Mário Centeno é o CR7. Joaquim Sarmento é o CR3,7

Nesta guerra de Centenos, afinal quem tem razão, Centeno ou Centeno? O do PS ou o do PSD? Na forma, o PSD ganha. No conteúdo, há um número do PSD que não bate certo: 3.700.000.000. Tem zeros a mais.

Se um Centeno incomoda muita gente, dois Centenos incomodam muito mais. A guerra entre o ministro das Finanças Mário Centeno e Joaquim Miranda Sarmento do PSD começou há pouco mais de uma semana quando no debate na rádio entre António Costa e Rui Rio ambos se puseram a discutir quem tinha o melhor Centeno.

Nesse debate, Rui Rio disse que “o Dr. António Costa tem um Mário Centeno, mas eu também tenho o meu Mário Centeno”, referindo-se a Joaquim Miranda Sarmento, responsável pela economia no programa eleitoral do PSD. Ao que o líder do PS respondeu: “Mas eu não troco o meu pelo seu, fique já descansado. E os portugueses também não”.

Esta discussão prova duas teses.

A primeira é a de que “Centeno” já não é apenas o nome de um português que é ministro das Finanças, benfiquista e pai de três filhos. Centeno passou a ser uma marca, tal como CR7, com quem um dia Wolfgang Schäuble resolveu comparar Mário Centeno. Se antes a marca “Centeno” era apenas usada para consumo interno entre os socialistas, — ainda todos nos lembramos do “Somos todos Centeno” de Adalberto Campos Fernandes, — agora “Centeno” já é usado pelos outros partidos, PSD inclusive.

“Centeno” antes era substantivo, mas agora “Centeno” é adjetivo. Qualifica alguém que é defensor de uma política de disciplina nas contas públicas, sem um discurso punitivo e sectário sobre a austeridade.

A segunda tese é que o discurso de rigor nas contas públicas (que já vem do tempo de Vítor Gaspar, faça-se-lhe alguma justiça) passou a fazer parte das preocupações de todos os partidos, da direita à esquerda. Nestas eleições, António Costa e Catarina Martins já prometeram “contas certas”, Rui Rio “rigor”, Jerónimo de Sousa quer “disciplina na avaliação da despesa pública”, Cristas acha que pagar a dívida é “um imperativo moral” e até o PAN diz que Portugal deve ser “responsável financeiramente”.

Este consenso é novo, é positivo e é sinal que aprendemos alguma coisa com o resgate e com a vinda da troika.

Discutir número a número, até à casa decimal mais aborrecida

É neste contexto político que surge a discussão sobre quem tem o melhor Centeno. Há quase duas semanas que PSD e PS/Governo discutem, vírgula a vírgula, número a número, até à casa decimal mais aborrecida e entediante, os programas económicos com que os partidos vão apresentar-se às eleições de domingo. Neste debate, parte dele feito através de artigos de opinião publicados aqui no ECO, quem tem razão? Convém olhar para a forma e para o conteúdo.

Na forma, ganha o PSD. Mário Centeno fez questão de fazer uma conferência de imprensa para dizer mal do programa económico do PSD, mas quando foi convidado para um debate com Joaquim Miranda Sarmento, esquivou-se. Primeiro disse que só debatia com candidatos a deputados, coisa que Joaquim não é. Quando Rio o convidou, com base no critério que ele próprio fixou, para debater com Álvaro Almeida, ficou sem argumentos e não deu a cara. Pôs-se a jeito para que Rui Rio questionasse: “Porque espera o CR7 das Finanças para honrar a sua palavra?”.

O Manifesto Anti-Dantas e o Manifesto Anti-Sarmento

Enquanto não aparece CR7 das Finanças para o debate, é João Leão, secretário de Estado, quem tem feito as despesas do jogo. Em dois artigos de opinião publicados aqui no ECO, este e este, o secretário de Estado abre o dicionário para adjetivar e apoucar, de cima a baixo, o programa económico do PSD. Fala em “logro”, “exercícios de magia”, “milagre”, “contradição insanável”, “alquimia”, “investimento público estratosférico”, “irrealismo”, “medidas radicais” e “ligeireza assustadora”. A última vez que alguém foi tão apoucado numa tertúlia pública foi quando Almada Negreiros escreveu o Manifesto Anti-Dantas. Só faltou mesmo a João Leão dizer a Miranda Sarmento: “Se o Joaquim é português eu quero ser espanhol! Pim!”.

E sobre o conteúdo da discussão, Centeno e João Leão tem alguma razão nos ataques que fazem? Têm. Há um número no programa do PSD que está a mais: 3,7 mil milhões de euros. O PSD propõe um gigantesco choque fiscal na próxima legislatura de 3,7 milhões de euros (1,9 para as famílias, 1,2 dos quais de IRS, e 1,8 para as empresas).

Este número de 3.700.000.000 euros tem vários problemas. Um deles é zeros a mais. O outro é que é suposto acontecer num período em que a economia já está a abrandar, o que lhe retira credibilidade. O terceiro problema é que o PSD prevê que esse choque fiscal seja financiado pelo crescimento extra que a economia supostamente terá, crescimento esse que é induzido pela própria baixa de impostos. É uma circularidade perigosa e pouco provável. Mesmo que a economia venha a libertar esse dinheiro, ele não deveria servir para baixar a dívida pública?

A última vez que o PSD prometeu um choque fiscal (mesmo assim bastante inferior a este prometido por Rui Rio) foi com Durão Barroso e Miguel Frasquilho. Ainda estamos sentados à espera do choque.

O pior deste número é que nem sequer Joaquim Miranda Sarmento acredita nele: “Há pouca margem para baixar impostos porque temos uma dívida pública muito elevada”, disse o responsável pelas finanças do PSD há um ano, numa entrevista ao Expresso.

O PSD atirou este número de 3,7 para cima da mesa, mas tem vindo a amenizar o discurso quando confrontado com as suas próprias fragilidades. Em entrevista à Lusa, Joaquim Miranda Sarmento já veio dizer que se houver menos crescimento do que aquele que espera o PSD, “haverá menos margem para reduzir o IRS e para aumentar o investimento público”.

Resumindo, o PSD faz uma grande promessa eleitoral mas coloca-lhe ao lado um gigantesco e monumental asterisco. * É demagogo, mas é cauteloso. Sarmento é um economista que acredita em contas certas e na necessidade imperial de o país reduzir a sua dívida pública. Mas está a fazer campanha a prometer o contrário. Nada que Mário Centeno já não tenha feito há quatro anos quando prometeu, por exemplo, borlas na TSU para todos. Afinal, são todos Centeno.

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