Lisboa inglória

A Câmara tem de ser a coragem de uma cidade e a força de uma cultura. Lisboa não precisa de uma Câmara espectadora das tragédias e notário das circunstâncias.

Viajar para Lisboa e morrer. Para os portugueses os elevadores servem para subir e nunca para descer. Para os turistas que desciam no Elevador da Glória percorriam 265 metros de uma viagem de sonho e de corpo e alma entre dois tempos de uma cidade desconhecida – O tempo do elevador e a vulgaridade do quotidiano banal. A viagem na colina é também o itinerário de uma Lisboa íngreme entre o século XIX e o século XXI. O elevador não percorre apenas o espaço entre dois lugares, mas estabelece a ligação invisível entre o passado e o presente de uma cidade provinciana vestida de cosmopolita. A maioria dos turistas não tem noção de que morreu num tempo incerto, uma morte rápida que acontece no tecido denso de um tempo longo. Começar a morrer no céu do Bairro Alto para acabar de morrer na terra dos Restauradores.

Pela discussão pública o Elevador da Glória é uma máquina. Mas uma máquina que se tornou parte da identidade de Lisboa, um mecanismo que na sua aparência frágil e amarela transporta o fluido metálico que pertence às fundações da cidade. Na calçada estreita o Elevador encontrou o seu lugar na memória de Lisboa como se fosse um monumento natural. As estátuas da cidade estavam vazias de pássaros porque o colóquio das aves percorria incansavelmente a curva da calçada à procura dos dois animais mecânicos que sobem e que descem. O silêncio na calçada, o hino das sirenes, as vozes afogadas nos escombros junto à esquina da rua, foram vistos do ar pelo temperamento das gaivotas colocadas como testemunhas mais leves do que o ar. Pela vida da cidade os animais mecânicos tornaram-se parte do movimento orgânico de Lisboa, um par de criaturas vivas que habitam como qualquer lisboeta uma rua da cidade. Na lista dos mortos ou dos feridos não consta a referência às duas cabines do Elevador desfeito sem glória.

Uma nuvem leve e morna ocupa a calçada como se fosse o nevoeiro que se liberta do choque entre dois séculos. Visto da Praça dos Restauradores, no olhar nivelado pelo chão primitivo da existência banal reflectido na montra das lojas de luxo, os portugueses vêem o impensável sem sentir o que pensam. “Daquilo que está em baixo até ao que fica no alto vão dois carris de metal na calçada de basalto. Desde este lugar sem história até ao lugar na história vão dois minutos no elevador da glória. Duma existência banal até às luzes da ribalta há dois carris de metal desde a baixa à vida alta. Desde o triste anonimato desde a ralé e a escória até à fama e ao estrelato há o elevador da glória”. É o Elevador da Glória transformado numa “metáfora poética” para representar o mecanismo de ascensão social inscrito na fábrica política da cidade. Tal é a inscrição do funicular na imaginação e na identidade da cidade, que o elevador da Glória passa a representar aqueles que nele viajam como objectos circunstanciais de um Elevador Social que simplesmente não existe na realidade.

Na lista das vítimas mortais constam cinco portugueses e onze cidadãos com outras nacionalidades. Na estatística da morte está talvez o retrato da vida de Lisboa. A morte fala o idioma universal do silêncio, mas no silêncio da morte é possível escutar uma espécie de fita sonora da circulação viva de uma cidade. A proporção dos mortos representa no momento a proporção dos vivos. Cinco para onze é talvez a razão certa que se vê e que se ouve na turbulência de uma Lisboa que se vende e que se expõe como se fosse um objecto para consumo imediato. Uma cidade transformada num drama estático e que partilha o destino final da morte. Todas as vítimas mortais são viajantes no tempo do Elevador da Glória, só que uns faziam a viagem de que quem está e outros a viagem de quem está de passagem. Mas a morte é um viajante eterno que se disfarçou na brisa marítima do Tejo para se espalhar com sangue pelos princípios da Baixa.

Depois há o mistério do Largo do Município. A circulação das marés passa por de baixo da Câmara. A Câmara não tem qualquer simpatia superior e desperta. Vista de fora, a Câmara é um edifício numa praça movimentada por bichos humanos que observam a tabuleta colocada à porta e cujas letras mais parecem móveis deitados sem que consigam formar um sentido. Os uivos metálicos do Elevador da Glória perdem-se na simetria da Baixa sem nunca conhecer os corredores da Câmara. Na mitologia da cidade não existem dragões, mas dois corvos à proa e à popa da nave dos tempos.

Pela história e pela tradição, a Câmara é o guardião da memória breve e do passado longínquo. Quando se contempla o edifício da Câmara apenas se sente que não se sente nada. E o que se sente é o fluido de uma ciência que anuncia o final do futuro. O olhar que se projecta da varanda da Câmara é a imagem de uma cidade com a alma cansada. Lisboa não tem diamantes mínimos nem demónios de papel. A Câmara tem de ser a coragem de uma cidade e a força de uma cultura. Lisboa não precisa de uma Câmara espectadora das tragédias e notário das circunstâncias.

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