam viver a uma distância razoável do seu posto de trabalho. É uma pescadinha de rabo na boca que afecta o crescimento económico e causa tensão social.
A outra prioridade, num prazo mais curto do que o longo (que imaginávamos ainda há poucos anos) é a defesa e a segurança em Portugal e na União Europeia. Em breve, assinalaremos quatro anos de guerra no Leste Europeu, com a invasão russa à Ucrânia. Hoje, o perigo de alastramento do conflito a outros alvos europeus é real, mas é bom que os portugueses não pensem que “isso não chega cá porque estamos na ponta ocidental da Europa”.
Portugal tem uma enorme plataforma marítima no Atlântico – entre Açores, Madeira e continente – e deve ser capaz de defender os seus recursos naturais e o seu espaço vital. Se não dermos sinais de que conseguimos defender o que é nosso, assistiremos a médio prazo à repetição do “mapa cor-de-rosa” e ao ultimato do final do século XIX. Os espaços vazios são sempre ocupados por quem tem maior força e nós não devemos continuar a falar do potencial geoestrategico só nos discursos políticos.
Investir na defesa e na segurança nacional tem a vantagem de dinamizar a economia porque temos várias empresas de uso dual como, por exemplo, nos setores do calçado, vestuário, agroalimentar ou tecnológico. E devemos investir em novos navios e lanchas-rápidas, aviões e artilharia, além de reabilitar quartéis ou então dar-lhes devido uso civil, em vez de estarem ao abandono (ex: Vila Franca de Xira ou Santarém).
Passaram longos anos desde que terminou o SMO (serviço militar obrigatório) e não vejo qual o sentido de “libertar” os jovens de uma experiência ou aprendizagem militar e da importância de treino básico de defesa ou de manuseamento de armas, em caso de ataque. A Europa sempre viveu em guerra e estas décadas, desde 1945, têm sido um luxo, com a exceção da antiga Jugoslávia e agora da Ucrânia. Mas, realisticamente, pensar que viveremos eternamente em paz é utópico e pouco prudente.
Tivemos muitos anos a limpar as armas e isso é positivo. Mas as gerações que tiveram treino militar ou experiência de guerra estão a ficar mais velhas e o país deve investir na profissionalização dos militares e no treino regular da população, como quase toda a Europa está a fazer.
A melhor forma de prevenir a guerra é assegurar a paz e a nossa capacidade de nos defendermos. Se alguma potência atacasse cabos submarinos ou territórios dos nossos arquipélagos atlânticos, qual seria a nossa capacidade de defesa?
Ao entrar em 2026, entramos no segundo quarto de século deste milénio. Que estratégia temos para o país nos próximos 20 ou mesmo 10 anos? O que queremos atingir (crescimento de 3% a 5% ao ano) e o que queremos evitar (irrelevância total económica e geopolítica)? Que país seremos em 2050? Como escrevi várias vezes noutro projeto editorial, que país queremos ser em 2043, quando celebrarmos 900 anos do tratado de Zamora e do nascimento de Portugal?
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