IFRS 17: Quem ousa usá-la?
Nuno Oliveira Matos teme que a reação das seguradoras à IFRS 17 seja o desperdiçar um dos maiores investimentos de transformação da história do setor.
Há normas de relato financeiro que mudam a forma como se preenchem divulgações. E há outras que mudam a forma como se pensa. A IFRS 17 “Contratos de seguro” pertence claramente ao segundo grupo.
Depois de anos de projetos faraónicos, equipas exaustas, consultores felizes e investimentos que fariam corar alguns concursos públicos, o setor segurador entrou na tão aguardada “fase pós-implementação”. Mas o ambiente não é de celebração. É de perplexidade. A promessa de clareza e consenso, repetida como mantra durante uma década, continua mais perto da ficção do que da realidade.
Convém esclarecer, desde já, que este artigo de opinião não é um ataque à IFRS 17. É um espelho. E o que o espelho mostra é um setor que correu uma maratona para parar agora hesitante à porta da meta.
A ambição era nobre, a de revelar a verdadeira economia da empresa de seguros e permitir comparações transparentes entre congéneres. O resultado, porém, é um paradoxo desconfortável, pois nunca houve tanta informação e nunca foi tão difícil compará-la.
O exemplo dos resultados de contratos de seguros é quase caricatural. A norma permite escolhas legítimas e cada empresa de seguros usa essa liberdade para construir uma narrativa impecavelmente coerente… consigo própria. O mercado, esse, tenta montar um puzzle, onde cada peça pertence a uma caixa diferente.
A sofisticação aumenta, o consenso evapora-se. Não é um erro técnico da norma. É a consequência inevitável de aplicar princípios comuns a um setor estruturalmente heterogéneo.
Há quem conclua que a convergência nunca virá. É uma conclusão preguiçosa. O que estamos a viver é uma adolescência normativa, derivado de uma implementação rápida e de muita experimentação. As empresas de seguros ainda estão a aprender a falar IFRS 17. Os analistas ainda estão a aprender a ouvir. Os auditores ainda estão a aprender a interpretar.
E se o consenso não surgir espontaneamente, surgirá por pressão. Investidores, práticas dominantes ou até regulação indireta acabarão por estreitar a latitude atual. A comparabilidade não é um luxo académico; é um determinante do custo de capital. Ignorá-lo é brincar com fósforos perto de gasolina.
O verdadeiro problema não é a IFRS 17. É o setor.
A IFRS 17 não falhou. O setor é que ainda não decidiu se quer usá-la como ferramenta de gestão ou apenas como mais um ritual de conformidade.
O maior risco estratégico hoje é continuar a tratar a norma como um exercício contabilístico sofisticado, mas estéril. Em demasiadas organizações, a IFRS 17 vive num silo, produzindo-se relatórios brilhantes que não influenciam decisões de gestão. É como comprar um telescópio para o deixar na caixa.
E isto é trágico porque a IFRS 17 é, pela primeira vez, um modelo económico explícito do negócio segurador. Expõe a criação de valor ao longo do tempo. Separa a componente técnica da financeira. Obriga a escolhas conscientes sobre risco, margem e duração. Aproxima a contabilidade da economia da empresa de seguros. Ignorar isto é desperdiçar um dos maiores investimentos de transformação da história do setor.
Os investidores não querem métricas idênticas. Querem narrativas coerentes, explicações sólidas e, sobretudo, previsibilidade. A IFRS 17 oferece tudo isso, mas só a quem tiver coragem de a usar como linguagem estratégica e não como obrigação burocrática.
Se a clareza e o consenso ainda não chegaram, isso não é um fracasso. É um convite. Um desafio à liderança intelectual do setor. Menos obsessão com a mecânica da norma e mais foco no que ela revela sobre risco, valor e tempo. Menos debates técnicos isolados e mais integração entre contabilidade, risco, capital, estratégia e narrativa financeira. É precisamente aí que reside o seu valor. Não na métrica perfeita, mas na maturidade de quem a usa. A IFRS 17 não é um espelho automático. É uma lente. E cada empresa de seguros decide se a usa para ver melhor ou para continuar a ver o que sempre viu.
A IFRS 17 é a maior oportunidade de mudança do setor segurador nas últimas décadas, mas a maioria ainda está mais preocupada em viver com ela do que a alavancar como vantagem competitiva.
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